A educação digital para a transformação das favelas

Ensaio

A educação digital para a transformação das favelas
Foto: Divulgação/Sergio Barzaghi/EducaçãoSP

Kelly Baptista


28 de setembro de 2024

Dispositivos tecnológicos e a inteligência artificial estão transformando as carreiras do futuro. Educação inclusiva e tecnológica é fundamental desde os primeiros anos de idade escolar

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O Brasil foi um dos países que permaneceram fechados por mais tempo durante a pandemia, agravando ainda mais as desigualdades de acesso à educação entre os mais ricos e os mais pobres. A falta de conectividade para alunos de baixa renda foi um dos maiores obstáculos daquele período, já que todas as aulas estavam sendo realizadas remotamente. Além disso, muitos professores da rede pública não receberam suporte suficiente para uma transição abrupta de todo o sistema de ensino. 

Um estudo realizado entre 2021 e 2022 apontou que os mais prejudicados foram os estudantes em fase de alfabetização, crianças de sete e oito anos. O cenário foi revelado na pesquisa do IMDS (Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social), a partir do cálculo do chamado Índice de Oportunidades Educacionais. 

Hoje, em 2024, é possível identificar vários prejuízos e atrasos no aprendizado dentro das escolas. Ao mesmo tempo, apesar do abismo educacional potencializado pela pandemia, surgiram diversas iniciativas que apoiam jovens por meio de tecnologia gratuita e ONGs que levam conhecimento às regiões mais periféricas do país.

Tecnologia pode ser um caminho de diminuição das desigualdades, levando conteúdos de qualidade para todos. Por isso, existe a necessidade da rede pública ter acesso a ferramentas acessíveis e atualizadas

É o caso da Fundação 1Bi, que desde 2019, investe no desenvolvimento do AprendiZAP, uma ferramenta digital de ensino-aprendizagem para alunos e professores da rede pública, que é capaz de auxiliar até mesmo os jovens com pouco acesso a internet. O WhatsApp, plataforma mais popular no Brasil e com acesso livre em muitas operadoras de dados móveis, foi escolhido para a construção dessa tecnologia, que oferece gratuitamente complemento escolar e exercícios para os estudantes diretamente no celular. 

Está claro que os dispositivos tecnológicos e a inteligência artificial estão transformando as carreiras do futuro, portanto a educação inclusiva e tecnológica é fundamental desde os primeiros anos de idade escolar. Os projetos sociais especialmente na periferia são grandes potenciais porque conversam na linguagem do jovem, estimulam rodas de conversas e novas formações. 

A tecnologia pode ser um caminho de diminuição das desigualdades, levando conteúdos de qualidade para todos, por isso, existe a necessidade da rede pública ter acesso a ferramentas acessíveis e atualizadas. A inteligência artificial generativa pode ser uma aliada nesse processo, essa tecnologia está cada vez mais presente em diferentes contextos sociais e quando supervisionada por professores especialistas, pode sanar muitas necessidades como, por exemplo, a sobrecarga de construções de aulas.

Uma pesquisa recente do Cetic, o Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação, revela que, apesar dos avanços na conectividade das escolas brasileiras, ainda há um caminho significativo a ser percorrido para garantir que a infraestrutura de internet e os recursos tecnológicos estejam disponíveis e sejam efetivamente utilizados para fins educacionais. A formação de professores e a elaboração de políticas públicas são fundamentais para superar os desafios existentes e promover uma inclusão digital mais equitativa e eficaz nas escolas do Brasil. A valorização dos professores, já que essa categoria sofre diretamente com o sucateamento da educação, aqui faço uma ressalva que precisamos olhar também essas pessoas na universidade, já que exigimos que eles apliquem diversas orientações para alunos, sem que tenham recebido formações suficientes. 

 

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A pesquisa recente, do ano de 2023, aponta que 94% das instituições de ensino fundamental e médio estão conectadas à rede, mas apenas 58% contam com computador e internet para uso dos estudantes.

Precisamos articular políticas públicas para a educação, em especial nos primeiros anos de vida, isso trará uma base melhor para os estudantes. Também garantir que crianças e jovens permaneçam na escola com materiais e alimentação saudável. Outro ponto fundamental é a criação de canais de escuta, entre comunidade, alunos e professores, fortalecendo assim as redes de ensino, além, é claro, do aumento de investimentos urgentes na educação pública. 

Kelly Baptista é mãe, diretora-executiva da Fundação 1Bi, gestora pública, membro da Rede de Líderes Fundação Lemann, conselheira do movimento Educa2030-Pacto Global da ONU e Linkedin Top Voice.

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