Como a saída de artistas do Spotify mexe com o mercado
Cesar Gaglioni
31 de janeiro de 2022(atualizado 28/12/2023 às 22h20)Líder absoluto do segmento perdeu US$ 2 bilhões em valor por causa de protestos de artistas contra conteúdos antivacina. Analistas acreditam se tratar de um ponto de inflexão para a empresa
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Faixa com logomarca do Spotify pendurada em frente à bolsa de valores de Nova York, nos Estados Unidos
O Spotify perdeu, em três dias, US$ 2 bilhões em valor de mercado. O motivo: a saída de Neil Young, Joni Mitchell e a produtora de podcasts Brené Brown da plataforma após o comediante Joe Rogan levar para lá seus talk shows negacionistas que espalham desinformação sobre as vacinas contra a covid-19.
Rogan é o apresentador do “The Joe Rogan Experience”, podcast mais ouvido do mundo, cujos direitos são exclusivos do Spotify. O programa tem suscitado críticas devido à exposição de opiniões contrárias às vacinas para controlar a propagação do novo coronavírus.
A polêmica mais recente ocorreu com a participação do médico Robert Malone no programa em 31 de dezembro de 2021. Na ocasião, Malone disse que vacinas foram desenhadas para alterar o DNA de quem as toma— o que é mentira — e que a ivermectina, remédio para o tratamento de parasitas e ineficaz contra a covid-19, era o melhor caminho para lidar com a doença.
No início de janeiro de 2022, 270 cientistas e médicos assinaram uma carta pedindo ao Spotify que tomasse medidas contra Rogan, acusando-o de espalhar falsidades no podcast.
A plataforma afirma que trabalhou para equilibrar “segurança para ouvintes e liberdade para criadores” e removeu mais de 20 mil episódios de podcasts relacionados à covid-19 de acordo com suas “políticas de conteúdo detalhadas” – sem mexer no catálogo de Rogan. “Lamentamos a decisão de Neil de remover sua música do Spotify, mas esperamos recebê-lo de volta em breve”, disse a empresa em comunicado, sem mencionar Mitchell e Brown.
Com as críticas e a saída de nomes renomados, concorrentes do Spotify – que mesmo com a crise se mantém como líder do mercado dos streamings de música – passaram a tentar atrair os egressos da plataforma com gratuidades e campanhas de marketing. Neste texto, o Nexo explica como o mercado pode ser impactado pelo desgaste interno do Spotify.
No domingo (30), o Spotify deflagrou uma operação de gerenciamento de crise. O primeiro passo foi tornar pública suas políticas de moderação de conteúdo dos podcasts publicados na plataforma, em conjunto com um comunicado assinado pelo CEO, Daniel Ek.
“Com base no feedback dado pelos usuários nas últimas semanas, ficou claro para mim que temos uma obrigação de trazer mais equilíbrio e acesso a informações que são consenso entre a comunidade médica”, disse Ek. “Levamos isso a sério, e vamos continuar nossas parcerias com especialistas. Não significa que vamos sempre acertar, mas estamos comprometidos a aprender, crescer e evoluir.”
Joe Rogan também pediu desculpas publicamente, em um vídeo postado em suas redes sociais na noite de domingo (30). “Se eu te irritei, me desculpe”, disse Rogan. “Farei o meu melhor para tentar equilibrar esses pontos de vista mais controversos com as perspectivas de outras pessoas para que possamos encontrar um ponto de vista melhor.”
O comediante ainda afirmou que o alcance de seu podcast – que atinge 11 milhões de pessoas por episódio – saiu de seu controle e que ele não estava preparado para isso. “É algo para o qual eu não estava preparado, vou tentar o meu melhor.”
Os conteúdos proibidos
O texto das políticas de moderação do Spotify mostra quais conteúdos são considerados proibidos pela plataforma. Eles incluem: apoio a organizações terroristas, incentivo ao suicídio, racismo, misoginia, homofobia, desinformação sobre a covid-19, aids e câncer; pornografia infantil, falsidade ideológica e crueldade animal. A lista completa está disponível no site do Spotify.
As sanções
O Spotify não deu detalhes da tomada de decisão sobre o que fazer com conteúdos que violem as diretrizes, se limitando a dizer que os casos serão analisados individualmente e podem acarretar em suspensão ou cancelamento da conta.
As denúncias
O Spotify pediu ajuda dos usuários para relatar casos de violação. Qualquer membro da plataforma pode fazer uma denúncia por meio de um formulário digital.
Lançado em 2008, o Spotify é o maior serviço de streaming de música do mundo.
381 milhões
é o número de usuários mensais do Spotify em janeiro de 2022
172 milhões
é o número de usuários que pagam por uma assinatura do Spotify em janeiro de 2022
US$ 33,4 bilhões
é o valor de mercado do Spotify em 31 de janeiro de 2022
US$ 9,15 bilhões
foi o faturamento do Spotify no último trimestre de 2021
US$ 2 bilhões
foi o lucro do Spotify no último trimestre de 2021
A crise de imagem e de relacionamento com artistas do Spotify fez com que concorrentes da plataforma se movimentassem para tentar abocanhar uma parte do mercado do líder absoluto do segmento.
O Amazon Music de Jeff Bezos firmou uma parceria com Neil Young na esteira do atrito. Young divulgou um link especial em suas redes sociais que dão quatro meses de graça no aplicativo para todos os novos usuários nos EUA e Canadá.
O serviço Apple Music, parte da gigante da tecnologia, se autointitulou nas redes como “o verdadeiro lar de Neil Young” , capitalizando em cima da saída da obra do músico da concorrência.
Músico canadense Neil Young se apresenta em show em Los Angeles, em 2015
Ainda não se sabe quantos assinantes abandonaram o Spotify após a crise e qual pode ser o resultado da campanha das concorrentes para capturar os egressos.
Para a analista de mercado Ashley Carman, do site The Verge, a crise com Neil Young marca um ponto de inflexão para o Spotify, que, a seu ver, já não quer mais se colocar como uma plataforma de streaming de música, e sim como uma empresa que cria, agrega e distribui podcasts.
“Tudo se desenrolou como previsto. Quem o Spotify ia escolher: um músico cujos dias de glória foram há décadas ou um comediante que causa crises de relações públicas mas ao mesmo tempo movimenta no mínimo US$ 1 milhão por cada publicidade?”, questionou Carman.
“Não é mais uma empresa de streaming de música, e sim uma empresa dedicada a podcasts, ao ponto de que pode comprometer sua relação com artistas famosos para garantir o sucesso de sua estratégia”, afirmou a analista.
O mesmo é dito por Casey Newton, jornalista especializado em tecnologia e autor da newsletter Platformer. “Os podcasts são a base do sucesso futuro do Spotify. A empresa investiu dezenas de milhões de dólares na marca de Joe Rogan. É claro que ele vai ter espaço de manobra quando falamos de moderação de conteúdo”, afirmou na edição de 27 de janeiro.
Cantora Joni Mitchell, conhecida por usar várias afinações de violão, em show de 1974, em Los Angeles
“No fim das contas, são apenas negócios ”, disse ao jornal Washington Post John Simson, professor de negócios do entretenimento na Universidade Americana. “No fronte musical, o Spotify paga 70% das receitas aos músicos, na forma de royalties. Eles estão buscando modelos de negócio onde esse repasse não é tão dramático. Os podcasts são a solução.”
Simson acredita que a crise de Joe Rogan e Neil Young não deve afetar o número de usuários do Spotify de maneira significativa, por motivos práticos. “Uma vez que você se familiariza com uma plataforma de streaming, é provável que você continue lá. Você tem suas músicas, playlists, é um ambiente familiar. É assustador para os usuários mudarem completamente de uma hora para outra”, afirmou.
Para Simson, o Spotify deve aumentar seu foco nos podcasts e deixar o catálogo musical como um chamariz inicial para novos usuários e uma funcionalidade acessória para os que já estão consolidados.
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