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Olavo Amaral

Hiroo Onoda e as pandemias sem fim

14 de maio de 2024

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Mais importante do que vencer os embates polarizados em torno da covid-19 é conseguir deixá-los para trás e refletir sobre o que estivemos alvejando

Uma das histórias mais fascinantes do século 20 é a do tenente Hiroo Onoda, oficial japonês designado para proteger a ilha de Lubang, nas Filipinas, durante a Segunda Guerra Mundial. Quando os americanos invadiram em 1945, Onoda se refugiou com outros três soldados nas florestas montanhosas que cobrem a ilha.

Por décadas, Onoda e seus colegas permaneceram escondidos na selva, roubando fazendas para alimentar-se e fazendo sabotagens eventuais na ilha dominada pelo inimigo. Com o passar dos anos, um dos oficiais rendeu-se e dois morreram, deixando Onoda sozinho e decidido a não acreditar na propaganda de que a guerra havia acabado. Ele só viria a se entregar em 1974, depois de ser encontrado e receber instruções pessoais de seu ex-comandante, que viajou até Lubang para ordenar que ele depusesse suas armas.

A história de Onoda – que li em O Crepúsculo do Mundo, de Werner Herzog – me retornou à cabeça no mês passado, depois que dediquei uma coluna ao PRINCIPLE, um ensaio clínico recente que mostrou um benefício discreto da ivermectina no tempo de recuperação da covid-19. Não pretendia retornar ao tema, mas a repercussão curiosa da coluna acabou se tornando uma experiência sociológica digna de relato.

Pra ser honesto, meu texto não teve tanta repercussão por si só. O principal entusiasta dele foi Filipe Rafaeli, tetracampeão brasileiro de acrobacia aérea, um sujeito que se tornou obcecado por tratamentos controversos para a covid-19 e hoje passa boa parte do seu tempo acordado defendendo sua eficácia. De acordo com Rafaeli, meu texto era um “gato subiu no telhado” – um primeiro alerta de que no fundo ele sempre esteve certo sobre a eficácia da ivermectina. Seus seguidores, porém, foram menos generosos comigo. Alguém disse que eu tentava “passar o pano pra mim mesmo”. Outro alegou que eu estava “fazendo hedge depois de apostar em cavalo perdedor”. E vários disseram que eu simplesmente estava errado ao dizer que o tratamento não parecia ter impacto significativo sobre hospitalizações ou mortalidade.

A história teria morrido em cantos obscuros das redes sociais se não fosse retomada por Pablo Ortellado, filósofo e professor de políticas públicas da USP, cuja visibilidade é bem maior do que a minha. Em sua coluna no jornal O Globo, ele partiria do meu texto (ainda que interpretando a evidência pró-ivermectina de forma mais otimista do que eu) pra escrever sobre o mesmo tema que eu tinha tentado tratar: a dificuldade de manter a ciência isenta em um tema politicamente conflagrado. Para além dos tratamentos, Ortellado abordaria a dificuldade de discutir de forma não dogmática tópicos polarizados pelo bolsonarismo durante a pandemia, como o fechamento de serviços e escolas, num fenômeno que ele chama de “antipopulismo”.

De uma hora pra outra, choveram reprints do texto nas redes sociais. O influencer de direita Kim Paim afirmou que Ortellado estava defendendo várias questões que Bolsonaro apontava. O controverso infectologista Francisco Cardoso chamou o texto de “sincerídio”, dizendo que o “representante de George Soros no Brasil afirma que estávamos certos sobre tudo na pandemia”. A “capitã cloroquina” Mayra Pinheiro afirmou que o texto era uma “gravíssima confissão de culpa” de que destruir o governo justificava “deixar milhões morrerem”. E até o ex-ministro da Saúde Marcelo Queiroga entrou no coro, cuja opinião dominante era a de que o uso da ivermectina teria salvo muitas vidas – mais exatamente milhares, centenas de milhares, ou mesmo os milhões sugeridos por Pinheiro.

Naturalmente, a maioria dessas pessoas não parece ter lido o que escrevi até o fim. Na verdade, a evidência de que a ivermectina não parece ter grande benefício sobre hospitalizações e mortes por covid-19 se acumula de forma razoavelmente consistente desde 2022, inclusive no próprio PRINCIPLE, estudo que deu origem à discussão. Com isso, mesmo que a redução no tempo dos sintomas seja real – o que ainda é um ponto disputado –, as promessas de que a droga poderia acabar com a pandemia e que quem a tomasse “não ficaria doente” estavam erradas – aliás, provavelmente bem mais do que as afirmações categóricas de que ela não tinha efeito nenhum

O objetivo da ciência – ou de sua comunicação pública – é tentar errar o menos possível em nossas afirmações sobre o mundo, e não simplesmente ‘errar menos do que Bolsonaro’

O ponto é levantado em um artigo do jornalista Carlos Orsi, do Instituto Questão de Ciência que dá a nítida impressão de estar respondendo diretamente ao meu texto sem jamais citá-lo – seja para “não debater com negacionistas” (como o Instituto costuma pregar), seja porque é mais fácil discutir com um espantalho do que com um adversário real. Após citações ao PRINCIPLE para argumentar que os autores são transparentes sobre a redução na duração dos sintomas, e uma rebuscada volta sobre astrologia para explicar que isso pode se dever ao efeito placebo, Orsi chega à conclusão que fiz acima – o de que dizer que “todos estão errados” não significa que todos estejam “igualmente errados”. 

O argumento é ao mesmo tempo correto e sintomático do problema que eu tentava apontar. O objetivo da ciência – ou de sua comunicação pública –, afinal, é tentar errar o menos possível em nossas afirmações sobre o mundo, e não simplesmente “errar menos do que Bolsonaro” – o que aliás é um sarrafo bem baixo. Com isso, a conclusão sobre “quem errou mais” pode até estar certa, mas responde à pergunta errada: parece mais importante discutir como poderíamos ter errado menos e sido mais transparentes sobre nossas incertezas.

Aliás, minha impressão é que sempre que a disputa passa a ser sobre “quem errou mais”, isso acaba nos emburrecendo. Ela pode até fazer sentido numa eleição com duas alternativas excludentes; dito isso, eu não votaria em Bolsonaro mesmo que ele tivesse acertado o efeito da ivermectina com cinco casas depois da vírgula, e suspeito que quem votou não daria bola para uma tonelada de ensaios clínicos negativos. Com isso, parece improdutivo  encarar o debate científico como um eterno terceiro turno entre os erros e acertos do “lado da ciência” e do “lado dos negacionistas” (em que os lados costumam se inverter conforme a posição política e as redes de confiança de quem fala).

Mas se a selva das redes sociais prova alguma coisa, é que a obsessão pela guerra contra o “outro lado” é forte. Depois da coluna de Orsi, o físico Leandro Tessler, professor da UNICAMP e autodenominado ativista pró-ciência, escreveu uma thread no X alertando que “a confraria das subcelebridades do (emoji de vaquinha) antivax bolsonarista estava em festa com a chegada de 2 novos membros” – no caso, Ortellado e eu. Tessler diz que por má fé ou por incompetência, “buscamos conclusões diferentes das dos autores” (curiosamente o argumento oposto ao feito por Orsi), e nos convoca a “continuar do lado do conhecimento, da cultura e da luz.”

Já a nutricionista e professora da UFRGS Raquel Canuto disse que “sempre sentiu um cheiro estranho nos meus textos” e alertando que “pessoas querendo ser espertas, disruptivas e ~racionais/apolíticas~ são perigosas, porque não tem compromisso com nada além do ego.” Confesso que concordo com a parte de pelo menos tentar ser esperto, disruptivo e racional, e separar ciência de política. Só não entendi porque seria perigoso. Pra mim, usar meu parco espaço na mídia pra falar de assuntos em que o que tenho a dizer não seja consenso parece maximizar a possibilidade de trazer alguma ideia nova. 

Tentando dar uma chance pro argumento de Canuto, talvez ela esteja falando de recomendações de saúde – nas quais concordo que tentar ser disruptivo é perigoso, e ser conservador sobre condutas e tratamentos costuma ser uma heurística sábia. Dito isso, não me lembro de alguma vez ter feito recomendações sobre saúde nessa coluna – nem sobre ivermectina, nem sobre coisa alguma. Mas a leitura de que eu estava fazendo “defesa de ivermectina para covid” é sintomática de um mundo em que jornalismo sobre ciência (que é o que eu tento fazer) e informação sobre saúde acabaram unidos sob o mesmo guarda-chuva da “divulgação científica”, o que me parece uma ideia ruim. 

Previsivelmente, os posts foram retuitados uma série de vezes e geraram respostas como “eles gostam de crianças mortas?”, “querem dizer que o coiso ignorante tinha razão?”, e desejos de que “nossas almas prestem contas no pós-morte”, bem como inevitáveis comparações com um outro Olavo aí. Em meio ao tiroteio, consegui pescar um que outro elogio, um dos quais acabou curiosamente reproduzido no site do Médicos pela Vida, organização de médicos conservadores formada em torno do tratamento da covid-19 que acabou pivotando para o ativismo antivacinas e a visibilização de práticas médicas alternativas

Tudo isso me faz voltar ao meu ponto inicial. O assustador da reação aos artigos é que quase todo mundo enxergou o que quis, e só conseguiu reagir a eles dentro de seu próprio framework de “funciona ou não funciona” ou “quem está certo”. Como se as opiniões estivessem presas em uma guerra perene contra um inimigo imaginário, que ora é o globalismo financiado por George Soros, ora é o caminho da ignorância, da incultura e das trevas. Qualquer um que se posicione entre os extremos acaba enquadrado por ambos os lados e virando alvo de um massacre fútil, que gasta tempo e energia dos participantes sem que ninguém jamais mude de opinião sobre nada.

Mas afora a simples futilidade, me parece haver algo de mais perigoso nessa selva. Quando um debate se torna inóspito a ponto de qualquer opinião divergente levar você a ser acusado de gostar de crianças mortas, tomar posição contrária ao consenso se torna um ônus que nem todo mundo tem estômago para encarar. Ao longo da pandemia, a polarização política de alguns temas tornou custoso para cientistas expressarem determinadas visões sobre origens da covid-19 ou riscos de vacinas sem comprometerem suas reputações acadêmicas, e isso sim me parece tornar o mundo um pouco pior e mais perigoso. 

Então venho aqui nessa coluna fazer meu papel de Norio Suzuki, o jovem japonês que entrou na selva de Lubang para encontrar Onoda, e depois foi até o Japão buscar seu chefe para convencê-lo a depor as armas. A covid-19 já perdeu o status de emergência global, tem gente profissional fazendo recomendações sobre o tema, e não me parece que a guerrilha nas redes sociais tenha uma razão de ser a essa altura. Ela talvez tenha cumprido um papel em março de 2020, para convencer o público de que tínhamos um problema quando as instâncias oficiais estavam ocupadas por imbecis com “histórico de atleta”. Mas pouco tempo depois, todo mundo já havia tomado posição sobre quase qualquer tema relacionado à covid-19, e a belicosidade só serviu para consolidar as certezas de ambos os lados. E se alguém porventura mudou de opinião nessa briga, certamente não foi por conta de ter sido chamado de gado nas redes sociais.

Para além de poupar quem alvejamos, parar de brigar por questões em que não somos especialistas nas redes faz bem a nós mesmos – e não só por permitir que nos ocupemos de coisas mais importantes do que atirar às cegas no meio do mato. Manter as armas no coldre e evitar o enfrentamento nos protege de uma espiral da morte, em que o tempo e energia dispendidos em defender uma causa publicamente torna cada vez mais difícil reconsiderar nossa posição sobre ela – o que acaba nos tornando impérvios à evidência e nos impede de discutir o tema sem colocar a mão no rifle.

E se entro na selva para fazer esse apelo, não é porque alguém precise mudar de ideia sobre a ivermectina, cujo uso na covid-19 provavelmente não faz tanta diferença assim. Mas porque superar a fábrica de certezas polarizadas construída pelas redes sociais parece fundamental para aprender alguma coisa que possa ser útil em outros debates que parecem ir pelo mesmo caminho – ou seja, ladeira abaixo. O que era inclusive o tema original dessa coluna, antes da cacofonia me interromper. 

Em tempo, minha mãe pegou covid na semana em que meu texto saiu. Ela me perguntou se deveria tomar ivermectina. Eu disse que achava que não importava tanto e fui olhar as recomendações oficiais dos EUA, que sugeriam o uso de nirmatrelvir. Mas custava 5 mil reais na farmácia, o médico não levou fé, e como ela já estava melhorando resolveu passar a sugestão. Alguns dias depois, o estado em que ela vive estava embaixo d’água, e havia problemas mais importantes para resolver. Que hão de gerar suas próprias selvas de certezas, com novos Onodas cobertos de razão lutando por muito tempo depois que a água baixar. 

Olavo Amaralé médico, escritor e professor da UFRJ. Foi neurocientista por duas décadas e hoje se dedica à promoção de uma ciência mais aberta e reprodutível. Coordena a Iniciativa Brasileira de Reprodutibilidade, uma replicação multicêntrica de experimentos da ciência biomédica brasileira, e o No-Budget Science, um coletivo para catalisar projetos dedicados a construir uma ciência melhor. Como escritor, é autor de Dicionário de Línguas Imaginárias e Correnteza e Escombros

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