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Marcelo Coelho

Jon Fosse, um prêmio Nobel que não vai muito longe

06 de dezembro de 2023

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Precisamos de um Beckett no século 21? E o que seria um Beckett no século 21?

Neste ano, o mundo editorial brasileiro não foi pego de surpresa quando a Academia Sueca anunciou ovencedor do Prêmio Nobel de Literatura. O norueguês Jon Fosse já teve seu romance “Melancolia” publicado em 2015 pela editora Tordesilhas. Dois livros curtos, “Brancura” (ed. Fósforo) e “É a Ales” (ed. Companhia das Letras), tiveram seu lançamento praticamente coincidindo com o anúncio do prêmio.

É pouco provável que eu venha a ler a obra-prima de Fosse, “Septologia”, sete novelas encadeadas emmais de oitocentas páginas. “Brancura” e “É a Ales” me bastaram.

Não é que sejam livros ruins, ou especialmente chatos. Você começa, e até vai. Tome, por exemplo, oinício de “Brancura”: “Eu dirigia sem parar. Era bom. Era boa a sensação de estar em movimento. Sem saber para onde estava indo. Apenas dirigia.”

Há um tom direto, e o leitor se reconhece numa experiência que, embora não rotineira, ésuficientemente geral. Muita gente já teve essa sensação de dirigir a esmo, apenas pelo prazer de dirigir. Mas estamos na Noruega, em pleno inverno; o carro vai se embrenhando por uma floresta, seguindo caminhos cada vez mais estreitos, e aí empaca. Está escurecendo, e, na época da narrativa, não se tinha celular.

A semelhança dessa floresta com a “selva oscura” em que Dante Alighieri se viu perdido, no início da“Divina Comédia”, não é casual num autor que se converteu ao catolicismo em 2013. O que se segue em “Brancura”, todavia, não é o desfile de episódios e personagens que fazem do poema de Dante um retrato vivíssimo da variedade humana. O que temos, na novela de Fosse, é uma ruminação hesitante e solitária, ao longo da qual o narrador encontra, ou pensa encontrar, os espectros inalcançáveis de seu pai e sua mãe.

Marcelo Coelhoé jornalista, com mestrado em sociologia pela USP (Universidade de São Paulo). Escreveu três livros de ficção (“Noturno”, “Jantando com Melvin” e “Patópolis”), dois de literatura infantil (“A professora de desenho e outras histórias” e “Minhas férias”) e um juvenil (“Cine Bijou”). É também autor de “Crítica cultural: teoria e prática” e “Folha explica Montaigne”, além de três coletâneas com artigos originalmente publicados no jornal Folha de S.Paulo (“Gosto se discute”, “Trivial variado” e “Tempo medido”).

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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