“Você precisa ir atrás do seu desconto no RU.”
Essa foi a primeira das muitas informações práticas que ela me deu quando chegamos ao restaurante universitário lotado. Eu ainda não tinha entrado ali, mas tinha ouvido falar muito dele no tempo do cursinho. Sempre havia uma história que aconteceu com alguém naquele lugar imenso e vivo. Disse à minha nova colega que já tinha ouvido falar no desconto, mas que não sabia como consegui-lo. “Na reitoria. Eu conheço a assistente social que mexe com essa parte.” Renata anotou um nome, Glenda, e uma sigla, num post-it laranja, e me deu.
Guardei a informação na minha carteira roxa desgastada da Company, o velcro sem aderência denunciava o tempo que a possuía. Fiquei meio envergonhada pela situação do objeto e pelo olhar de Renata ao vê-lo. O cheiro do restaurante estava em todo metro cúbico de ar do lugar de pé-direito alto, paredes de concreto cinza-esfumaçado e enormes janelas que traziam todo o verde 32 exterior para dentro. O odor remetia a algo familiar que eu não gostava e percebi que, na verdade, era um sabor. Antes que eu tivesse mais tempo para conjecturar sobre o cheiro enquanto ouvia Renata falar tudo o que eu deveria fazer, li o menu do prato do dia: costela com agrião.
“O cheiro é de agrião, então”, disse em voz alta sem querer.
“Se você não gostar, é só não pegar.”
Vimos que duas garotas de jaleco branco, com uma serpente verde enrolada em um bastão bordada em um dos bolsos, chegaram perto do guichê para ler o cardápio e fizeram um ruidoso som de reprovação, viraram as costas e foram em direção à saída. Renata e eu nos entreolhamos. A opção para elas era o único jeito para nós. Compreendi que minha nova colega conhecia as informações práticas da universidade e da ordem do dia de nossa vida de poucos recursos e cultivo do inteligente senso de oportunidade para se virar: Se você não gostar, é só não pegar, repeti mentalmente com a impressão de que ela fazia o mesmo.
Renata estava muito satisfeita no papel de cicerone e prosseguiu com as instruções: “Você serve tudo o que quiser sozinha, menos a carne. E pegue o prato de baixo, devem ter falado muito em cima desse aí”.
Eu quis fazer uma piada como as que fazíamos no cursinho e disse sorrindo: “Está quente, não ligo. Os germes já devem ter morrido com o calor”.
A resposta dela me surpreendeu: “Coma cuspe quente, então!”
A fala rude se misturou com o bafo de agrião derretido pelo cozimento lento e alastrado pela ventilação do restaurante. Mas segurei a chateação, afinal, ela me dava informações importantes sobre a universidade. Se você não gostar, é só não pegar.
Nos servimos em silêncio e Renata sugeriu que nos sentássemos perto da janela, explicando que o cheiro do agrião ficava mais ameno lá. Concordei. Esse foi nosso primeiro morde e assopra. Renata sempre agiria com grosseria e recuaria com medida delicadeza, principalmente se estivéssemos sozinhas. Apesar dos atritos, eu queria ser sua amiga, ela me atraía. Renata me disse que morava na Ceilândia, explicou que tinha pegado o 349 por estar na casa de uma amiga na QNL e perguntou onde eu morava, já que não tinha me visto subir na condução. Quando ouviu a resposta, “Taguatinga Sul”, parou o movimento do garfo que direcionava à boca e disse:
“Taguá Sul tem shopping e metrô.”
Sem pensar, emendei: “E biblioteca pública. Meu pai sempre lembra dessa parte”. Ele ali nas minhas palavras outra vez.
“Pai, biblioteca, hum… E você, lembra de qual parte?”
Não lhe respondi, talvez eu nem soubesse como fazê-lo. Fiquei envergonhada pela dependência que eu me esforçava para não ter. Anos depois, entendi que a provocação, para Renata, era sua forma de estar à frente, testar situações e ver o que abalava as pessoas. As impressões do meu pai eram o vapor do agrião que saía da pressão, impregnava em todos e muito mais em mim. Me senti descoberta e limitada. Entre uma garfada e outra na costela que ela temperou com o molho de pimenta retirado da mochila, prosseguiu: “Se você não gostar, é só não pegar”.
Será que ela se referia ao meu pai? Não o pegar, deixá-lo de lado? Como ela saberia? Renata parecia se antecipar às situações, de uma forma mais útil que a minha. Ela não antecipava seus passos intencionando caber onde precisasse. Ao contrário, parecia tensionar sempre para saber antes e fazer bom uso das fragilidades alheias. Ao perceber meu desconforto, emendou sem esperar que eu dissesse algo: “Falo do choro no banheiro. Não pegue o que não gosta e siga”.
O mormaço, que saía da mangueira que um funcionário usava para limpar os pratos empilhados, ultrapassava cerca de cinco mesas e chegava até nós. A janela era inútil para contê-lo. Um ar de mal-estar abafado, úmido e desconcertante lutava com minha garganta entalada pelas securas não verbalizadas. Disparei: “Foi um professor. Reclamou do meu livro, falou que era ruim”. Depois tentei justificar minha fraqueza dizendo que nunca mais choraria por isso. Renata disse que era melhor porque nosso choro é o motor dos babacas e sentenciou: “Esse cara não está sozinho, Jordana”.
Tinha mais? É óbvio que tinha mais. Eu não era ingênua a esse ponto, já tinha andado o suficiente para reconhecer a névoa das pessoas. O problema é que eu acreditava ter uma fórmula para sublimá-la, mas era uma receita infantil que passou a desandar a partir dali. Renata continuou: “Você tem sorte! Eu tive de aprender a dobrar esses babacas sozinha, sem pai, sem biblioteca…”.
Desniveladas e juntas. Iguais sem compasso. Renata tinha muito mais que a habilidade que fui ensinada a dominar, mas que não era nada além de uma facilidade em ser modelada. Reconheci minha tolice presunçosa por meio da agudeza de um ser pequeno e cortante. “Tenho aula até às seis, por que não voltamos juntas hoje? Vou pela rodoviária”, disse Renata, cruzando os talheres em cima do prato. Concordei mesmo sabendo que gastaria uma passagem a mais, um excesso comedido no meu orçamento estreito e regrado, mas sentia que tinha mais a ganhar com ela. Me achei sortuda. Era só meu primeiro dia e alguém mais velha e interessada em não ser mais uma pessoa perdida no meio de todo mundo demonstrava querer estar comigo.
Renata explicou que precisava ir à rodoviária para trocar a resistência da chapinha com um primo que trabalhava lá. Imaginei que ela tivesse levado o objeto por hábito e disse pensar que ela o carregasse sempre. Ela afirmou: “Pra todo lado!” Cintilante. Ela era cintilante. Senti que precisaria olhar para cima para perceber suas centelhas, que ofuscavam minha aura módica e esforçada. Mas ela tinha mais, sim, havia mais, e eu não demoraria a conhecer sua névoa.
A construção
Andressa Marques
Nós
192 páginas