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Se tem algo que chama a atenção nas pesquisas eleitorais é o perfil dos eleitores e eleitoras dos candidatos que lideram as pesquisas, o ex-presidente Lula e o presidente atual. Gênero, raça, regionalidade, religião e renda proporcionam um raio-x através do qual é possível entender a chamada polaridade da nação. As desigualdades são tantas, assim como os valores da população brasileira, que fica talvez impossível não perceber que o Brasil está dividido. Nesses dois Brasis, grosso modo, de um lado estão as mulheres, as pessoas negras, as pessoas pobres, a comunidade LGBTI+ e a região Nordeste, do outro lado está todo o resto, representado sobremaneira pelo homem branco, de meia-idade, sudestino e de renda alta.
Mas existe um dado que me chama muito a atenção, que é a escolaridade. Em tese, a parcela da população que tem maior grau de escolaridade seria aquela com melhores condições para avaliar a política, as/os políticos e os rumos da sociedade e seus impactos na economia, nas políticas de saúde e, sobretudo, na educação. A classe média e alta dita comportamentos, as elites econômicas decidem o que é chique e elegante e é através das mídias televisivas, dos currículos escolares e demais meios de reprodução de informações que seus valores são divulgados e cobiçados pelos mais pobres, servindo-lhes muitas vezes de referência.
Os pobres, supostamente ignorantes, estariam aguardando das parcelas mais “instruídas” as orientações sobre a forma ideal de viver, e inclusive de votar, pois não teriam condições de escolher o que seria melhor para si e para o país. O voto de cabresto, que tanto conhecemos, e que volta com tudo desde a eleição passada com a fragilidade e ataques ao sistema eleitoral, são um exemplo disso.
Contudo, as pesquisas eleitorais têm apontado outra realidade menos óbvia: são as pessoas pobres, negras e sobretudo as que menos estudaram que tem empurrado o Brasil para um campo democrático na eleição atual. Por outro lado, é a parcela mais instruída do ponto de vista da escolaridade, aquela que tem ensino superior completo, que a despeito da diversidade dentre esse grupo, tem em sua maioria revelado um apreço por um discurso autoritário, excludente, violento e surpreendentemente negacionista. Esses eleitores têm pouco ou nenhum compromisso com a ciência da qual se beneficiaram durante sua vida universitária.
De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral , os eleitores e eleitoras com Ensino Médio completo são a maioria do eleitorado brasileiro. Em seguida, estão as/os votantes com Ensino Fundamental incompleto. As pessoas votantes com Ensino Superior completo compõem somente 10,95% do eleitorado. Ao que parece, a maioria deste seleto grupo de pessoas escolarizadas está descomprometida com a educação como política pública número 1. É pelo menos o que depreendemos das suas escolhas, uma vez que as políticas de cortes na educação e na ciência do governo atual parecem não influenciar seu voto.
Luciana Britoé historiadora, doutora em história pela USP e especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA. É professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e autora dos livros “O avesso da raça: escravidão, racismo e abolicionismo entre os Estados Unidos e o Brasil” (Barzar do Tempo, 2023) e “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista” (Edufba, 2016), ganhador do prêmio Thomas Skidmore em 2018. É também autora de vários artigos. Luciana mora em Salvador, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve mensalmente às terças-feiras.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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