Imaginário sobre evangélicos pode decidir as eleições

Ensaio

Imaginário sobre evangélicos pode decidir as eleições
Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Ronilso Pacheco


02 de setembro de 2022

É verdade que a diferença de Bolsonaro e Lula na preferência entre o segmento não é pequena. Mas ela fala mais da inércia da campanha de Lula do que da ‘força’ de Bolsonaro

O Nexo depende de você para financiar seu trabalho e seguir produzindo um jornalismo de qualidade, no qual se pode confiar.Conheça nossos planos de assinatura.Junte-se ao Nexo! Seu apoio é fundamental.

O Brasil chegou em 2022 com a relação religião e política mais tensionada do que em qualquer outro momento na história da nossa democracia. Muito mais aprofundada e incomparável com 2018. E os evangélicos parecem ter chegado ao ápice das atenções voltadas para eles sobre isso. A exigência de dar conta dessa força do segmento evangélico – tão complexo e tão difuso quanto qualquer pesquisa é capaz de captar de forma duradoura e confiável – parece deixar analistas agitados e perdidos de um lado, e coordenações de campanhas (principalmente dos candidatos à esquerda) preocupados de outro.

Refletindo sobre isso, e tentando contribuir com as muitas análises feitas a respeito, eu me lembrei da filósofa Chiara Bottici, professora na New School for Social Research, que escreveu um interessante e importante livro em 2014, o “Imaginal Politics”. No livro, ela discute sobre a relação entre política e imaginário coletivo, o papel das imagens e espetacularização midiática da política. Em seu capítulo sobre o papel da religião na esfera pública, ela busca explicar o papel público da religião e diz que entender este papel hoje exige levar em consideração exatamente este nexo entre política e imaginário. Ela também afirma que o momento atual apresenta, simultaneamente, uma “falta de imaginação política” e uma “hipertrofia política pela mídia”. É nesse contexto que ela vai se referir ao que, para ela, seria a “ressurreição da religião na esfera pública”.

Embora se fale, quase excessivamente, sobre uma suposta “disputa de narrativas”, empreendida sobretudo pelo grupo de lideranças evangélicas bolsonaristas, eu arrisco dizer que uma disputa tão fundamental para o Brasil agora, quanto a que se acredita das narrativas, é aquela que envolve a “política imaginária”. Parece que, até o momento, esta batalha tem sido vencida e ocupada pelo fundamentalismo evangélico, com estratégias de combate que vão desde a produção de imagens que tornam impossível não acreditar que (todos) os evangélicos “estão com eles”, até a reduzir a complexidade da vida em sociedade à soluções simplistas e saídas condicionadas à imposição autoritária, ao silenciamento, ao negacionismo, à repressão e ao uso da violência.

Me arrisco a dizer que uma disputa tão fundamental é aquela que envolve a ‘política imaginária’. As pesquisas refletem o sufocamento do cidadão evangélico comum, bombardeado com a presença de Bolsonaro.

É verdade que a diferença de 48% para Bolsonaro e 26% para Lula na preferência entre os evangélicos, segundo pesquisa do Ipec divulgada no dia 29 de agosto, não é uma diferença pequena. Mas ela fala mais da inércia da campanha de Lula do que da “força” de Bolsonaro. Afinal, desde as eleições de 2018, mesmo após ganhá-la, não há um único dia que Bolsonaro não tenha agido como um cruzado da extrema direita no Brasil. O presidente literalmente governou para a minoria evangélica ultraconservadora do país. Na área da política externa, por exemplo, as iniciativas em prol do fortalecimento da presença brasileira nas alianças cristãs conservadoras (e até de extrema direita) internacionais foram em muito superiores a qualquer outra participação do país na política global.

Essa é a disputa da política imaginária. Por isso, as pesquisas também refletem o sufocamento do cidadão evangélico comum, bombardeado com a presença de Bolsonaro na quase totalidade do tempo da sua “vida congregacional” (nos sermões, nas rádios, nas “Marchas”, nos shows, nos vídeos, nos grupos de Whatsapp e Facebook, nos jornais e boletins da igreja). No entanto, estes 48%, capaz de ser decisivo na eleição, nem de longe se compara com o robusto 70% de 2018, apoio que se tornou fundamental para levar o atual presidente ao poder.

Lula, o PT e a esquerda de maneira geral fazem certo quando tentam comunicar na sua estratégia política a ideia de que nenhuma religião, entre elas a evangélica, deve ter “tratamento diferenciado” na corrida eleitoral. Mas, como Chiara Battuci nos lembra ainda em seu livro, “o problema é que, uma vez que abrimos as portas para o papel público da religião, é muito difícil estabelecer um limite efetivo para ela, quanto mais fechá-la.” Assim, parece que o dilema aqui é pela escolha do papel público a ser dado, desempenhado e reconhecido pela religião na esfera pública, papel esse capaz de impactar na sociedade. Essa disputa precisa ser feita. Isso é disputar a política imaginária.

Cerca de um ano atrás, em junho de 2021, as pesquisas apontavam um empate técnico entre Lula e Bolsonaro entre os evangélicos para uma simulação de primeiro turno, com 37% e 38% para cada um, respectivamente. Este empate deixava claro que as intenções em Lula “flutuavam” organicamente (isto é, não havia, ainda até pouco tempo, qualquer estratégia ou trabalho específico com foco nos evangélicos), enquanto as intenções em Bolsonaro expressavam uma queda vertiginosa, como um “anjo caído”. Como aconteceu sua recuperação, mais de um ano depois? Não dando trégua à batalha pela política imaginária. E esta batalha só é vencida se encontra forte adesão e repercussão midiática. E isso o campo evangélico ultraconservador tem. À despeito de ter levado mais de um ano para recuperar dez pontos de um segmento que parecia idolatrá-lo, e já na reta final para as eleições, Bolsonaro ainda é descrito na imprensa como uma espécie de “campeão – ou capitão – dos evengélicos”.

A grande imprensa segue atrelada ao argumento e à análise sobre a influência da “agenda moral”, ou “de costumes”, como o grande link entre Bolsonaro e uma maioria evangélica. Isso também faz parte da política imaginária. A dissociação do sujeito evangélico da realidade material que o atravessa tanto quanto atravessa quaisquer outros sujeitos na sociedade, ainda que ele interprete estas realidades orientado pela religiosidade que ele ou ela crê, parece ter viciado grande parte das análises e embaçado as lentes de leitura de pesquisas.

Uma triste conclusão dessa forma de descrever a realidade sobre os eleitores que são evangélicos é que a vitória fundamentalista-bolsonarista na batalha da política imaginária consiste justamente no fato de que ainda estão tratando os evangélicos como se fossem propriedades desse grupo, necessitando de resgate, portanto, do domínio da extrema direita e do conservadorismo reacionário cristãos.


A pesquisa Ipec mencionada no texto foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o código BR-01979/2022.

Ronilso Pacheco é teólogo pela PUC-Rio e mestre em Religião e Sociedade pelo Union Seminary da Universidade de Columbia (EUA). Atualmente, é professor assistente do Departamento de Filosofia da Universidade de Oklahoma (EUA). Também integra o conselho do Iser (Instituto de Estudos da Religião) e é autor do livro “Teologia Negra” (ed. Recriar).

Os artigos publicados no nexo ensaio são de autoria de colaboradores eventuais do jornal e não representam as ideias ou opiniões do Nexo. O Nexo Ensaio é um espaço que tem como objetivo garantir a pluralidade do debate sobre temas relevantes para a agenda pública nacional e internacional. Para participar, entre em contato por meio de ensaio@nexojornal.com.br informando seu nome, telefone e email.