Coluna

Januária Cristina Alves

Como formar leitores capazes de fazer perguntas inquietas?

03 de agosto de 2023

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Leitura profunda alimenta a imaginação, enquanto que a sequência ininterrupta e cada vez mais veloz das mídias digitais embota os sentidos

“Chapeuzinho Vermelho: O que encontrou? O que terá aprendido no tempo em que esteve lá dentro, nas profundezas do grande, grande, lobo feroz? A Madrasta: Aprendeu a ser malvada, ou terá sido má desde o princípio? Branca de Neve: Esteve morta ou adormecida? João e Maria: Por que voltaram pra casa?”

“Vamos supor que as rãs fossem tão grandes quanto as crianças… e as crianças tão grandes quanto as rãs. Suponhamos que as rãs se vestissem… e as crianças, não.”

Esses são trechos de dois livros infantis lançados recentemente pela editora Pulo do Gato. O primeiro, intitulado “Perguntas inquietas”, é da autora e ilustradora espanhola Beatriz Martín Vidal, e o segundo, “Suponhamos”, é do escritor e ilustrador colombiano Ivar da Coll. Ambos têm em comum uma temática extremamente cara para a formação de leitores críticos: o exercício de fazer perguntas. As duas obras, a princípio indicadas para crianças pequenas, convidam também aos adultos – como toda obra literária de qualidade – a fazer da leitura uma experiência de imaginar um mundo cheio de alternativas.

Se a ideia dos livros não é totalmente original – pois conhecemos deliciosas paródias com os contos de fadas tradicionais como “A verdadeira história dos Três Porquinhos”, de Jon Scieszka (Cia. das Letrinhas) e “A outra história de Chapeuzinho Vermelho”, de Jean-Claude R. Alphen (ed. Salamandra), por exemplo – eles tornam-se extremamente bem-vindos e indicados para o momento em que vivemos, em que a desinformação e as fake news roubam dos leitores as diferentes possibilidades de leitura, de interpretação dos fatos, confundindo-os com a falsa diferença entre fato e ficção, traduzindo essa última no pior sentido da palavra, como aquilo que “não é real”, como se “real” fosse o sentido distorcido de uma pretensa realidade presente nos textos que pululam nas redes sociais. O que esses livros oferecem, de uma maneira inteligente e instigante, é a condição de o leitor buscar diversos sentidos para o que está escrito, experienciando uma interação com as narrativas de uma maneira totalmente diferente do que o faz nas mídias e redes sociais.

Contato com histórias, sejam elas advindas de fatos ou ficção, nos humaniza e faz com que possamos encontrar as respostas para problemas que nos assombram

O desinteresse pela literatura é uma das maiores preocupações dos educadores brasileiros. Como vimos em uma das minhas colunas aqui no Nexo isso também tem acontecido em relação às notícias, o que nos leva a buscar saídas para que crianças e jovens encontrem um sentido, ou melhor, razões para gostar de ler (escrevi sobre isso em um livro para crianças intitulado “Crônicas de papel: razões para gostar de ler”, vencedor do Proac do governo de São Paulo de 2011, e depois editado pela Mercuryo Jovem). Segundo os dados da 5ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, principal levantamento sobre o comportamento de leitores e acesso ao livro no país, apenas 50% da nossa população tem o hábito de leitura. E esse cenário se mantém igual desde 2001 quando a pesquisa foi realizada pela primeira vez. Dados recém-divulgados da avaliação global Pirls (sigla em inglês para Progress in International Reading Literacy Study) mostram o Brasil à frente somente de Irã, Jordânia, Egito e África do Sul em um ranking que avaliou em 57 países a capacidade de leitura e compreensão de textos de alunos do 4º ano do ensino fundamental, o que corrobora dados da última avaliação do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), em que somente um terço dos nossos estudantes consegue diferenciar um texto informativo de um artigo opinativo. Por outro lado, segundo estudo da McAfee os jovens brasileiros são os que mais utilizam aparelhos eletrônicos no mundo. A pesquisa entrevistou 15 mil pais e mais de 12 mil fcrianças em dez países e revelou que a taxa de uso de smartphones por adolescentes e jovens brasileiros está na faixa de 96%, bastante acima da média global. Os números indicam que, de fato, o texto anda perdendo para os vídeos e dancinhas no TikTok e as razões pelas quais isso ocorre são muitas e multifacetadas, por isso a questão não se resolve com magia e tampouco com a proibição das traquitanas digitais na escola.

A leitura, assim como o acesso à informação de qualidade, é um direito básico do ser humano. O contato com as histórias, sejam elas advindas de fatos ou ficção, nos humaniza e faz com que possamos encontrar as respostas para problemas que nos assombram como habitantes deste planeta. Como afirma a antropóloga francesa Michèle Petit: “se a leitura me oferece o acesso ao outro, ao estranho, ao desconhecido, ao mesmo tempo que o aproxima de mim, se me permite encontrar lugares de proteção e de segurança, se me estende códigos que me permitirão dar um sentido narrativo à minha experiência e, do mesmo modo, me permite ouvir a experiência do outro, então a leitura é uma ‘exigência vital’”.

Que convite podemos fazer para que crianças e jovens entendam a leitura como essa “exigência vital”? Se a demanda por histórias parece ser atendida pelos vídeos, séries e narrativas visuais, a experiência leitora pede uma entrega mais profunda, já que convida a um mergulho solitário e silencioso em um mundo desconhecido no interior de cada um de nós. É o que a neurocientista americana Mayanne Wolf chama de “leitura profunda”, essa, a única capaz de formar leitores críticos. “A formação cuidadosa do raciocínio crítico é a melhor maneira de vacinar a próxima geração contra a informação manipuladora e superficial, seja em textos ou telas. (…) Numa cultura que premia a imediatez, a facilidade e a eficiência, o longo tempo e o esforço que se exigem para desenvolver todos os aspectos do pensamento crítico fazem dele uma entidade combatida”, ela afirma em seu livro “O cérebro no mundo digital” (ed. Contexto).

A leitura profunda alimenta a imaginação, enquanto que a sequência ininterrupta e cada vez mais veloz das mídias digitais embota os sentidos. Ambas podem conviver, uma não exclui a outra, como acredita a neurocientista. Mas é preciso oferecer razões e sentidos para que os novos leitores possam apreciar e testar possibilidades, buscar outras realidades, e isso passa pelo reconhecimento e o valor das diferenças, para ir além das bolhas atraentemente embaladas pelos algoritmos. Por isso me encantam as perguntas como essas que iniciam esse artigo. As perguntas nos inquietam, incomodam, nos fazem levantar a cabeça (e como essas crianças e jovens estão ficando encurvadas, ensimesmadas diante de seus celulares!) e olhar o infinito e além. Nesse sentido, penso que o convite a ser feito é: leiam e façam perguntas, leiam e imaginem outras realidades, leiam e encontrem outros leitores e nãoleitores, leiam para se divertir, sobretudo para seguir perguntando, porque só assim nunca estaremos sós, mas bem acompanhados pelas boas histórias de todos e de cada um, nessa busca de sentido para o nosso existir.

Januária Cristina Alvesé mestre em comunicação social pela ECA/USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), jornalista, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira, coautora do livro “Como não ser enganado pelas fake news” (editora Moderna) e autora de “#XôFakeNews - Uma história de verdades e mentiras”. É membro da Associação Brasileira de pesquisadores e Profissionais em Educomunicação - ABPEducom e da Mil Alliance, a Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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