Carnaval (e) é política: poder e subversão em tempos de folia

Ensaio

Carnaval (e) é política: poder e subversão em tempos de folia
Foto: Pilar Olivares/Reuters

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Débora Thomé


24 de fevereiro de 2017

Há todo um campo da ação política que diz respeito à forma como as pessoas se relacionam com os poderes, com a cidade, com a sociedade de que fazem parte. É com esses elementos que estamos dialogando durante muitos momentos do Carnaval, fazendo farto uso de alegorias e adereços

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“Tem bumbum de fora pra chuchu, qualquer dia é todo mundo nu”, alardeavam a televisão e o rádio apresentando o desfile da Caprichosos de Pilares, em 1985. As crianças pequenas, reunidas na sala, ouviam o samba entre avós e tios; repetiam o refrão, imitavam as passistas, davam notas e comentavam o samba-enredo. No ano seguinte, parte da mesma família desfilou cantando o samba da Império Serrano “Quero nosso povo bem nutrido, o país desenvolvido, quero paz e moradia. (…) Me dá, me dá, me dá o que é meu, foram 20 anos que alguém comeu”, numa referência aos tempos idos da ditadura militar. Em 1988, a Mangueira – e além dela Beija-Flor e Vila Isabel – celebrava criticamente os 100 anos da abolição da escravatura: “Será, que a lei áurea tão sonhada, há tanto tempo assinada, não foi o fim da escravidão.” Todo mundo sabia as letras, todo mundo cantava. Certamente, em algum canto da memória dos hoje adultos brasileiros, essas canções estão bem guardadas, ecoando.

Ainda que a imagem do Carnaval brasileiro para o mundo possa estar associada a uma festa dionisíaca, regada a sexo e pessoas seminuas, o Carnaval por aqui sempre foi – e segue sendo – político. Sensualmente político. A ideia que alguns antropólogos apregoam do desbunde irracional, da catarse coletiva, de rompimento e desconexão completa com a vida cotidiana, é irreal e exógena. Quando se fala em política, as pessoas tendem a pensar em instituições, congresso, partidos. Mas há todo um campo da ação política que diz respeito à forma como as pessoas se relacionam com os poderes, com a cidade, com a sociedade de que fazem parte. É com esses elementos da pólis que estamos dialogando durante muitos momentos do Carnaval, fazendo farto uso de alegorias e adereços.

Não é nenhuma novidade na história. Ao contrário, o debate político é constituinte da folia.

Mesmo o Carnaval da Idade Média, época de grande proeminência da Igreja Católica, estava baseado na premissa de inversão hierárquica e no desafio – mesmo que temporário – às estruturas de poder. Na festa pagã, as fantasias destacavam padres bígamos ou homens vestidos de mulheres, como muito bem retratado no quadro de Pieter Bruegel “A luta entre o Carnaval e a quaresma”. A ordem era subvertida e, nesse processo, criticada.

Já no Brasil, em 1953, a marchinha “Maria Candelária” (Klécius Caldas e Armando Cavalcanti) falava da funcionária pública que fingia trabalhar. Em 1950, o Pedreiro Valdemar, de Wilson Batista e Roberto Martins, fazia “tanta casa e não tem casa pra morar”. Ainda antes, nos tempos de Getúlio, em pleno calor da Segunda Guerra, uma outra música brincava: “Quem é que usa cabelinho na testa e um bigodinho que parece mosca” (“Quem é o tal”, de Afonso Teixeira e Ubirajara Nesdan). Neste 2017, quase um século depois, a escola de samba carioca Imperatriz Leopoldinense sairá com um samba-enredo que faz críticas aos latifúndios. Os exemplos de crítica social são incontáveis.

Apesar do contexto nitidamente propício ao debate e ao questionamento, este ano, faltando mais de um mês para o Carnaval, uma polêmica movimentou o mundo dos blocos: tocar ou não tocar algumas marchinhas tradicionais com conteúdo considerado racista. A palavra “mulata”, um dos epicentros da questão, foi dissecada, debatida, defendida ou execrada. A letra de “O teu cabelo não nega” (Lamartine Babo), principalmente o trecho “mas como a cor não pega”, foi objeto de disputa por pesquisadores. Internamente, os blocos, sobretudo no Rio de Janeiro e em São Paulo, discutiram, de forma coletiva, como se espera, a inclusão dessa e de outras canções em seu repertório, afinal o intento é que os foliões e músicos estejam à vontade com as propostas que levam às ruas. Serão milhares de pessoas repetindo aqueles refrãos. Para um bloco feminista, como o Mulheres Rodadas, que se preocupa com o papel de sujeito da mulher na folia, tocar qualquer música que possa ofender suas integrantes seria incoerente, para dizer o mínimo. Ao mesmo tempo, censurar outros blocos e suas opções, também romperia com nosso preceito antiproibicionista.

trazer discussões políticas para dentro da folia é mais que salutar, algo bastante natural

Seja como for, a celeuma foi instalada. Notas e editoriais de jornais saíram à grita, reclamando do possível corte de algumas músicas em uma festa tradicionalmente conhecida pela galhofa. Simplificaram a discussão sob as vestes do “politicamente correto”, que estaria distorcendo a tradição carnavalesca. “Carnaval não pode ser levado a sério.” “Carnaval é apenas uma grande brincadeira.”

Mais ou menos.

A carnavalização no Brasil faz parte da política. Os protestos são feitos, em diversas ocasiões, acompanhados por música, cantos e bateria, além de fantasias e faixas que recorrem ao humor.

O contrário também é verdadeiro: o Carnaval é inegavelmente uma festa com traços políticos e aberta a esse tipo de disputa de discurso. Neste ano, uma semana antes do início oficial, uma foto mostrava um grupo fantasiado de “muro de Trump”, fazendo troça da ideia estapafúrdia do presidente dos Estados Unidos. Na capital paulista, uma dupla mostrava o muro cinza e o prefeito de cashmere amarrado no pescoço. Na Saara, lojas vendem réplicas das blusas de políticos presos. Em cima do lance, fatos políticos carnavalizados e criticados em fantasia.

Ao longo do Carnaval, serão muitos outros os disfarces, as músicas e os cortejos que farão menção ao aspecto político da nossa forma de nos relacionarmos. Haverá crítica e controvérsia, bem ao gosto da tradição carnavalesca. As pessoas estarão na rua, criando suas dinâmicas e expondo sua forma de se viver na urbe.

Para uma sociedade como a brasileira, na qual o Carnaval marca até o “início real” do ano, trazer discussões políticas para dentro da folia é mais que salutar, algo bastante natural. Querer tirá-las, sim, seria esvaziar a festa de um dos seus maiores significados. Carnaval é debate, é movimento. Sua maravilha está justamente no fato de que ele é capaz de nos mostrar em caricatura um espelho de nós mesmos, com nossas fraquezas, erros, acertos e, sobretudo, belezas.

Débora Thoméé cientista política e fundadora do bloco Mulheres Rodadas.

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