Como a tragédia dos Yanomami volta a ecoar no exterior
Mariana Vick
31 de janeiro de 2023(atualizado 28/12/2023 às 19h58)Líder Davi Kopenawa fala nos Estados Unidos sobre emergência sanitária, enquanto notícias repercutem na imprensa e Alemanha anuncia apoio para ações socioambientais no Brasil. Crises semelhantes geraram campanha global no século 20
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Convidado decorado com penas de urubu e falcão em banquete, região do Catrimani, 1974. Foto de Claudia Andujar que compõe exposição em Nova York
Liderança yanomami e um dos autores do clássico “A queda do céu: palavras de um xamã yanomami”, Davi Kopenawa falou nesta terça-feira (31) em evento do Brazil Lab , centro de pesquisa parceiro do Nexo Políticas Públicas , na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, sobre a crise humanitária que explodiu em 2023 no território:
“Eu tô de luto. O meu povo, Yanomami, está doente e morrendo. Nossas crianças adoeceram. Adoeceram a doença do homem branco. A doença que entra junto com destruidores”
Junto com ele estavam ativistas, antropólogos e estudantes, que também fizeram menção à fotógrafa Claudia Andujar . Aos 91 anos, ela estreia em Nova York uma exposição sobre os Yanomami em fevereiro, num momento em que volta a crescer o interesse global pelos povos indígenas do Brasil.
Esta não é a primeira vez que a situação dos Yanomami chega ao noticiário global. Momentos de crise tão agudas quanto a atual ocuparam as páginas de notícias na mídia estrangeira e motivaram protestos em outros países na segunda metade do século 20. O Nexo recupera esses marcos e explica por que há tanto interesse pela situação dos Yanomami.
Localizada entre o Amazonas e Roraima, incluindo parte da fronteira com a Venezuela, a terra indígena Yanomami abriga uma população de mais de 26 mil pessoas repartidas em 228 comunidades, que por séculos viveram de forma relativamente isolada, convivendo com indígenas vizinhos.
Os primeiros contatos com a sociedade nacional ocorreram na primeira metade do século 20, quando comunidades da região tiveram encontros com funcionários do antigo Serviço de Proteção ao Índio, órgão anterior à Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), que passaram a ocupar a área junto com grupos como missionários, caçadores e balateiros.
Indígenas yanomami, em Roraima
O perfil da ocupação do território foi esse até a década de 1970, na ditadura militar (1964-1985). Com um discurso nacionalista, o novo governo criou um projeto de desenvolvimento e de integração da Amazônia que incluiu iniciativas como a abertura da estrada Perimetral Norte, cuja obra, a partir de 1973, levou epidemias como de gripe e malária aos Yanomami.
A crise coincidiu com a publicação de reportagens paradigmáticas sobre a situação dos povos originários do Brasil. Em 1971, a antiga revista Realidade publicou uma edição especial sobre a Amazônia tendo na capa a foto de uma mulher yanomami feita por Claudia Andujar, que começou ali a história de seu trabalho com os indígenas.
“A edição especial da revista Realidade de outubro de 1971 não foi apenas a ‘mais longa, custosa e apaixonante reportagem’ já realizada pela Editora Abril, como proclamava o seu dono, Victor Civita, na ‘Carta do Editor’, mas a maior de todas as reportagens da história da imprensa brasileira”
Fora do Brasil, a Sunday Times Magazine publicou em 1969 uma longa reportagem sobre o extermínio de indígenas brasileiros empreendido desde as décadas anteriores. Revelados pelo Relatório Figueiredo em 1967, a matança e o roubo de terras indígenas por latifundiários e garimpeiros havia ocorrido com a conivência do Serviço de Proteção ao Índio, que acabou sendo dissolvido.
“Dos 19 mil mundurucus que se acreditava terem existido nos anos 1930, restavam apenas 1.200. A população de guaranis foi reduzida de 5.000 para 300 pessoas. Restavam 400 carajás dos 4.000 de outrora. Dos cintas-largas, que haviam sofrido um ataque aéreo e foram expulsos para as montanhas, possivelmente 500 sobreviveram de um total de 10 mil”
O trabalho teve repercussão internacional imediata. Em 1969, um grupo de pessoas impactadas pela situação dos indígenas no Brasil criou a organização Survival International, que até hoje faz campanhas e difunde informações sobre os problemas de povos de diversos países.
Segundo Sarah Schenker, ativista da Survival, a organização passou a trabalhar com os Yanomami pouco depois da fundação, no início dos anos 1970. “Não havia tanta mídia quanto hoje, mas começaram a sair mais notícias sobre graves problemas na terra Yanomami. Começou a partir daí uma campanha de mais de 20 anos pela demarcação”, disse ao Nexo .
O período seguinte à publicação dos primeiros trabalhos sobre os Yanomami foi marcado por uma nova fase de ocupação do território, quando, no fim dos anos 1970, chegaram à terra indígena garimpeiros atraídos pela publicação de um relatório do regime militar que apontava ali a existência de ouro.
O garimpo é proibido em terras indígenas no Brasil. A invasão garimpeira, porém, só cresceu até os anos 1980. Entre 1987 e 1990, a Survival estimava que cerca de 40 mil garimpeiros atuavam ilegalmente na terra Yanomami — uma população maior que a das próprias comunidades locais.
Garimpeiro maneja bateia em busca de ouro no município de Itaituba, no interior do Pará
Essa ocupação agravou os problemas sanitários que atingiam a região desde os anos anteriores. Os garimpeiros não só levaram mais doenças para os indígenas, como contaminaram rios e peixes com mercúrio — o que provocou insegurança alimentar e mortes por desnutrição e intoxicação, em uma situação muito parecida com a atual.
“[Em 1993 os Yanomami] tiveram um número de casos de malária proporcionalmente sete vezes maior que a população de Roraima, um coeficiente de mortalidade geral duas vezes e meia maior que o da cidade do Rio de Janeiro e mortalidade infantil duas vezes e meia maior que o da cidade de Fortaleza: são dos piores indicadores de saúde do Brasil que os Yanomami conseguem superar, para baixo”
20%
da população Yanomami morreu entre 1987 e 1993 em decorrência do garimpo ilegal, segundo estimativa da Survival
O quadro chamou a atenção da sociedade civil. Em 1980, o caso dos Yanomami foi denunciado à OEA (Organização dos Estados Americanos), que cinco anos depois ordenou que o Brasil protegesse o território. Schenker contou ao Nexo que, no Reino Unido, manifestantes passaram a protestar de forma regular em frente à Embaixada brasileira, ao mesmo tempo que Davi Kopenawa viajou pela Europa e ativistas enviaram cartas e marcaram reuniões com políticos.
Protesto no exterior contra a violência na terra Yanomami
A pressão a favor dos indígenas levou o Brasil a iniciar, a partir de 1988, ano de promulgação da nova Constituição, o processo de demarcação da terra Yanomami. Protestos de organizações da sociedade civil na época fizeram o então presidente José Sarney recuar na implementação de um projeto que previa a destinação de uma área reduzida e incentivaram o governante seguinte, Fernando Collor, a atender às demandas dos povos indígenas.
Collor, que buscava atrair publicidade positiva em um momento de ascensão do debate ambiental, demarcou a terra Yanomami em 1992 apesar do lobby contrário de setores como o militar. O território Yanomami se tornou a maior terra indígena do Brasil.
Com a expulsão do garimpo da terra Yanomami nos anos seguintes à demarcação, ainda no governo Collor, houve poucos casos dentro do território de repercussão semelhante à dos anos 1970 e 1980 ou mesmo à de hoje, segundo Schenker.
Apesar de episódios como o massacre de Haximu , em que garimpeiros brasileiros mataram indígenas yanomami venezuelanos em 1993 — caso que gerou a primeira condenação por genocídio no Brasil —, a ativista disse não conseguir “imaginar outro momento com tanta visibilidade e repercussão dentro e fora do Brasil” quanto a atual crise sanitária.
Indígenas Yanomami recebem tratamento emergencial em Boa Vista, após resgate de força-tarefa do SUS (Sistema Único de Saúde)
Depois que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou a terra Yanomami, no dia 21 de janeiro, para verificar a emergência de saúde, veículos internacionais como The New York Times, Washington Post e Reuters escreveram sobre o caso — alguns chamando-o de genocídio ou comparando as imagens divulgadas de crianças desnutridas com as de campos de concentração.
Denúncias veiculadas pelos próprios indígenas nas redes sociais contribuíram para dar visibilidade à situação. “O contexto de comunicação é totalmente diferente [em comparação com a campanha pela demarcação dos anos 1980]”, disse Schenker ao Nexo .
O presidente da República visitou o estado de Roraima para acompanhar a situação da saúde na terra indígena Yanomami
Junto com a repercussão na imprensa, a crise tem tido impacto político. Na segunda-feira (30), a ministra da Cooperação e Desenvolvimento Econômico da Alemanha, Svenja Schulze, que esteve no Brasil, anunciou o repasse de € 203 milhões (R$ 1,1 bilhão) para ações socioambientais, que a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, disse que serão usados para combater a crise dos Yanomami.
“Mais e mais, os olhos do público estão se voltando para o fato de que os povos indígenas são os melhores guardiões da natureza”, disse Schenker. “E isso tem sido mais destacado no contexto da luta global contra a mudança climática”, que tem crescido em diversos países, inclusive no Brasil, em discursos do novo governo Lula.
Davi Kopenawa disse nesta terça (31) que os Yanomami são conhecidos dentro e fora do Brasil por seu papel para o meio ambiente. “Fica de olho no meu povo, Yanomami, que está protegendo a Amazônia”, afirmou. “Todo mundo sabe que a floresta amazônica é importante.”
O líder indígena cobrou que o novo governo cumpra a promessa de expulsar o garimpo do território. “A gente escutou a fala do presidente Lula”, disse. “Eu pedi para ele tomar as providências com urgência. Não é amanhã. Não é depois de amanhã. É urgente.”
Davi Kopenawa Yanomami, escritor, ativista e xamã Yanomami
Para Schenker, o alcance de líderes como Kopenawa está entre os fatores que despertam o interesse global sobre a situação dos Yanomami. “Os Yanomami estão entre os povos mais conhecidos dentro e fora do Brasil”, disse. “Essa é a maior terra indígena do Brasil, e ele [Kopenawa] tem um dom natural de chegar longe.”
Em 2023, a visita do presidente da República à terra indígena e a divulgação de imagens chocantes de crianças e idosos com desnutrição também explicam a repercussão da crise. “Essa situação dramática não deveria ser necessária para o mundo abrir os olhos, mas é assim”, disse.
“Era para [a visibilidade da crise Yanomami] ter acontecido antes. Agora temos mídia, pressão política, do movimento indigena, de trabalho jurídico. Mas é tarde. Centenas de crianças morreram. Essas mortes poderiam ter sido evitadas”
A exposição de Claudia Andujar em Nova York acontece de 3 de fevereiro a 16 de abril no centro de arte The Shed. A curadoria é de Thyago Nogueira, do Instituto Moreira Salles, que também exibiu o trabalho da fotógrafa no Brasil em 2019, e tem orientação de Davi Kopenawa.
Schenker disse ao Nexo que é positivo que a crise Yanomami tenha chamado a atenção de outros países — tanto da imprensa quanto de governos —, mas o apoio aos indígenas não deve se limitar ao discurso político. Para ela, é preciso evitar falsas soluções e promessas. “A única solução é a proteção das terras indígenas”, disse.
Foi apresentado como opção para o prêmio Nobel da Paz em 2020.
Em 1987, participou da Assembleia Constituinte, protestando pelos direitos dos povos indígenas ao pintar o rosto de preto.
Foi o primeiro indígena eleito a um cargo político no Brasil.
Foi a primeira mulher indígena a se candidatar a vice-presidente.
Foi a mulher que encostou um facão na bochecha de um representante do Estado, durante protesto contra o projeto da usina de Belo Monte, em 1989. A imagem do momento rodou o mundo.
Ex-vereador, é um dos principais líderes de uma etnia que está no centro de conflitos violentos por terra no Mato Grosso do Sul.
Foi a primeira mulher indígena eleita para o Congresso Nacional.
É conhecido como o “Dalai Lama da Floresta”.
Foi um dos principais defensores do reconhecimento da Terra Indígena de Raposa Serra do Sol, em Roraima.
Homenageada com o Prêmio Equador da ONU, é líder de uma etnia na Amazônia cuja história é marcada pelos antigos caçadores de cabeças, representantes de um povo voltado à guerra.
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