Expresso

As preparações para um 7 de Setembro às portas da eleição

Isabela Cruz

14 de junho de 2022(atualizado 28/12/2023 às 22h43)

Bolsonaro convoca apoiadores, e militares organizam grande desfile. Cientistas políticos falam ao ‘Nexo’ sobre o que esperar das manifestações e o que mudou em relação aos atos de 2021

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FOTO: KEVIN LAMARQUE/REUTERS – 09.JUN.2022

Bolsonaro com uma mão na palma da outra

O presidente Jair Bolsonaro, durante Cúpula das Américas, em Los Angeles, EUA

A menos de um mês do primeiro turno das eleições gerais, o Dia da Independência do Brasil, que tem seu bicentenário em 7 de setembro, será marcado por atos bolsonaristas e um grande desfile militar, segundo o presidente Jair Bolsonaro. O eleitorado do presidente já se articula, com manifestações de rua preparatórias programadas para o final de julho , segundo reportagem do site Jota.

Bolsonaro aposta alto nos ataques a ministros do Supremo e do Tribunal Superior Eleitoral, assim como em seu discurso que tenta colocar em xeque a segurança das urnas eletrônicas, mesmo sem apresentar provas . Em agosto, o ministro do Supremo Alexandre de Moraes, relator de inquéritos que pressionam o bolsonarismo na corte máxima do país, vai assumir a presidência do TSE.

Neste texto, o Nexo mostra o que Bolsonaro já disse sobre as manifestações que estão sendo organizadas, resgata o quadro atual das pesquisas eleitorais, e explica como a força política do presidente se alterou desde 7 de setembro de 2021, quando seus apoiadores também foram para as ruas com demandas antidemocráticas .

O que Bolsonaro busca

Nos atos de 7 de setembro de 2021, Bolsonaro chamou Moraes de “canalha” e disse que não iria mais cumprir ordens do ministro, algo que na prática significa uma subversão dos poderes institucionais definidos pela Constituição. Apoiadores do presidente também pediram golpe militar e outras medidas ilegais.

Logo depois, Bolsonaro, com a ajuda do ex-presidente Michel Temer, ligou para Moraes e publicou uma carta em que recuava dos ataques. O presidente tem dito que só fez isso depois de negociar com o ministro um acordo pelo qual o inquérito das fake news deveria ser encerrado. Temer nega que esse acordo tenha ocorrido, mas Bolsonaro insiste que Moraes está violando o combinando ao manter as investigações em curso.

Para 7 de setembro de 2022, Bolsonaro afirma que o objetivo será demonstrar “de que lado o povo está”. “A melhor pesquisa [eleitoral] é a que eu faço na rua ”, disse ele na terça-feira (7). Eventos recentes do presidente, como os atos de 1º de maio , não registraram a mesma adesão dos eventos em 2021.

“Tem se percebido que essas manifestações têm perdido ímpeto. Menos gente nas motociatas, menos mobilização nas redes sociais”, afirmou ao Nexo o cientista político Marco Antonio Teixeira, professor da FGV (Fundação Getulio Vargas) em São Paulo. Para Teixeira, portanto, os atos de 7 de setembro, com a agenda de contestação do processo eleitoral atual, são uma forma de Bolsonaro “não deixar que seus seguidores se desanimem”.

O presidente diz que, no Dia da Independência, seus apoiadores irão mostrar que “querem eleições limpas e transparentes . Bolsonaro já ameaçou não aceitar o resultado eleitoral caso saia derrotado e acredite que houve fraude (ainda que nunca tenha havido suspeita razoável de acontecimento do tipo).

O que as pesquisas mostram

As pesquisas eleitorais registradas no TSE, feitas por institutos especializados a partir de uma amostra representativa da diversidade da população brasileira, revelam um cenário desfavorável para Bolsonaro cada vez mais consolidado.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera em todos os cenários e pode vencer ainda no primeiro turno . O petista também tem uma rejeição menor do que a do presidente.

33% e 54%

é o percentual de eleitores que não votariam de jeito nenhum em Lula e em Bolsonaro, respectivamente, segundo pesquisa Datafolha publicada no final de maio (código BR-05166/2022 no TSE), com margem de erro de dois pontos para mais ou para menos

“A rejeição é um teto de crescimento que Bolsonaro tem, então ele está muito preocupado com isso”, afirmou ao Nexo a cientista política Nara Pavão, professora da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). “É uma rejeição que impede uma grande reestruturação das eleições que seja favorável a ele”, disse.

Já o discurso bolsonarista de contestação à credibilidade do processo eleitoral tem ganhado força , ainda que a confiança nas urnas eletrônicas seja amplamente majoritária.

Segundo pesquisa do Instituto Datafolha realizada no final de maio, 73% dos eleitores confiam nas urnas eletrônicas. Trata-se de um recuo em relação a março, quando o índice era de 82%, mas ainda assim é um índice alto.O TSE tem feito campanha para demonstrar à população como o processo de apuração dos votos é transparente e auditável .

Professor da PUC e da Faap e coordenador do Observatório da Extrema Direita, David Magalhães disse ao Nexo que, se as pesquisas de setembro apontarem vitória de Lula em primeiro turno, “o movimento bolsonarista pode se radicalizar ainda mais”.

Magalhães considera, porém, improvável uma tentativa de golpe em 7 de setembro, porque, segundo ele, “não há consenso no generalato acerca da necessidade de uma ruptura institucional”.

Descolamentos e adesões

Em 2021, os atos de 7 de setembro foram volumosos, mas representaram uma frustração para Bolsonaro, que não conseguiu a adesão das polícias militares.

Às vésperas das manifestações, os Ministérios Públicos de diferentes estados se mobilizaram para prevenir a adesão de PMs ao evento político-partidário. Os regimentos disciplinares das corporações proíbem a participação em manifestações dessa natureza.

Desde então, outros movimentos aconteceram entre setores que integraram o eleitorado de Bolsonaro em 2018. Os caminhoneiros, por exemplo, passaram a enfrentar preços recordes dos combustíveis com as altas provocadas pela guerra da Ucrânia, iniciada em fevereiro.

“Há também um mal-estar com os servidores públicos por conta da promessa de aumento que não vingou, principalmente quando olhamos para a Polícia Federal”, disse Teixeira, da FGV-SP.

Para Magalhães, do Observatório da Extrema Direita, Bolsonaro se enfraqueceu politicamente desde o 7 de setembro de 2021, enquanto as instituições ficaram mais preparadas para resistir a qualquer tentativa golpista.

Magalhães também afirmou ao Nexo que o apoio dos policiais militares a Bolsonaro vai depender da forma com que Lula vai reagir às demandas desse setor. “O núcleo da campanha do petista está formulando no seu programa de governo incorporar uma série de demandas das polícias”, disse.

Já militares das Forças Armadas demonstraram adesão à contestação que Bolsonaro faz, sem fundamento, das urnas eletrônicas. Convidado para participar da Comissão de Transparência das Eleições, que é um órgão consultivo do TSE, o Exército tem pressionado o tribunal com dezenas de questionamentos sobre pontos muitas vezes já esclarecidos.

O próprio ministro da Defesa, general da reserva Paulo Sérgio Nogueira, também tem feito uma série de cobranças ao tribunal e já se propôs a centralizar as comunicações entre a Justiça Eleitoral e o Exército, que se subordina ao ministério.

O pedido do ministro, feito em maio, recebeu diversas críticas. Entre outros motivos, porque a ideia original do convite às Forças Armadas era de uma participação para sugestões técnicas, e não de uma participação guiada por um ministro de Bolsonaro, que deverá ser um dos participantes da disputa eleitoral.

Na sexta-feira (10), Nogueira enviou ao ministro Edson Fachin, presidente do TSE, um ofício dizendo que as Forças Armadas não se sentem “devidamente prestigiadas” pelo tribunal. Fachin respondeu nesta segunda (13) dizendo que tem “ elevada consideração às Forças Armadas e a todas as instituições do estado democrático de direito no Brasil”.

O tamanho do radicalismo

O Exército pretende mobilizar um número recorde de tropas, veículos e aeronaves para o evento, a pretexto da celebração do bicentenário da independência do Brasil, informa a coluna do jornalista Rodrigo Rangel, no site Metrópoles. Ainda segundo a coluna, os desfiles deverão ocorrer não apenas em Brasília como em outras cidades.

Segundo o site Jota, a novidade em relação a 2021 é a tentativa de engajar lideranças evangélicas e católicas com a bandeira do combate à legalização do aborto — embora líderes religiosos de várias denominações estejam registrando dificuldades de convencer fiéis a participar de protestos.

Quanto ao discurso do presidente, Teixeira, da FGV-SP, vê possibilidade de maior moderação em relação ao discurso de 2021.“Se ele radicalizar no 7 de setembro, a perspectiva é que ele perca parte da classe média que o apoia”, afirmou o professor.

“A impressão que se fica é que quanto mais o presidente radicaliza, mais ele mobiliza os fundamentalistas, mas também mais ele expele o apoio de um grupo que de certa forma teria até simpatia por ele, por conta da pauta liberal, ou por conta da pauta moral, ou qualquer coisa assim, mas não topa colocar a democracia em risco”, disse Teixeira.

Pavão também vê possibilidade de um discurso presidencial menos inflamado do que em 2021. Segundo ela, a proximidade das eleições confere maior peso às declarações de Bolsonaro, aumentando as chances de discursos muito extremistas afastarem setores da população da base presidencial.

“Diferentemente do ano passado, agora já estamos em clima de eleição. Então vai ser um momento para ver quem realmente adere ao discurso dele”

Nara Pavão

professora do Departamento de Ciência Política da UFPE, ao Nexo

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto informava que Paulo Sérgio Nogueira é um general da ativa. Na verdade, ele foi transferido para a reserva em abril de 2021. A informação foi corrigida no dia 10 de agosto de 2022, às 19h12.

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