Coluna

Januária Cristina Alves

Equilibrando livros e telas: cérebro podre X cérebro leitor

05 de dezembro de 2024

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Umberto Eco acertou em cheio quando vaticinou que a internet nos roubaria a capacidade de analisar criticamente o que estamos acessando

Há dez anos, o filósofo e romancista Umberto Eco fez uma declaração polêmica que chocou muita gente: “a internet deu voz a uma legião de imbecis”. Como se fosse uma profecia, sua observação está se tornando realidade. “Brain rot” (cérebro podre, em tradução livre) foi considerada a palavra do ano pelo prestigiado dicionário de Oxford. O termo dá conta da suposta deterioração cerebral causada pelo excesso de consumo de conteúdos superficiais, como aqueles que circulam nas redes sociais (mas não exclusivamente). Segundo o dicionário, a procura pelo termo aumentou 230% ao longo de 2024, representando cerca de 130 mil buscas pelo verbete. A rede CNN publicou uma matéria revelando que, no início deste ano, uma empresa de saúde americana ofereceu tratamento para o tal “brain rot”, identificando-o como “neblina mental, letargia, redução da capacidade de atenção e declínio cognitivo”. Como se pode ver, essa questão tornou-se uma preocupação global.

Tal conceito se encaixa como uma luva naquilo que cientistas do mundo inteiro têm alertado sobre o consumo acelerado e superficial de conteúdos na internet e em especial, nas redes sociais. Umberto Eco acertou em cheio quando vaticinou que a internet nos roubaria a capacidade de analisar criticamente o que estamos acessando, pois nos inunda de informações de toda ordem, nos afastando de conteúdos mais complexos e que demandam uma interpretação mais acurada. Por isso, temos a sensação constante de que estamos ficando menos inteligentes, mais distraídos e com uma dificuldade maior para resolver problemas e tomar decisões funcionais. “No caso da internet, não penso que ela possa fazer a crítica da vida, porque o trabalho crítico significa filtrar, distinguir as coisas, ao passo que a internet é como o personagem do [escritor argentino Jorge Luís] Borges, Funes, memorioso: ela lembra de tudo, não esquece nada. Seria preciso exercer essa crítica — filtrar, distinguir — sobre a própria internet. Eu sempre digo que a primeira disciplina a ser ministrada nas escolas deveria ser sobre como usar a internet: como analisar e filtrar informações. (…) E isso é muito importante para os jovens, pois eles não têm, aos 15, 16 anos, os conhecimentos necessários para filtrar as informações a que têm acesso na rede”, afirmou o escritor em uma entrevista

A lista das razões que explicam o afastamento das pessoas dos livros é extensa e complexa. É certo que competir com os mecanismos que regem as redes sociais é tarefa inglória

Em um contexto no qual os celulares estão sendo banidos das escolas em muitos países do mundo, incluindo o Brasil; em que países como a Austrália instituem uma lei proibindo que menores de 16 anos acessem as redes sociais e em que 57% da população brasileira declarou que não leu sequer um livro inteiro no último ano, a reflexão sobre o que significa essa “deterioração do cérebro” torna-se fundamental. A neurocientista Maryanne Wolf, especialista global em letramento, autora dos livros “O cérebro no mundo digital” e “O cérebro leitor” (ed. Contexto) que recentemente participou de um webinar promovido pela Abrelivros, tem frisado que é preciso equilibrar a leitura de conteúdos digitais com os livros impressos, que favorecem o que ela chama de “leitura profunda”: “Minha principal preocupação é a seguinte: se não compreendermos as significativas contribuições e as necessidades de um cérebro que realiza leituras profundas, poderemos perdê-lo – algo que trará consequências para todos os membros de uma sociedade democrática”. Ela também chama atenção para um aspecto importantíssimo da leitura profunda: estudos demonstram que pessoas que leem fora das telas desenvolvem mais facilmente a empatia, o pensamento crítico, a inferência e a função contemplativa: “Ao rolarmos a tela, observar palavras e navegar, ignoramos a profundidade que está abaixo da superfície das palavras e dos pensamentos. Os milissegundos empregados pelo cérebro para considerar a complexidade do pensamento, o discernimento da verdade, a empatia pelas perspectivas dos outros e a reflexão pessoal pode fazer a diferença…”, disse ela.      

Equilibrar o acesso à internet com a leitura é, com certeza, um dos grandes desafios do nosso tempo. A 6ª edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, do Instituto Pró-Livro, revelou que 78% da população entrevistada usa a internet em seu tempo livre, sendo que 50,8% diz que as redes sociais são a principal atividade. A leitura de livros ocupa a 12ª posição dentre as atividades realizadas nas horas vagas. É interessante atentar para o fato de que, dentre os principais motivos pelos quais as pessoas afirmam não ler, está a falta de tempo. Porém, parece que ele existe quando se trata de acessar as redes sociais. 

A lista das razões que explicam o afastamento das pessoas dos livros é extensa e complexa e não cabe aqui detalhá-las. É certo que competir com os mecanismos que regem as redes sociais é tarefa inglória, pois os algoritmos parecem saber mais de nós do que nós mesmos. Os próprios jovens estão se dando conta disso e a proibição dos celulares na escola trouxe à tona algumas reflexões interessantes quando conversamos com eles. Uma adolescente de 13 anos de uma escola particular de São Paulo me disse que deixar o celular de lado fez com que ela buscasse outras coisas para fazer em seu tempo livre e assim acabou descobrindo “livros incríveis que eu nem sabia que tinha em casa”. Para um garoto de 12 anos da mesma escola, a desconexão fez com que ele redescobrisse “como é legal brincar com o cachorro e conversar com os amigos no recreio”. Uma terceira garota de 13 anos afirmou que acha que é papel da escola ajudá-los a encontrar outras possibilidades de conexão, seja com os amigos, com a família e também com os livros: “o celular virou o centro de tudo e acho que a gente tem que aprender a se autorregular”. 

Esta observação da menina contém uma verdade importante: a leitura é uma competência que deve ser ensinada, o nosso cérebro não nasce sabendo ler, já com relação à internet, as pesquisas mostram que ela apela para mecanismos cerebrais que têm a ver com a indução ao vício e a resposta automática aos mecanismos de prazer instantâneos. A leitura demanda um trabalho anterior ao prazer que ela provoca, e a recompensa é algo que se estende ao longo de uma vida. Ensinar as crianças e jovens a ler o mundo por meio das páginas de um livro requer um trabalho árduo para que aprendam a conferir importância ao que é sólido em contraposição ao efêmero. Tem a ver com prepará-los para valorizar o conhecimento como forma de habitar este mundo com maior segurança, com descobrir prazer nas descobertas e no exercício da curiosidade, do pensamento complexo, habilidades que a leitura de livros não digitais propicia. E isso, para uma geração que está com dificuldades em imaginar futuros possíveis porque só consegue pensar na angústia do viver “o aqui e o agora” é um desafio e tanto. Desafio este que todos temos a responsabilidade e o dever de ensiná-los a lidar e a superar. Pelo bem deles e do futuro da humanidade.

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Januária Cristina Alvesé mestre em comunicação social pela ECA/USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), jornalista, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira, coautora do livro “Como não ser enganado pelas fake news” (editora Moderna) e autora de “#XôFakeNews - Uma história de verdades e mentiras”. É membro da Associação Brasileira de pesquisadores e Profissionais em Educomunicação - ABPEducom e da Mil Alliance, a Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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