Coluna

Luciana Brito

O conhecimento como prática de resistência e luta

26 de julho de 2022

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Projetos de futuro e de acesso à educação das pessoas pobres negras e indígenas dependem de políticas públicas, de investimento e de compromisso com a educação

Desde que passamos a ter ministros da Educação que são contrários à educação, comecei a pensar como eles conciliariam suas crenças com o sistema de cotas. Atentos à adesão da sociedade brasileira às políticas de incentivo e ingresso de pessoas negras, indígenas e pobres nas universidades públicas no país, também desconfiei que muitos deles (ministros e parlamentares) não suspenderiam ou até mesmo não defenderiam abertamente o fim do sistema de reserva de vagas. Em vez de derrubar o sistema de cotas, eles o deixariam lá, ainda que por um tempo, intacto. Eu desejei estar errada, mas, infelizmente, não estava. A estratégia seria outra, que é a que assistimos em curso: deixar a universidade agonizar ao ponto da sua quase inexistência, ao mesmo passo que deixam que os jovens negros, indígenas, quilombolas e pobres abram mão da universidade.

Sem assistência e apoio, num país que ministros da Educação defendem abertamente que o acesso ao ensino superior deveria ser algo para os filhos e filhas das elites financeiras, jovens pobres abririam mão da universidade. Eis então o que vivemos agora.

Segundo pesquisa “Avaliação das políticas de ação afirmativa no Ensino Superior no Brasil”, desenvolvida pelo Laboratório de Estudos e Pesquisas em Educação Superior da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), e pela Ação Educativa, um trabalho que envolve pesquisadoras e pesquisadores de diversas universidades brasileiras, inclusive aquela na qual leciono, a UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia), a política de cotas teve papel fundamental no aumento do números de mais brasileiras e brasileiros com diploma universitário.

Essa população para quem a universidade era um sonho distante agarrou a oportunidade com força, com as duas mãos, é o que também podemos perceber a partir dos dados da pesquisa. Ao contrário do que se afirmava ou se imaginava, que o desejo de entrada na universidade não teria lugar no pragmatismo imediato dos pobres em busca de alternativas supostamente mais rentáveis ou imediatas, em 2010 somente 10% das/dos discentes nas universidades eram cotistas. Já em 2019, o número saltou para 39%. Ou seja, pobres entendem, sim, que aumento de renda e possibilidades de emprego estão diretamente ligados a mais escolaridade.

E foi por entender isso que sofremos um golpe que, de forma ainda mais cruel durante a pandemia, vem sabotando esse sonho de ter um diploma de uma universidade pública. Ainda com base nos dados da pesquisa, o portal UOL entrevistou estudantes cotistas que tiveram que abandonar os estudos , pois, na conjuntura atual, sem auxílio permanência ou na insuficiência deste, não conseguiram se manter na universidade. Os relatos são carregados de muita tristeza e frustração. Assim, se a cada estudante desistente o Brasil perde os recursos investidos na sua educação, podemos entender que na política atual, a lógica é a seguinte: ao invés de, através de políticas de permanência, manter este estudante pobre na universidade e fazer valer o investimento já feito na educação dele ou dela, prefere-se perder este investimento desde que a/o estudante (cotista e ou pobre) desista de estudar.

Luciana Britoé historiadora, doutora em história pela USP e especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA. É professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e autora dos livros “O avesso da raça: escravidão, racismo e abolicionismo entre os Estados Unidos e o Brasil” (Barzar do Tempo, 2023) e “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista” (Edufba, 2016), ganhador do prêmio Thomas Skidmore em 2018. É também autora de vários artigos. Luciana mora em Salvador, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve mensalmente às terças-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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