A Europa é indefensável. Parece ser essa a constatação que se confidenciam na surdina os estrategistas americanos. Isso por si só não é grave. O grave é que “a Europa” é moral e espiritualmente indefensável. E acontece que hoje não são apenas as massas europeias que acusam, mas é em escala global que o indiciamento é realizado por dezenas e dezenas de milhões de pessoas que das profundezas da escravidão se erigem em juízes.
Pode-se matar na Indochina, torturar em Madagascar, encarcerar na África Negra, castigar nas Antilhas. Os colonizados agora sabem que têm uma vantagem sobre os colonizadores. Sabem que seus “senhores” transitórios mentem. E que, portanto, seus senhores são fracos. E como hoje me pedem que fale da colonização e da civilização, vamos direto à mentira principal, a partir da qual proliferam todas as outras.
Colonização e civilização? A maldição mais comum neste caso é se deixar enganar de boa-fé por uma hipocrisia coletiva, exímia em falsear os problemas para melhor legitimar as odiosas soluções que para eles apresenta. Isso equivale a dizer que o essencial aqui é ver com nitidez, pensar com nitidez, leia-se intrepidamente, responder com nitidez à singela questão primordial: o que é, em princípio, a colonização? O essencial é convir naquilo que ela não é; nem evangelização, nem obra filantrópica, nem desejo de fazer retrocederem as fronteiras da ignorância, da enfermidade ou da tirania, nem difusão de Deus, nem ampliação do Direito, o essencial é admitir de uma vez por todas, sem querer se furtar às consequências, que o gesto decisivo neste caso era o do aventureiro e do pirata, do comerciante e do armador, do explorador de ouro e do negociante, do apetite e da força, tendo por trás a funesta sombra lançada por uma forma de civilização que, a um dado momento de sua história, se viu internamente compelida a estender à escala mundial a concorrência de suas economias antagônicas.
Prosseguindo em minha análise, verifico que a hipocrisia é de data recente; que nem Cortez ao descobrir a Cidade do México do alto do grande teocalli, nem Pizarro diante de Cuzco (menos ainda Marco Polo diante de Cambaluc) proclamavam ser arautos de uma ordem superior; que matavam; que saqueavam; que possuíam capacetes, lanças, cobiças; que os verbosos vieram depois; que, nesse domínio, o grande responsável foi o pedantismo cristão, por ter estipulado equivalências desonestas: Cristianismo = civilização; paganismo = selvageria, das quais só podiam decorrer abomináveis consequências colonialistas e racistas, cujas vítimas haveriam de ser os índios, os amarelos, os negros.
Esclarecido isso, admito que colocar civilizações diferentes em contato umas com as outras é bom; que unir mundos distintos é excelente; que uma civilização, seja qual for o seu gênio ínsito, ao se fechar em si mesma, fenece; que, nisso, as trocas são o oxigênio, e que a grande sorte da Europa foi ter servido de encruzilhada e que ter sido o lugar geométrico de todas as ideias, o receptáculo de todas as filosofias, o abrigo de todos os sentimentos fez dela o melhor redistribuidor de energia.
Mas então proponho a seguinte questão: será que a colonização realmente colocou em contato? Ou, se assim se preferir, será que, de todas as maneiras de estabelecer o contato, era a melhor?
Respondo que não. E digo que, entre a colonização e a civilização, a distância é infinita; que, de todas as expedições coloniais acumuladas, de todos os estatutos coloniais elaborados, de todas as circulares ministeriais expedidas, é impossível extrair um único valorhumano sequer.
Seria preciso, de início, estudar como a colonização age para descivilizar o colonizador, para embrutecê-lo na real acepção da palavra, para degradá-lo, para despertá-lo para os instintos subterrâneos, para a cobiça, a violência, o ódio racial, o relativismo moral, e mostrar que, toda vez que no Vietnã uma cabeça é cortada e um é olho furado e isso na França é aceito, uma menina é estuprada e isso na França é aceito, um malgaxe é supliciado e isso na França é aceito, há um legado da civilização que se impõe com seu peso morto, uma regressão universal que se opera, uma gangrena que se instala, um foco infeccioso que se alastra e que, na ponta de todos esses tratados violados, de todas essas mentiras propagadas, de todas essas expedições punitivas toleradas, de todos esses prisioneiros agrilhoados e “interrogados”, de todos esses patriotas torturados, na ponta dessa soberba racial encorajada, dessa arrogância ostensiva, existe o veneno instilado nas veias da Europa e o progresso lento, porém cabal, do asselvajamento do continente.
E eis que um belo dia a burguesia acorda sacudida por um formidável impacto de recuo: as gestapos se alvoroçam, as prisões se abarrotam, os carrascos arquitetam, aperfeiçoam e argumentam à volta dos aparelhos de tortura. Espantam-se, indignam-se. Dizem: “Que coisa estranha! Mas, ah, é o nazismo, há de passar!” E aguardam, e esperam; e calam-se quanto à verdade, que é uma barbárie, sim, mas é a barbárie suprema, a que coroa, a que resume a cotidianidade das outras barbáries; que é o nazismo, sim, mas que, antes de serem suas vítimas, foram seus cúmplices; que esse nazismo foi apoiado antes de ser sofrido, foi absolvido, foi relevado, foi legitimado, porque ele até então só se aplicava aos povos não europeus; que esse nazismo foi cultivado, que são responsáveis por ele e que ele brota, irrompe, jorra, antes de em suas rubras águas tragá-los por todas as fissuras da civilização ocidental e cristã.
Sim, valeria a pena estudar — clinicamente, em detalhe — as ações de Hitler e do hitlerismo e revelar ao mui distinto, mui humanista, mui cristão burguês do século XX, que ele carrega em si um Hitler recôndito, que Hitler o habita, que Hitler é seu demônio, que, se ele o despreza, é por falta de lógica, e que, no fundo, o que ele não perdoa a Hitler não é o crime em si, o crime contra o ser humano, não é a humilhação do ser humano em si, é o crime contra o ser humano branco, é a humilhação do ser humano branco e o fato de ter aplicado à Europa métodos colonialistas que até ali estavam reservados apenas aos árabes da Argélia, aos cules da Índia e aos negros da África.

Textos escolhidos: A tragédia do rei Christophe; Discurso sobre o colonialismo; Discurso sobre a negritude
Aimé Césaire
Trad. Sebastião Nascimento
Cobogó
240 páginas
Lançamento em 19 de junho