Coluna

Luiz Augusto Campos

Apocalípticos e integrados: os intelectuais e o governo Lula

18 de abril de 2023

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Postura defensiva, própria de uma intelectualidade acuada por todo tipo de barbárie, começa a ceder espaço para discussões mais profícuas sobre o futuro do Brasil, ainda que por vezes de modo contraditório

Os primeiros 100 dias de Lula na Presidência da República marcaram não apenas o retorno de uma agenda governamental positiva, mas também a promoção de um debate intelectual dinâmico. Não que os anos de Bolsonaro tenham sido marcados por um silêncio dos(as) acadêmicos e acadêmicas, ao contrário. Mas aos poucos, a postura defensiva, própria de uma intelectualidade acuada por todo tipo de barbárie, começa a ceder espaço para discussões mais profícuas sobre o futuro do Brasil, ainda que por vezes de modo contraditório.

Os desafios atuais para a intelectualidade não são simples. Quatro anos de governo Bolsonaro foram suficientes para destruir parte importante do investimento social brasileiro, colocar em xeque as instituições democráticas e fermentar o neoconservadorismo em diferentes estratos sociais. A vivacidade do bolsonarismo, patente na sua apertada derrota eleitoral e nos eventos de 8 de janeiro, exige pressa e eficácia mas respostas progressistas organizadas pelo governo. Ao mesmo tempo, seu slogan fundamental, centrado na reconstrução e na união nacional, bem como suas ações iniciais, parecem tornar o terceiro governo Lula uma reedição, em novos tempos, de algum de seus mandatos pregressos.

A contradição fundamental emerge de um mundo pós-apocalíptico, destruído não só por forças internas, mas também por movimentos globais de dilapidação das políticas de bem-estar, de ataque dos direitos humanos parcamente conquistados e do recrudescimento do conflito social e político. Nesse cenário, o apelo governamental à reintegração nacional em um projeto progressista minimamente compartilhado pode soar ousado e modesto ao mesmo tempo.

A entrevista de Paulo Arantes à Folha de S.Paulo em março é um bom exemplo dessa contradição. Ela antevê – e de certo modo, almeja – uma espécie de “melhora fútil” que o governo Lula propõe. Para Arantes, as políticas do governo provavelmente cessarão temporariamente os retrocessos, mas dificilmente afetarão o aprofundamento do capitalismo em sua fase mais cruel. De modo curioso, Arantes reconhece o cenário pós-apocalíptico encontrado pelo governo, mas o considera integrado às dinâmicas estruturais do capitalismo moderno. Tudo se passa como se a centro-esquerda petista fosse um remédio, ou placebo, para garantir a própria sobrevivência de um capitalismo feroz que ameaça seu próprio fundamento. Nos seus termos:“qual é o projeto lulista? Eles continuam sem nenhum projeto, como não tinham em 2003. Em 2003, era um discurso progressista, desenvolvimentista, redistributivista. Vai continuar sempre assim: tudo pelo social, tudo pelo emprego, não tem nada de novo. A novidade, de fato, é o que o lulismo fez e nós não prestamos atenção e não soubemos valorizar, só valorizamos quando veio o bolsonarismo: essa redução de danos. Isto é, o lulismo foi um anteparo para essa destruição inerente ao capitalismo nessa sua fase atual, em que ele destrói o seu próprio fundamento, que é a fonte do valor, o trabalho vivo”.

Esse amálgama entre apocalipse e integração ganha nova forma num ensaio-resposta de Gabriel Feltran ao texto de Arantes. Feltran toma o autoritarismo recente como epifenômeno de tendências muito mais intestinais e totalitárias da sociedade brasileira, em que jagunços locais teriam plasmado um projeto totalitário de controle nacional. Mas se a derrota de Bolsonaro implicaria uma derrota temporária desse projeto, a vitória de Lula não levará à sua superação, ao contrário. A reedição de políticas e estratégias dos governos petistas já indicaria, para Feltran, a falta de ousadia em relação a um dos maiores problemas nacionais, a violência pública. Mais do que isso, Feltran vaticina que o modo lulista de investir na segurança, promovendo as corporações policiais e aparelhando-as com as mais modernas tecnologias de controle, mais alimenta do que desnutre nosso totalitarismo cotidiano:“tudo se passa como se seu principal adversário político, o totalitarismo, não estivesse sendo gestado justamente nos orçamentos da Segurança desse governo, entre outras coisas pelo tipo de relação que ele produz com a administração política da força. Não se nota que a área da Segurança é a área da administração estatal da violência, onde o jogo político se joga mais pesadamente hoje”.

Luiz Augusto Camposé professor de sociologia e ciência política no IESP-UERJ (Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro), onde coordena o Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa, o GEMAA. É autor e coautor de vários artigos e livros sobre a relação entre democracia e as desigualdades raciais e de gênero, dentre os quais “Raça e eleições no Brasil” e “Ação afirmativa: conceito, debates e história”.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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