Coluna
Januária Cristina Alves
Tirem as crianças da sala! Como vamos explicar o que ocorreu
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Por favor, tirem as crianças da sala! Não as deixem ver o que estamos assistindo na TV, essas imagens que estão em todos os lugares, nas redes sociais, nas telas dos celulares e tablets. Por favor, tirem as crianças daqui, nessa “festa da Selma” não cabe criança, não cabe patriota, nem revolucionário, tampouco “gente de bem”. Tirem as crianças e os jovens – hoje presente e amanhã futuro – da frente desse cenário de horror. O que nossos olhos veem faz mal a todos que prezam pelos direitos humanos, pelo respeito às leis, à ordem, ao direito de pensar diferente, de expressão, à democracia, enfim.
Esse foi o meu primeiro pensamento quando fui sacudida pela avalanche de mensagens que chegavam ao meu celular, pedindo que eu ligasse a TV para ver o filme de terror B que passava, ao vivo e a cores, naquele domingo fatídico. Por muito pouco, não vimos ruir os prédios dos Três Poderes que governam o nosso país e, com eles, tudo o que construímos a duras penas nesses tempos tão árduos, desde a redemocratização. Foi com estupor, indignação, tristeza e revolta que pensei nas crianças assistindo a tudo isso. “O que diremos a elas?”, me perguntei inúmeras vezes.
Infelizmente não teremos uma resposta tão simples para o que houve, como se fosse uma equação matemática. Não será apenas um: “isso não pode, viu?”, um limite daqueles que demarcam claramente o que fazer ou não, que norteia e orienta a ética, aquela que deve pautar as relações sociais. Não, definitivamente não será uma explicação corriqueira. Mas essa deve ser uma tarefa que todos nós, cidadãos de bem, devemos nos empenhar para dar conta nos próximos dias, ou melhor, meses, e quiçá, nos próximos anos. Não será fácil explicar à essa geração porque uma turba de adultos, portadores de CPF, RG, “trabalhadores do Brasil”, senhores, senhoras, idosos, crianças (levadas pelos pais!!!!) resolveu invadir, quebrar, destruir, pisotear, urinar e defecar no patrimônio material (e imaterial) de todo um povo, de uma cultura, de um imenso país como o nosso. Que nome dar a isso? Como explicar – de modo a entender e aprender sobre – o que houve naquele 8 de janeiro de 2023?
Na mesma linha do que pensei ao ver as cenas de vandalismo explícito, Pedro Hartung, diretor de políticas e direitos das crianças, do Instituto Alana, tuitou: “AS CRIANÇAS ESTÃO VENDO! Hoje as crianças de todas as famílias brasileiras tiveram O PIOR EXEMPLO civil da nossa história recente de país! Viram adultos (pais, mães, avôs, etc.), tomados de ódio, vandalizarem o patrimônio público e tentarem um golpe nas instituições brasileiras”. E, já no intuito de tentar propor caminhos possíveis para lidarmos com esse imbróglio recomendou: “cabe a nós garantirmos que essas mesmas crianças possam testemunhar a responsabilização efetiva dos culpados, para deixar claro que a violência não é uma opção e que o respeito à democracia e às instituições é o único caminho da vida em sociedade!”. Como se já não bastasse todos os temas que temos de abordar com as crianças para que cresçam conscientes e capazes de protagonizar as mudanças das quais esse mundo precisa para tornar-se um lugar justo, equânime, social e ambientalmente sustentável, temos mais esse para lidar, pois, como bem lembrou Hartung, o exemplo educa e inspira, e o que vimos configura-se como um dos atos mais vis e deploráveis que um ser humano pode praticar. Péssimo exemplo, portanto. É urgente falar sobre isso com as crianças e jovens em casa, na escola, nos clubes, nas ruas, onde quer que elas estejam.
Não será fácil explicar às crianças porque uma turba resolveu invadir, quebrar, destruir, pisotear, urinar e defecar no patrimônio de todo um povo, de uma cultura, de um imenso país como o nosso
“Nesse caso, em Brasília, ocorreu uma tentativa de golpe de Estado. Um golpe ‘Tabajara’ [gíria para falso] é um golpe: não é porque fracassou ou foi malplanejado que ele se torna brincadeira”, afirma o ex-ministro da Educação e atual e presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), Renato Janine Ribeiro, em entrevista para a plataforma Porvir, ressaltando a importância de se levar os fatos políticos para a escola. Para ele, um dos caminhos passa pelo estudo sério e acurado da Declaração Universal dos Direitos Humanos, documento histórico da ONU (Organização das Nações Unidas), de 1948. “Toda essa tragédia pela qual o Brasil passou tem muito a ver com a omissão do país em lidar com um legado autoritário”, frisa.
Há explicações de toda ordem para o que aconteceu: a polarização amplamente divulgada, curtida e compartilhada nas redes sociais, a divulgação irresponsável – também amplificada ao extremo pelas mídias, inclusive pela chamada “grande mídia” – de teorias conspiratórias que provocam a descrença nas instituições que são pilares da sociedade como a ciência, por exemplo; o comportamento (olha aí o exemplo!) do nosso ex-presidente cujo símbolo de campanha era uma “arminha” na mão, o descaso com a educação, as artes e a cultura, a imensa desigualdade social e econômica, o individualismo exacerbado que leva as pessoas a, quando encontram um grupo que pensa igual, sentirem-se acompanhadas e pertencentes a ele… E por aí vai.
Certamente, atos como esses não acontecem “por acaso”: têm causas profundas. O que estamos vendo é a consequência. Portanto, cabe-nos observar com muito cuidado a história, porque é ela que irá nos iluminar para planejarmos os próximos passos. Devemos ensinar às crianças a olhar o que nos acontece com “olhos de ver”, a fazer uma leitura “360 graus” da realidade, a compreender que o mundo é complexo e que, muitas vezes, não há uma única resposta para as perguntas que surgem. Por outro lado, há verdades que não podem ser contestadas e isso deve ficar cada vez mais claro, para que as teorias conspiratórias não proliferem. Como diz o professor Janine: “você não pode dizer que a água ferve a 50 graus ou que o Brasil foi descoberto pelos marcianos. Quando chegamos à questão da ética, é preciso se basear nas declarações de direitos, na igualdade de direitos, em todas essas conquistas dos últimos séculos e na Constituição”. É urgente afirmarmos que há princípios que são inegociáveis.
No mundo em que vivemos, muitas pessoas elegeram as crenças como o único critério para aferir o que é verdade em substituição a todo um sistema de referências que contávamos, e isso tem corroído por dentro todo o nosso sistema informacional. Como diz o filósofo Manuel Castells, vivemos na “Sociedade da Informação desinformada”, por isso, mais do que nunca, ler as linhas e as entrelinhas faz parte do processo de compreensão dos acontecimentos, e, por isso, ter a percepção histórica dos fatos nesse momento é primordial. Como afirmou o jornalista Pedro Doria na newsletter Meio Político: “escolheram, dentro dos prédios, alvos muito específicos. O discurso dos vândalos é confuso, falam das quatro linhas da Constituição, dizem ser democratas, mas sua raiva teve coletivamente dois alvos claros. A cultura que produzimos e a democracia que construímos. Isto não é coincidência. Por ser um ato coletivo perpetuado por uma turba em descontrole, se os alvos foram a arte e ícones democráticos, coincidência não é. Atacaram o que odeiam, o que não os representa, aquilo que simboliza o que lutam contra (…) Nós talvez ainda não tenhamos percebido, mas o 8 de janeiro não foi um espanto. Esteve mais para espetáculo. É. A violência virou paisagem. Nos habituamos”. É necessário trabalhar árdua e cotidianamente para que as crianças e jovens entendam que o que viram foi uma anomalia, que todos os que participaram desses atos devem ser responsabilizados e punidos, e mais importante: que não podemos, de jeito nenhum, nos acostumar com isso.
Januária Cristina Alvesé mestre em comunicação social pela ECA/USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), jornalista, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira, coautora do livro “Como não ser enganado pelas fake news” (editora Moderna) e autora de “#XôFakeNews - Uma história de verdades e mentiras”. É membro da Associação Brasileira de pesquisadores e Profissionais em Educomunicação - ABPEducom e da Mil Alliance, a Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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