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Diante do que acontece na Faixa de Gaza, e de tudo o que se segue em matéria de islamofobia e antissemitismo no cenário mundial, a questão do nariz falso usado por Bradley Cooper no filme “Maestro” se torna mais ridícula do que nunca.
Era bem mais tranquilo o tempo em que alguns ativistas consideraram preconceituosa a maquiagem do ator. Sem ser judeu, Bradley Cooper acrescentou alguns milímetros ao próprio nariz para ficar parecido com o compositor e regente Leonard Bernstein, protagonista do seu filme.
A acusação de “antissemitismo” se baseava, a meu ver, num paralelo falso. O movimento negro abomina com razão, há muito tempo, a prática do “blackfacing”. Atores e cantores brancos, há cerca de um século, cobriam o rosto de carvão, deixando um grosso espaço branco em volta da boca, para se fingir de negros.
O resultado estava longe de ser “realista”: criava-se uma caricatura do “crioulo doido” ou da “nega maluca” para entreter uma plateia imersa em preconceitos ridicularizantes.
Mais tarde, veio o processo igualmente absurdo de maquiar atores brancos para que representassem papéis de negros; foi assim que o venerando Sérgio Cardoso, numa novela dos anos 1960, estrelou “A cabana do pai Tomás”, e, uns 20 anos mais tarde, Juca de Oliveira “amorenou-se” para representar Otelo num teatro paulistano.
Marcelo Coelhoé jornalista, com mestrado em sociologia pela USP (Universidade de São Paulo). Escreveu três livros de ficção (“Noturno”, “Jantando com Melvin” e “Patópolis”), dois de literatura infantil (“A professora de desenho e outras histórias” e “Minhas férias”) e um juvenil (“Cine Bijou”). É também autor de “Crítica cultural: teoria e prática” e “Folha explica Montaigne”, além de três coletâneas com artigos originalmente publicados no jornal Folha de S.Paulo (“Gosto se discute”, “Trivial variado” e “Tempo medido”).
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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