Expresso

O que muda quando as crianças são incluídas no planejamento urbano

Juliana Domingos

16 de maio de 2016(atualizado 28/12/2023 às 13h00)

Estimular o olhar das crianças para a cidade faz crescer sensação de pertencimento e cuidado com o espaço habitado

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FOTO: JORDI BOIXAREU/CREATIVE COMMONS

Para ensinar arquitetura às crianças, um primeiro passo importante é estimular seu olhar para a cidade e para os espaços construídos

Segundo um relatório da Unicef, mais da metade da população mundial vive hoje em cidades. Nesse contexto de urbanização intensa, as crianças ocupam um lugar singular. Além de viverem os espaços das cidade de forma particular, serão também os adultos que, no futuro, vão construí-los e habitá-los como arquitetos, urbanistas, engenheiros, ou como parte de uma sociedade que reivindica espaços mais humanos.

Por si só, esses fatores justificam a aproximação de crianças, arquitetura e urbanismo. Refletir sobre o desenvolvimento do espaço urbano não é uma tarefa cuja responsabilidade ou competência estejam restritas ao planejador urbano ou aos formuladores de políticas públicas. Para fazê-lo de forma a garantir representatividade, é preciso incluir grupos com necessidades específicas, tais como mulheres , jovens, crianças e idosos, no próprio processo de planejar. Dessa forma, o planejamento urbano e arquitetura se tornam capazes de contemplar demandas variadas e de projetar espaços públicos mais acolhedores.

“A cidade precisa acolher as crianças. Ser planejada do ponto de vista da rua, onde as pessoas se desloquem a pé, onde os meninos e meninas não vejam a cidade apenas da janela do carro, mas caminhando pelas calçadas. Essa relação de pertencimento instiga os pequenos cidadãos a entendê-la e, sendo sua, a cuidá-la”, afirma Bianca Antunes, coautora de “Casacadabra”, um livro de arquitetura para crianças.

Crianças participando do planejamento urbano

Uma das formas de viabilizar essa aproximação é envolvendo crianças em conselhos ou outras instâncias que auxiliem os processos de planejamento urbano da cidade onde vivem.

Na República Dominicana, por exemplo, cidades acessíveis para crianças envolvem todas as que estão na escola em eleições para o conselho formado por elas, fazendo disso uma oportunidade para o ensino da cidadania. Também chegam a ser diretamente envolvidas em decisões que afetam seu cotidiano, participando da gestão da escola, do planejamento e design das áreas de recreação de suas comunidades e organizações formadas por crianças.

Para além de formar e sensibilizar crianças para temáticas ligadas ao desenvolvimento urbano, há também um esforço no Brasil e no mundo para tomá-las sujeitos centrais na criação de um ambiente urbano que as favoreça.

Em 1996, a Unicef e a ONU-Habitat (Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos) lançaram a Child-Friendly Cities Initiative (CFCI), proposição de uma série de medidas que priorizam os direitos infantis dentro da agenda urbana. Dentre essas medidas, estão a participação dos pequenos em todas as etapas de planejamento e implementação, foco em seus direitos e um orçamento direcionado a essa parcela da população.

Como e por que a arquitetura deve ser ensinada desde cedo?

O livro infantil Casacadabra , escrito por Bianca Antunes, Simone Sayegh e ilustrado por Carolina Hernandes foi publicado após uma campanha bem-sucedida de financiamento coletivo . Ele apresenta, na forma de espaços lúdicos, dez casas projetadas por arquitetos de renome em todo o mundo — 4 delas no Brasil.

Partindo do projeto das casas, busca introduzir de maneira simples e didática alguns termos complicados do universo da arquitetura. O funcionamento dos “brises soleil” do Copan , por exemplo, uma estrutura cuja função é gerar sombra no interior dos apartamentos evitando a entrada direta do sol, vira uma brincadeira uma caixa de sapato e uma lanterna.

“Procuramos mostrar diferentes maneiras de habitar, com casas de diferentes tamanhos, formas e ludicidades: uma casa redonda, uma transparente, outra que foi pensada para ser enviada pelo correio, a habitação social. Com isso também passamos conceitos de estrutura, de pré-fabricação, de infraestrutura”, diz a co-autora Bianca Antunes, em entrevista aoNexo.

FOTO: ILUSTRAÇÃO: CAROLINA HERNANDES

Um dos projetos apresentados pelo livro, a Casa Bola fica em São Paulo e foi construída pelo arquiteto Eduardo Longo.

A ideia é que cada casa ensine e instigue a criança a fazer a comparação com o que ela vê em sua própria moradia ou em sua cidade. “Propomos que a criança descubra para que ponto cardeal está voltado seu quarto, um dos principais elementos de onde deve partir a implantação de uma construção. Assim ela percebe que sua casa não é fechada em si mas tem relação direta com o mundo lá fora”, propõe Bianca.

Para ensinar arquitetura às crianças, um primeiro passo importante é estimular seu olhar para a cidade e para os espaços construídos, em uma visita aos edifícios icônicos da cidade, por exemplo. Esse olhar faz crescer a sensação de pertencimento e o cuidado com o espaço habitado. Tende a estimular uma mudança na concentração do poder decisório sobre o espaço urbano e no interesse de cidadãos comuns em pensar criticamente e agir sobre a cidade ao seu redor.

FOTO: ILUSTRAÇÃO: CAROLINA HERNANDES

Casacadabra também traz a Casa de Vidro de Lina Bo Bardi, localizada na capital paulista. Moderna, a construção sedia hoje o Instituto Lina Bo e P. M. Bardi

“Arquitetura e urbanismo têm sido ensinados apenas nos bancos das universidades. Isso afasta tanto o profissional da sociedade, quanto a sociedade de temas que importam a todos em seu dia a dia. Também temos muito, ainda, uma política de construção das cidades que vem de cima para baixo: aceitamos o que é decidido lá em cima. Isso é cultural, a decisão da forma da cidade fica nas mãos de poucos”, afirma Bianca Antunes.

“Um século rodoviarista, como foi o último [e o Brasil ainda passa por isso, pela prioridade ao carro], gerou intervenções que são verdadeiras cicatrizes na cidade, como o Minhocão em São Paulo e tantas outras vias elevadas pelo Brasil. Estruturas de concreto que são construídas para que a cidade seja vista da janela do carro, não da rua, da escala humana. E não somos treinados a questionar isso”.

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