Expresso

O potencial da vacina de RNA em estudo na África do Sul

Mariana Vick

16 de fevereiro de 2022(atualizado 28/12/2023 às 22h22)

Empresa que recebeu apoio da Organização Mundial da Saúde desenvolve imunizante contra a covid-19 a partir de tecnologia da Moderna. Uma das metas é reduzir a desigualdade de proteção da população mundial

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FOTO: SHELLEY CHRISTIANS/REUTERS – 03.FEV.2022

Cientista negro usa máscara no rosto e uma roupa de trabalho branca, grande, com capuz. Ele olha para um objeto que manuseia. O fotógrafo, que está em outro ambiente, o vê por meio de uma pequena janela.

Cientista trabalha em desenvolvimento de vacina na sede da empresa Afrigen, na África do Sul

O diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), Tedros Adhanom Ghebreyesus, viajou à Cidade do Cabo, na África do Sul, na última sexta-feira (11) para visitar laboratórios da Afrigen, empresa de biotecnologia que fabricou a que pode ser a primeira vacina de RNA mensageiro contra a covid-19 na África.

Anunciada no início de fevereiro, a potencial vacina está nos estágios iniciais de pesquisa e deve estar pronta para testes clínicos (isto é, em humanos) no fim de 2022, segundo a empresa. Criada para atender a países de baixa renda, principalmente na África, ela pode contribuir para ampliar a imunização contra a covid-19 no continente e reduzir os efeitos da desigualdade vacinal global.

O Nexo explica o que há de novo na vacina experimental criada pela Afrigen, como ela está sendo desenvolvida e quais são os desafios do projeto. Mostra também seu possível impacto para o combate à covid-19 na África, que hoje tem a taxa de imunização mais baixa do mundo.

A origem da vacina sul-africana

A Afrigen anunciou que havia conseguido fabricar seu próprio experimento de própria vacina de RNA mensageiro contra a covid-19 no dia 3 de fevereiro. É a primeira vez que esse tipo de tecnologia — usada em vacinas como a da Pfizer — é usado no desenvolvimento de um imunizante projetado e produzido em escala de laboratório no continente.

A potencial vacina foi preparada a partir do sequenciamento genético do imunizante de RNA mensageiro fabricado pela Moderna, empresa americana que concluiu as pesquisas de sua injeção contra a covid-19 no fim de 2020 e a distribuiu majoritariamente para EUA, Canadá e países da Europa.

FOTO: LUCY NICHOLSON/REUTERS

Uma mão de mulher, com unhas vermelhas, espeta uma seringa num frasco de vacina

Enfermeira manuseia dose da vacina da Moderna em Los Angeles, EUA

Segundo Martin Friede, funcionário da OMS que coordena o trabalho da Afrigen, a vacina da Moderna foi escolhida porque seus dados de sequenciamento genético estão disponíveis ao público . A empresa americana também se comprometeu a não fazer valer suas patentes enquanto durar a pandemia.

Apesar disso, a Afrigen “não copiou a Moderna”, segundo Petro Terblanche, diretor da empresa, em entrevista à agência Reuters. O grupo que desenvolve a futura vacina na África do Sul diz ter usado sua própria tecnologia nas etapas seguintes de produção.

A vacina em estudo da Afrigen tem adaptações. O produto não exige, por exemplo, o armazenamento em geladeiras ultrafrias, como os imunizantes da Moderna e da Pfizer — no início, a recomendação era de que eles ficassem sob temperaturas entre -60ºC e -80ºC. Essa adaptação foi feita para que a distribuição seja mais fácil em locais com condições mais precárias de transporte e armazenamento de doses, como é o caso de alguns países da África.

O grupo que conduz a pesquisa

O projeto começou com a iniciativa da OMS, em junho de 2021, de criar um centro de desenvolvimento e produção de vacinas de RNA mensageiro com sede na Afrigen, na Cidade do Cabo. A iniciativa tem apoio da organização de saúde e do mecanismo Covax, aliança global voltada para garantir o acesso a vacinas.

Segundo a OMS, o objetivo da iniciativa é capacitar países de baixa e média renda para o desenvolvimento desse tipo de vacina, que passou a ser aplicada em larga escala pela primeira vez durante a pandemia de covid-19. A Pfizer e a Moderna são exemplos de laboratórios que distribuíram vacinas de RNA mensageiro.

FOTO: DENIS BALIBOUSE/REUTERS – 28.02.2020

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, um homem negro, de bigode, óculos e cabelo grisalho, fala ao microfone. Atrás dele há um painel azul da OMS

Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS

Em 2021, quando lançou a iniciativa, a organização pediu às alemãs Pfizer e BioNTech e à Moderna que ajudassem a ensinar os pesquisadores na África do Sul a fazer suas vacinas contra a covid-19. Os laboratórios, porém, não responderam, e a OMS e a Afrigen decidiram seguir sem a ajuda deles.

O plano de desenvolver uma nova vacina começou de fato em setembro, quando pesquisadores da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, fabricaram a molécula de DNA que serviria como molde para a síntese do RNA mensageiro usado na vacina. A equipe concluiu esse processo em dezembro, quando enviou frascos de RNA para a Afrigen.

Para entender como vacinas como essa funcionam, é preciso lembrar que o RNA mensageiro serve para fornecer informações ao organismo para criar proteínas. No caso da vacina contra a covid-19, o RNA produzido em laboratório ensina o corpo humano a fabricar a proteína S do coronavírus, responsável por ligá-lo às células humanas. Com isso, o imunizante estimula quem o recebeu a produzir a resposta imune.

FOTO: MORRY GASH – POOL/GETTY IMAGES

Dois funcionários usando máscaras e capacetes com o logotipo da Pfizer carregam caixa com frascos de vacina

Funcionários preparam caixas de distribuição da vacina contra a covid-19 desenvolvida pelos laboratórios Pfizer/BioNTech

Com a divulgação de que a África do Sul começava a tentar criar uma vacina própria, ainda em 2021, cientistas que haviam desenvolvido a tecnologia de RNA mensageiro em outros países, como os EUA, ofereceram ajuda à Afrigen. França, Alemanha e Bélgica doaram recursos para a iniciativa.

“Foi extraordinário. Acredito que muitos cientistas estavam desiludidos com o que havia acontecido com a distribuição de vacinas, e eles queriam ajudar a tirar o mundo desse dilema”

Petro Terblanche

diretor-administrativo da Afrigen, em entrevista à revista Nature

Apesar dos pedidos, a Moderna não ofereceu outras tecnologias — além do sequenciamento do RNA, que já estava público — à Afrigen. Com o anúncio de que a vacina havia sido desenvolvida, o laboratório não fez novos comentários sobre a iniciativa.Também não esclareceu se irá fazer valer sua patente no futuro — o que poderia comprometer o uso do novo imunizante.

As expectativas para seu uso

Segundo a OMS, a expectativa é de que a futura vacina da Afrigen — que por enquanto está na fase de desenvolvimento em laboratório — fique pronta para os primeiros testes em humanos em novembro. Caso os testes sejam bem-sucedidos e o imunizante se prove seguro e eficaz contra a covid-19, ele poderá ser aprovado em 2024.

Os principais desafios do grupo que desenvolve a vacina a partir de agora envolvem a produção de doses em larga escala. Cerca de 99% de todas as vacinas usadas na África — contra todas as doenças, não só a covid-19 — são importadas. Aumentar a produção exigirá uma série de inovações dos fabricantes, segundo cientistas.

FOTO: SIPHIWE SIBEKO/REUTERS – 14.JAN.2021

Através da janela de uma tenda de atendimento médico, uma profissional vestida com trajes de proteção insere um cotonete na narina de um paciente

Pessoa é testada para covid-19 durante período de lockdown na cidade de Lenasia, África do Sul

A Moderna e a BioNTech, parceira da Pfizer no desenvolvimento de vacinas contra a covid-19, haviam anunciado planos de construir fábricas de seus imunizantes de RNA mensageiro na África. Nesta quarta-feira (16), a BioNTech anunciou que enviaria unidades de produção móveis de vacinas para o continente ainda em 2022.

Para cientistas, outro possível desafio da Afrigen nos próximos meses tem relação com as patentes. Em entrevista à revista Nature, Charles Gore, diretor do Medicines Patent Pool na Suíça, diz esperar que, quando a vacina estiver pronta para uso, a Moderna possa licenciar suas patentes — ou que, até lá, existam alternativas que permitam que a África do Sul distribua os imunizantes sem temer uma ação judicial.

Com a descoberta da variante ômicron do coronavírus, em novembro de 2021, na África do Sul, cresceu a pressão na comunidade internacional pela quebra de patentes das vacinas — o que derrubaria os direitos dos atuais fabricantes sobre suas tecnologias e quebraria monopólios sobre seu desenvolvimento, produção e distribuição. A discussão divide países.

Outros laboratórios de países de baixa e média renda acompanham o trabalho da Afrigen — como a empresa sul-africana Biovac, o Sinergium Biotech na Argentina e a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), no Brasil. A Afrigen repassará a tecnologia de RNA mensageiro para essas instituições, para que possam produzir suas próprias vacinas.

O potencial de impacto da vacina

Mesmo que as expectativas sejam de que a vacina da Afrigen não seja distribuída para países da África ainda em 2022, diversos pesquisadores do continente disseram que a iniciativa é um marco para o desenvolvimento de vacinas de RNA mensageiro na região.

A OMS diz esperar que o processo de criação do imunizante estabeleça as bases para uma indústria das chamadas vacinas gênicas (com a tecnologia do RNA mensageiro) mais distribuída no mundo. Com a estrutura criada agora, a África poderia ganhar autonomia para produzir vacinas desse tipo não só para a covid-19, mas para outras doenças que atingem o continente — como tuberculose, malária e mesmo a aids.

FOTO: TIKSA NEGERI/REUTERS – 13.MAR.2021

Mulher de máscara cirúrgica levanta a manga da blusa e olha para profissional de saúde com luvas de borracha que aplica vacina em seu braço esquerdo

Mulher recebe vacina da AstraZeneca enviada pelo consórcio Covax, da OMS, em hospital na Etiópia

Usadas pela primeira vez na crise da covid-19, as vacinas de RNA mensageiro são mais rápidas de serem feitas do que as produzidas pelos métodos tradicionais e apresentam altos índices de eficácia — como é o caso dos imunizantes da Pfizer e da Moderna contra a covid-19, cuja eficácia contra a covid-19 é de mais de 90%.

Em entrevista ao site Politico, Sotiris Missailidis, diretor de pesquisa da Fiocruz, afirmou que novas vacinas contra a covid-19 continuarão a ser necessárias nos próximos anos. Mesmo em um cenário que não haja mais pandemia, “ainda vamos conviver com o coronavírus como uma doença endêmica ”, e é importante que países de baixa e média renda sejam independentes em sua produção.

Com o início das primeiras campanhas de imunização contra a covid-19, no fim de 2020, a OMS alertou para os riscos de que as vacinas se concentrassem em países ricos — o que de fato aconteceu nos meses seguintes. Em maio de 2021, Tedros Adhanom afirmou que a desigualdade na distribuição de doses era “ escandalosa ” e estava perpetuando a pandemia.

FOTO: TIKSA NEGERI/REUTERS

Consórcio global foi criado para diminuir a desigualdade na distribuição de vacinas pelo mundo.

Pessoa exibe frascos de vacina e logo da Covax, aliança criada para fazer a distribuição igualitária de vacinas

Na quinta-feira (10), a OMS mostrou que 85% da população que vive em países do continente africano não recebeu nenhuma dose de vacina contra a covid-19. A taxa supera a porcentagem de pessoas que não se imunizaram em todos os outros continentes — América do Sul (20%), América do Norte (30%), Ásia (29%), Europa (33%) e Oceania (25) —, segundo dados do site Our World in Data. O site não exibe dados para a América Central.

6 milhões

de pessoas são vacinadas a cada semana na África, em média; número precisa chegar a 36 milhões para que o continente alcance 70% de imunizados até julho de 2022

Mesmo nos casos em que há doações de vacinas para a África — cerca de 587 milhões foram enviadas até agora por meios como o mecanismo Covax, o que poderia imunizar com uma dose pouco menos da metade da população —, há dificuldades ligadas à aplicação rápida de doses.

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