Entre quarta (22) e sexta-feira (24) acontece a Conferência da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre Água. Com o tema “Acelerando a ação pela água para um futuro sustentável”, o evento reunirá lideranças de diversos países e milhares de representantes da sociedade civil organizada, especialistas e iniciativa privada para discutir compromissos de alcances regionais e globais.
Pela primeira vez no século 21, a água estará no centro das discussões, o que permitirá analisar temas fundamentais para o futuro sustentável sob esta importante perspectiva. Os principais debates acontecerão na programação oficial, composta por plenárias e diálogos interativos: Água para a Saúde; Água para o Desenvolvimento Sustentável; Água para o Clima, Resiliência e Meio Ambiente; Água para a Cooperação; e Década da Água. Além disso, estão programados inúmeros eventos paralelos, presenciais e virtuais.
A conferência é uma iniciativa da Assembleia-Geral da ONU e faz parte da mobilização global para colocar a água nas discussões sobre clima e Agenda 2030. O principal resultado da conferência será o lançamento da Agenda de Ação pela Água , que representa comprometimentos voluntários de todos os níveis, incluindo governos, instituições e comunidades locais.
Conferência precisa abordar questões consideradas fundamentais para avançar rumo ao acesso universal à água, para assegurar bem-estar, desenvolvimento e felicidade a todos
Diferentemente de clima e biodiversidade, não existe uma convenção da ONU sobre a água e, portanto, não existe COP (Conferência das Partes) nem acordos sobre esse tema. A última vez que a água entrou na pauta da ONU foi em março de 1977 em Mar del Plata (Argentina). Naquela época, a Usina de Itaipu estava começando a ser construída, a Sabesp, empresa de saneamento do estado de São Paulo, estava nascendo. O mundo – e a situação da água – mudou bastante desde então. Eventos climáticos extremos, como as chuvas que atingiram o litoral norte de São Paulo e a seca extrema em diversos municípios do Rio Grande do Sul, acontecem por meio da água. “A mudança climática é o tubarão, a água é a mandíbula.”
É por isso que esta conferência evidencia dois grandes temas, fundamentais para enfrentar as questões atuais relacionadas à água. O primeiro é que o avanço na implementação dos direitos humanos à água e ao esgotamento sanitário deve ser uma diretriz para garantir acesso a todos. O segundo tem a ver com a centralidade da água na emergência climática, priorizando a adaptação, pois só assim será possível garantir água e segurança hídrica dentro do conceito, estabelecido em 2013, pela ONU, que é assegurar água em quantidade, qualidade, acessível física e financeiramente para todos. Inclui, ainda, proteger as pessoas da poluição hídrica e dos desastres naturais e climáticos, resguardando os ecossistemas produtores de água e mantendo a resolução de conflitos e a paz no uso da água.
Nesse sentido, organizações da sociedade civil, incluindo povos indígenas, movimentos sociais e defensores da água lançaram na terça-feira (21), antes da abertura da conferência, um manifesto às Nações Unidas para que questões consideradas fundamentais para alcançar a justiça da água sejam abordadas em todos os debates e decisões do encontro, para assegurar bem-estar, desenvolvimento e felicidade a todos. Afinal, como diz Guimarães Rosa, perto de muita água, todo mundo é feliz.
Marussia Whately é arquiteta e urbanista, especialista em recursos hídricos e saneamento. É idealizadora da Aliança pela Água, rede com mais de 80 organizações da sociedade criada em 2014 para enfrentamento da crise hídrica de São Paulo. É autora de diversos livros e publicações, entre eles “O século da escassez. Uma nova cultura de cuidado com a água: impasses e desafios”. Atualmente, é diretora executiva do IAS (Instituto Água e Saneamento).