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Januária Cristina Alves

Para lidar com grandes problemas, as pequenas ações

01 de agosto de 2024

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Os clubes de leitura se apresentam como um espaço precioso de trocas reais e verdadeiras porque contam com a presença no sentido mais preciso da palavra

“Um indivíduo leitor é um indivíduo mais livre e muito mais difícil de ser utilizado como massa de manobra por qualquer líder carismático. Através da leitura, as pessoas conseguem desenvolver seu senso crítico, amadurecer no consumo de conteúdo e compreender melhor algumas nuances, como o que é bem ou mal escrito, por exemplo, além de ter uma maior capacidade de percepção e apuração de uma notícia falsa. Quanto mais leitora uma pessoa é, maior é a sua independência intelectual”, me respondeu o comunicador e um dos maiores influenciadores digitais do país, Felipe Neto, quando lhe perguntei sobre a relação entre a Educação Midiática e a Literária, meu tema de pesquisa e escrita. Ele acaba de lançar o “Clube do Livro FN” com a ambiciosa proposta de formar leitores em um mundo em que essa geração Z, seu público-alvo, prefere a rolagem infinita das telas dos celulares às páginas (em papel ou não) de uma obra com começo, meio e fim. Felipe é um leitor voraz e declara que esse é um dos projetos mais importantes de sua vida, apostando na potência das trocas entre diferentes leitores, além, é claro, de efetivamente exercer sua influência – que pode ser mensurada por meio dos seus mais de 50 milhões de seguidores em seu canal no YouTube – incentivando e promovendo a leitura literária. 

Os clubes de leitura não são coisas novas, muito pelo contrário, há quem diga que eles já existiam na Grécia Antiga ou na Europa medieval. Na verdade, nada mais são do que a prática ancestral de nos sentarmos ao redor de uma fogueira para ouvir e contar histórias. E é desse rito que vem a sua potência, conforme definem Janine Durand e Luciana Gerbovic, autoras de “Clubes de Leitura: uma aposta nas pequenas revoluções” (Selo Emília/Solisluna Ed.): “O clube de leitura é um espaço de escuta, compartilhamento, trocas e incentivo ao desenvolvimento humano e à apreciação estética por meio da leitura literária. (…) Podem contribuir para a formação de um público leitor crítico, criativo e empático, já que incentivam o diálogo, a interação e a socialização do conhecimento e das sensações e reflexões despertadas entre os participantes. (…) Colocar a leitura literária no centro de um círculo é uma prática transformadora, pois convida à alteridade, desenvolve a rara qualidade da escuta e aprofunda a sensação de pertencimento: elementos-chave para a esperança em uma cidadania plena, em pequenas revoluções que contribuem para o aprofundamento da nossa cota de humanidade…”. Não à toa o youtuber Felipe Neto entendeu que é preciso oferecer aos adolescentes e jovens uma alternativa à (falsa) sensação de pertencimento ofertada pelas curtidas fáceis, numerosas e rápidas das mídias sociais. Em um mundo inundado por uma cacofonia incompreensível de vozes e num tempo “especialista em criar ausências” – como diz o imortal Airton Krenak –, os clubes de leitura se apresentam como um espaço precioso de trocas reais e verdadeiras porque contam com a presença no sentido mais preciso da palavra: o da atenção plena, considerada, pela escritora e filósofa Simone Weil, “a forma mais pura e rara de generosidade”.

E para quem pensa que é só a leitura que propicia esse exercício, vale destacar a observação da atriz Denise Fraga, que atua em duas peças teatrais que abordam essa temática – “Eu de você”, um monólogo, e “O que só sabemos juntos”, em parceria com o ator Tony Ramos: “Vivemos tempos turvos que nos convidam diariamente ao isolamento, ao medo do convívio e ao individualismo. Uma espécie de epidemia melancólica que nos tem aprisionado atrás de nossas telas geniais, que nos conectam e distanciam em alternância estroboscópica num abismo de encantamento e retórica (…) Tenho a impressão de que cada dia nos distanciamos mais da potência que poderíamos ser se estivéssemos realmente conectados e acredito que o teatro ainda é capaz de promover este milagre. Todos nós aqui, nesta sala, celulares desligados, escutando o silêncio, a respiração, a risada do outro.” 

Estar plugado ou não é sempre uma escolha entre o que nos interessa e o que queremos saber

Não raro as pessoas saem do teatro profundamente emocionadas, assim como dos clubes de leitura, como afirmam Durand e Gerbovic: “Sabemos que a literatura pode tocar profundamente as pessoas, afetando lugares muito íntimos (…) sair de um encontro com mais questões e com outras formas de ver o livro e o mundo mostra que o clube de leitura atingiu seu objetivo”. Ou seja, a experiência artística é transformadora, provocando emoções que as telas não dão conta de propiciar. “O espetáculo é uma convocação para que cada pessoa saia de sua bolha de isolamento e seja capaz de, genuinamente, se colocar no lugar do outro”, afirmam os atores Denise e Tony. 

Todos estamos em busca de alternativas para combater o vício em telas, para proporcionar a nós mesmos, aos nossos filhos, experiências que nos conectem verdadeiramente com o que é importante para o nosso amadurecimento e convivência social. E como problemas complexos não se resolvem de modo simples e rápido, é preciso buscarmos juntos alternativas para lidarmos com essa questão de maneira sensível e inteligente. O psicólogo e professor americano Jonathan Haidt, autor do best-seller “A Geração Ansiosa” (Ed. Companhia das Letras), tem nos provocado para que façamos essas transformações em grupo: “Estamos presos em um conjunto de problemas de ação coletiva. É difícil escapar deles como indivíduos, mas se fizermos isso juntos, podemos escapar”, ele afirma, em uma de suas entrevistas.

Nesse sentido, é fundamental lembrar que a questão das telas, das mídias sociais, da desinformação, das fake news, está profundamente ligada ao modelo de negócios das plataformas digitais, que se alimentam com os nossos cliques, ou melhor, com a nossa atenção. É sobre atenção e tempo que estamos falando. Estar plugado ou não é sempre uma escolha entre o que nos interessa e o que queremos saber, como reflete o escritor Amós Oz: “A boa literatura faz o oposto da fofoca: ela nos conta algo que não sabíamos sobre nós mesmos e sobre os outros. Ou algo que não queríamos saber.” 

Talvez estejamos precisando, mais do que nunca, escolher se queremos saber mais sobre nós e os outros estando presentes nas relações, ou mediados pelos algoritmos, que escamoteiam os nossos desejos e necessidades. Citando uma frase que circula frequentemente na internet, atribuída ao jornalista Leonardo Sakamoto: Falta amor no mundo, mas falta também interpretação de texto”, aproveito para frisar que talvez a literatura, o teatro, as artes, nos ajudem a realizar pequenas ações cotidianas, aquelas que proporcionam uma outra leitura e relação com esse mundo, seja ele on ou off-line.

Januária Cristina Alvesé mestre em comunicação social pela ECA/USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), jornalista, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira, coautora do livro “Como não ser enganado pelas fake news” (editora Moderna) e autora de “#XôFakeNews - Uma história de verdades e mentiras”. É membro da Associação Brasileira de pesquisadores e Profissionais em Educomunicação - ABPEducom e da Mil Alliance, a Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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