No final de fevereiro, um vídeo de Thiago Schutz, um coach para homens e entusiasta da Red Pill, viralizou na internet. Nele, Thiago discutia a situação em que uma mulher teria oferecido uma cerveja a ele em uma balada. Ao ler a situação como uma disputa de poder entre homens e mulheres, o coach afirma ter negado a bebida porque já estava tomando um Campari. O “coach do Campari”, como ficou conhecido na internet após a viralização do vídeo, foi criticado por diversas mulheres por seu machismo. Entre elas, Lívia La Gatto, atriz e roteirista, que foi ameaçada pelo coach com “processo ou bala”, o que aumentou ainda mais a visibilidade do episódio. A situação é séria e colocou a discussão sobre a Red Pill, uma metáfora que sugere um “despertar masculinista”, na ordem do dia. Neste texto, procuro contextualizar o fenômeno do qual o “coach do Campari” parece fazer parte e que há mais de uma década tem promovido ataques contra mulheres e ativistas feministas e antirracistas brasileiras.
A Red Pill – a metáfora que o coach ajuda a divulgar – é uma das ideias que orienta um agrupamento masculinista conhecido transnacionalmente comomanosphere. A tal pílula vermelha tem relações com o filme “Matrix” (1999). No enredo do longa, o personagem Morpheus oferece ao personagem Neo uma “última chance” de encontrar “a verdade” com a decisão de tomar a pílula azul (uma manutenção de sua vida ordinária na Matrix) ou vermelha (uma revelação da “verdadeira” realidade). Nas subculturas de internet, esse momento decisivo de escolha entre a vida ordinária e a verdade foi lido de diversas maneiras, mas chama a atenção como amanosphere se apropriou de uma certa leitura, transformando-a quase que em uma “filosofia”.
Para esse agrupamento masculinista, o surgimento da “filosofia” da Red Pill parece ter acontecido por volta de 2006 em plataformas de internet menos populares, como o Reddit e o 4chan, em associação a um subgrupo damanosphere que é conhecido por seu “ativismo pelos direitos dos homens”. Para ele, tomar a pílula vermelha significa despertar para “opressão dos homens” provocada pelos feminismos e, portanto, para a necessidade de reestabelecer as hierarquias entre gêneros e restaurar a “masculinidade tradicional”, seja lá o que isso quer dizer. Trocando em miúdos, a Red Pill pode ser lida como uma combinação de patriarcalismo e ideologia da supremacia branca que se concentra no controle dos corpos das mulheres cis brancas para implementar uma política demográfica racial embraquecedora que usa argumentos biologizantes para naturalizar as estratificações e as desigualdades sociais.
Nesse sentido, a Red Pill pode ser pensada como uma espécie de legitimação de comportamentos masculinos machistas e racistas transformados em “empoderamento do homem branco” que se vale de técnicas de assédio e misoginia como forma de ativismo. Vale dizer que a Red Pill ganhou grande aderência em grupos políticos da extrema direita, principalmente de 2013 em diante, como parte de uma “revelação de opressões” mais ampla que estaria “vitimizando” certos homens, como as reivindicações e conquistas de certos direitos por parte de grupos minorizados, como LGBTQIAP+ e pessoas com deficiência.
A Red Pill tem adeptos como Ivanka Trump, filha de Donald Trump, Elon Musk, CEO e proprietário de diferentes empresas, e até o ex-ministro da Educação do governo Bolsonaro, Abraham Weintraub. Porém, vale dizer que, entre as leituras possíveis, há uma que talvez esteja mais ligada com a biografia das diretoras da franquia de filmes“Matrix” (1999 – 2003 – 2003 – 2021), Lana e Lily Wachowski. Essa leitura entende a Red Pill como uma alegoria à transição de gênero. Então, sair da Matrix pode significar abandonar as limitações impostas pelo binarismo de gênero.
Por sua vez, amanosphere, criadora e entusiasta da leitura sinistra da pílula vermelha, pode ser entendida como um fenômeno transnacional histórico, cultural, político e tecnológico que emerge em ambientes sociais e técnicos – como as plataformas de internet – e entrelaça masculinismo, subculturas de internet, extrema direita e supremacia branca como proposta identitária. Um dos melhores modos de explicar amanosphere talvez seja resgatar um pouco da história do masculinismo, já que o masculinismo é uma das diversas maneiras de oposição aos feminismos. Trata-se de um movimento que cria falsas equivalências com os feminismos para se aproveitar de sua legitimidade conquistada ao longo dos anos.
Antes de seguir com a sua contextualização, é importante pontuar que, de modo geral, masculinistas não se apresentam como antifeministas, mas como ativistas pelos direitos dos homens. Para tanto, eles criam bodes expiatórios para além das pessoas feministas, e são especialmente nocivos e agressivos com pessoas não brancas e mulheres trans e não heterossexuais. Masculinistas defendem seus privilégios ativamente e tentam constantemente atualizar e propagar a ideia de “homem tradicional” ancorada numa performance identitária que é cis, heterossexual, branca e classe média (preferencialmente alta).
Porém, não se trata de um fenômeno novo, ainda que muito atual. O masculinismo é um fenômeno tão antigo quanto as discussões feministas universitárias estadunidenses dos anos 1970 que buscavam compreender como papéis de gêneros e o patriarcalismo afetam negativamente a sociedade. Esses questionamentos criaram uma corrente dissidente que nos anos 1980 passou a pensar os feminismos como uma ameaça de “emasculação” e “feminização” que ficou conhecida como “liberação dos homens”.
Com o início da ampliação do acesso à internet, esse masculinismo passou a se conectar online por meio do termo “misandria” em fóruns online e grupos de e-mails. O termo tem por objetivo disputar e contestar a existência da misoginia. Para o masculinismo, se a misoginia consiste em práticas de ódio e inferiorização das mulheres, a “misandria” cria uma falsa simetria que tenta centralizar uma suposta “marginalização” dos homens e propor uma restauração da masculinidade tradicional e de seus laços solidários. A primeira vez que o termo “misandria” em inglês surgiu na internet parece ter sido em 1989.
Misandria e masculinismo são palavras estratégicas em esconder violências múltiplas praticadas por seus proponentes porque reposicionam o algoz como oprimido
O termo “misandria” pode ter desencadeado conversas sobre os “direitos dos homens”. Com a ampliação da popularização da internet, essas discussões parecem ter se intensificado até que em 2009 houve a emergência da autodenominadamanosphere num blog. Esse nome, no inglês, é a junção da palavraman – homem – comsphere – ou esfera. Essasphere ou esfera é uma referência ao modo popular como alguns agrupamentos criados com o serviços online eram chamados no anos 2010, como a blogosfera. Amanosphere ganha ares institucionais com a publicação de um livro, em inglês, como esse nome, em 2013.
Considero que “misandria” e “masculinismo” são palavras estratégicas em esconder violências múltiplas praticadas por seus proponentes porque reposicionam o algoz como oprimido. Além disso, julgo que o termo é desonesto ao propor uma equivalência com os feminismos. Isso porque “masculinismo” dá a entender uma certa simetria com os movimentos feministas que, na realidade, não existe. Nessa disputa terminológica, os movimentos que têm algumas vertentes que propõem a superação de desigualdades são os feministas.
Vale pontuar que o fato damanosphere ter sido criada com a internet não torna o agrupamento menos nocivo. Violências, assédios, ódios e bullying em plataformas da internet infelizmente demonstram que a separação entre online e offline não se sustenta. Violências, assédios, ódios e bullying em plataformas de internet não são online. São o que são. Ou seja, violências, assédios, ódios e bullying.
Nesse sentido, plataformas de internet são parte integrante deste ecossistema de misoginia porque muitas vezes sua arquitetura e seus algoritmos favorecem esse tipo de agrupamento. Suas políticas e regras podem ser muito vagas e permissivas ao privilegiar o lucro que acompanha o engajamento em assuntos tidos como polêmicos ou tabu. E como amanosphere intencionalmente emerge nas camadas mais populares da internet de modo opaco, muitos usuários podem dar visibilidade para tal conteúdo nocivo de modo irrefletido.
Atualmente, amanosphere é entendida como um conjunto de grupos e de fóruns online unidos pelo masculinismo. É uma rede multiplataforma – espalhada em subreddits, blogs, perfis no Twitter, canais do YouTube e fóruns chans –, largamente conectada por técnicas de assédio e de violência que encontrou na extrema direita um caminho para a radicalização. Táticas de assédio explícitas e implícitas compõem o manual de práticas damanosphere no que diz respeito à ambiguidade ética, à manipulação das políticas das plataformas online e à criação de adversários e inimigos. Vale dizer que os ataques geralmente acontecem contra pessoas e não contra ideias.
Contudo, amanosphere não é uma rede coesa em que há consenso. Há uma divisão entre masculinismo alpha e beta que parece ter afinidade com uma interpretação rasteira da psicologia evolucionista; uma linha inspirada nos estudos do biólogo Charles Darwin. Essa interpretação entende que mulheres são irracionais, se relacionam com vários parceiros e são programadas para se relacionar com homens alpha com o objetivo de serem dominadas. O masculinismo alpha é aquele que valoriza as táticas de assédio para essa suposta dominação. Alguns subgrupos adeptos ao masculinismo alpha são o Movimento pelos Direitos dos Homens, Artistas da Pegação (Pick Up Artists), Homens que Seguem seu Próprio Caminho (Men Going Their Own Way).
Já o masculinismo beta parece muito aderido à cultura nerd que abraça alguns aspectos da hipermasculinidade, como a valorização do intelecto em detrimento da inteligência emocional ou social, mas rejeita o culto ao corpo por meio dos esportes e da ginástica e é, de certa forma, alheio aos relacionamentos afetivos e sexuais, já que entendem que não possuem os atributos físicos ideais para isso por questões genéticas e fisiológicas. Nesse masculinismo, o subgrupo mais conhecido é composto pelos incels, ou celibatários involuntários. E, mais recentemente, tem emergido o fenômeno do masculinismo sigma. Aparentemente, o masculinismo sigma é uma tentativa de desconstruir a oposição entre alphas e betas, ao propor um versão alpha que seja menos chamativa e intempestiva.
O que tem sido chamado de machosfera não é mera tradução demanosphere. O termo coloca o desafio de refletir sobre como o agrupamento masculinista brasileiro interage com o transnacional dados os acelerados processos de globalização intensificados pela internet. No Brasil, é importante indicar que o contexto de emergência da machosfera passa pelo aumento do poder aquisitivo da classe trabalhadora por meio de programas de bem-estar social. Essa mudança, somada à ideologia neoliberal que valoriza o individualismo e a crescente visibilidade das reivindicações de grupos minorizados, pode afetar a percepção de certos homens como os provedores das famílias e colocar a ideia de “masculinidade tradicional” em xeque.
Nas minhas observações e na minha pesquisa, o que tenho notado é que os homens que co-criam a machosfera também têm questões e problemas reais que carecem de atenção, como as falsas promessas do capitalismo, do neoliberalismo e da meritocracia. Mas eles evitam confrontar a si mesmos em relação à contribuição que dão para intensificação desses problemas e direcionam a raiva para grupos minorizados e não para instituições e estruturas capazes de promover mudanças significativas em suas condições. Esse olhar que re-subalterniza grupos minorizados favorece que certos homens pensem em si como superiores, resguardando sua posição hierárquica. E não se pode desconsiderar que o elogio a essa ideia de superioridade pode vir a compor um manual de práticas muitos sedutoras que têm sido apropriadas para fins lucrativos, como o fenômeno contemporâneo dos coaches parece apontar.
Outro ponto que tenho observado com a minha pesquisa é que o masculinismo da machosfera propõe um individualismo extremo, de modo que seus participantes podem até mesmo se tornar antissociais. Então, não me parece que exista uma concepção única de masculinismo que conecte tais participantes, mas uma fragmentação do comum que pode atrair pessoas muito diferentes entre si para esse agrupamento, já que não há necessariamente com o que concordar ou discordar. Para esse masculinismo, coletivos parecem desumanizados enquanto a individualidade restaura a humanidade de seus participantes.
Nesse ponto da pesquisa, amanosphere parece fornecer marcos culturais para a machosfera. Desse modo, os participantes brasileiros podem identificar uns aos outros sobre seu pertencimento a esse agrupamento por meio de práticas misóginas, racistas, classistas e capacitistas que criam inimigos sem necessariamente dizer quem são os amigos. Portanto, a machosfera torna quem ela é opaca e permite que pessoas muito distintas se identifiquem com ela.
Desde pelo menos 2011, ativistas e pesquisadoras brasileiras vêm denunciando a atuação da machosfera. E eventos muito graves, cujos autores frequentavam fóruns ligados a subgrupos da machosfera, já aconteceram por aqui, como o Massacre do Realengo em 2011 e o Massacre de Suzano em 2019, para exemplificar apenas os mais extremos. Portanto, é importante que o episódio do “coach do Campari” contribua para o enfrentamento à machosfera ao colocar o masculinismo de modo crítico na pauta do dia. Com o interesse crescente das pessoas, talvez possamos conhecer mais profundamente a capilaridade do fenômeno no país e criar estratégias coletivas de enfrentamento que não apenas consistam na redução do alcance dessa rede, mas que também pressionem instâncias legislativas e plataformas de internet (e seus anunciantes) a lidar mais enérgica e assertivamente com a machosfera.
Gracila Vilaça é doutoranda em comunicação social na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e pesquisadora do R-EST (estudos redes sociotécnicas) da UFMG. Bolsista DAAD de doutorado sanduíche na Universidade de Bielefeld (2022-2023), Alemanha.