Expresso

Qual a origem do fogo que toma o Norte. E como combatê-lo 

Mariana Vick

12 de novembro de 2023(atualizado 28/12/2023 às 22h13)

Focos de calor bateram recorde na Amazônia em outubro. Moradores de Manaus vivem há semanas sob fumaça. Presidente do Ibama reconhece resposta insuficiente do governo federal

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FOTO: BRUNO KELLY/REUTERS – 12.OUT.2023

Mulher apoiada sobre uma janela grande olha a paisagem, marcada por prédios. Ela usa máscara de proteção contra a covid-19. O céu, muito claro, tem uma neblina de fumaça.

Mulher vê da janela fumaça causada por queimadas em Manaus

Focos de calor bateram recorde na Amazônia em outubro, segundo dados divulgados no começo do mês pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Moradores do Amazonas, um dos estados mais atingidos pelas queimadas, vivem há semanas sob fumaça . A qualidade do ar atingiu níveis considerados péssimos para a população , de acordo com sistemas de vigilância.

As ações de combate ao fogo são insuficientes. O presidente do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), Rodrigo Agostinho, admitiu em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo na quarta-feira (8) que falta estrutura para conter as queimadas. A seca que atinge a Amazônia agrava o problema , dificultando o trabalho de brigadistas.

Neste texto, o Nexo explica como as queimadas se intensificaram na Amazônia nos últimos meses, de onde elas vêm e qual o prognóstico até o fim da temporada de seca. Mostra também qual é a capacidade brasileira de combater o fogo na Amazônia, o que está sendo feito para melhorá-la e o como o país deve se preparar para o futuro.

De onde vem o fogo

Dados do Inpe mostram que houve registro de 22.061 focos de calor na Amazônia em outubro, o maior número para o mês desde 2008. Focos de calor são pontos geográficos captados por satélites de área mínima de 900 m² e temperaturas acima de 47ºC. Sua ocorrência é um forte indicador de queimadas ou incêndios florestais.

O Pará, o Maranhão e o Amazonas foram os três estados que mais registraram focos de calor no mês. Apenas o Pará responde por 41,5% dos registros da Amazônia, que compreende nove estados. O Amazonas, apesar de apresentar taxa menor (14,1%), registrou o maior número de focos de sua série histórica no Inpe, desde 1998.

FOTO: ADRIANO MACHADO/REUTERS – 28.SET.2021

Imagem aérea mostra área desmatada no meio de uma floresta verde e densa. Também há fumaça no céu.

Área da floresta amazônica desmatada em Rondônia

A origem das queimadas no bioma divide autoridades. O governador do Amazonas, Wilson Lima (União Brasil), publicou um vídeo nas redes sociais no dia 3 de novembro afirmando que a fumaça que toma cidades como Manaus vem de municípios do oeste do Pará . O Ibama, no entanto, afirmou em outubro que, apesar das queimadas no estado vizinho, o ar na capital amazonense vem de municípios do estado como Careiro e Autazes , provocada por agropecuaristas.

O que causa as queimadas

As queimadas na Amazônia não são naturais. A vegetação típica da região é a floresta tropical úmida, que não pega fogo espontaneamente (diferentemente de vegetações como as do Cerrado). Diversas áreas na região queimam, na verdade, por causa da ação humana, que usa o fogo para a limpeza de áreas para o plantio de lavouras e pastagens.

A técnica serve para consumir a matéria orgânica de uma área natural, que pode ser de pasto, de floresta ou de desmatamento. Nem sempre ela é ilegal — em algumas situações, as pessoas têm autorização dos governos para queimar áreas de sua propriedade. Não é esse o caso, no entanto, da Amazônia, onde a maior parte do desmatamento é ilegal.

“Existem queimadas legais. Quando a pessoa pede uma licença de supressão de vegetação para desmatar uma área que ela pode desmatar legalmente dentro do Código Florestal [principal lei sobre o tema no Brasil], ela também tem uma licença para queima dessa vegetação. O que acontece é que as pessoas não pedem licença”

Ane Alencar

diretora de ciência do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), em entrevista ao Nexo

Produtores rurais da região não precisam necessariamente do fogo para usar a terra, segundo Ane Alencar, diretora de ciência do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia). “Se uma terra é bem remanejada, não precisa usar fogo. O problema é que as pessoas não manejam bem seus pastos”, disse ao Nexo .

O que as intensificou agora

A Amazônia tem um clima marcado por duas estações bem definidas: uma chuvosa e outra seca, que dura de agosto a novembro. As queimadas no bioma se concentram no período seco, que, por causa da menor umidade relativa do ar, favorece a dispersão do fogo. Outros anos também registraram maior número de focos de calor nesta época do ano.

O quadro de 2023, no entanto, é diferente do de outros períodos. A estação seca deste ano está mais forte e prolongada do que outras, causada pela combinação do fenômeno climático El Niño com o aquecimento das águas do Oceano Atlântico Norte. A estiagem baixou o nível de rios, causou prejuízos e deixou comunidades rurais isoladas e sem alimento.

FOTO: BRUNO KELLY/REUTERS – 06.OUT.2023

Homem de boné conduz uma pequena embarcação, remando num lago raso. Ao redor vê-se um enorme chão seco, com rachaduras.

Pessoa navega no lago Puraquequara, afetado por seca em Manaus

A situação contribui para o aumento do fogo na região. “A intensidade da seca tem dado as condições necessárias para que o fogo intencional — ou seja, aquele que a pessoa coloca para queimar seu pasto, sua área desmatada — escape, atingindo uma área grande, porque a vegetação está seca”, disse Alencar. Quando as queimadas saem de controle, elas se tornam incêndios.

O quadro não tende a melhorar nos próximos meses, segundo Alencar. A Organização Meteorológica Mundial, ligada à ONU, afirmou na quarta (8) que o El Niño deve durar até abril de 2024 . A influência do fenômeno terá, portanto, impacto sobre a estação chuvosa da Amazônia, que ocorre nos primeiros meses do ano.

“É previsto que o El Niño reduza a quantidade de chuva na Amazônia, o que vai impedir a recarga de água da região. A floresta vai continuar sob estresse hídrico — o que vai impactar a próxima estação seca. É preocupante, porque uma estação seca com baixo nível de recarga durante o período de chuva pode causar um impacto muito maior do que a gente já está vendo”

Ane Alencar

diretora de ciência do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), em entrevista ao Nexo

Qual a resposta do governo

Apesar do anúncio de medidas do governo federal para conter o fogo na Amazônia, como o aumento de brigadistas do Ibama e do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), o presidente da primeira autarquia, Rodrigo Agostinho, disse na quarta (8) ao jornal O Estado de S. Paulo que a resposta à crise é insuficiente. As queimadas não pararam.

A estrutura dos órgãos não está à altura de um problema com a escala da Amazônia, segundo Alencar. “Uma vez que o fogo sai de controle, a capacidade brasileira de combatê-lo, num ano seco como este, acaba sendo limitada”, comentou. “As agências responsáveis carecem de recursos, de pessoas.”

FOTO: UESLEI MARCELINO/REUTERS – 11.AGO.2020

Em primeiro plano, homem com vestes de proteção em meio a cenário de chamas em floresta. Vários tocos de árvore são vistos

Brigadista tenta controlar fogo na floresta amazônica, no Amazonas

Agostinho disse que os órgãos não estão preparados para a mudança climática. Eventos extremos, como a atual seca na Amazônia, tendem a ficar mais frequentes e intensos no atual contexto. Apesar de ser um fenômeno natural, o próprio El Niño, associado à estiagem na região, está sendo intensificado pelo aquecimento global, segundo cientistas.

Para enfrentar a situação atual, o Ministério do Meio Ambiente afirmou que há crédito pré-aprovado pelo Fundo Amazônia de R$ 35 milhões para prevenção e combate a incêndios pelo corpo de bombeiros local, dependendo apenas da apresentação de projeto. Especialistas afirmam que há urgência em dar conta do problema. Para Alencar, seria também importante investir em prevenção.

“O ideal seria prevenir o fogo, para não chegar a um estágio em que o combate seja a única forma de reduzi-lo. Temos instituições muito bem posicionadas, bem treinadas pra fazer esse combate, mas infelizmente elas ainda carecem de pessoal e investimento pra que isso possa ter a escala que a Amazônia precisa”

Ane Alencar

diretora de ciência do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), em entrevista ao Nexo

Qual a relação com o desmatamento

O Inpe divulgou na quinta-feira (9) que o desmatamento na Amazônia diminuiu 22,3% entre agosto de 2022 e julho de 2023, em comparação ao mesmo período anterior. O dado foi revelado pelo Prodes, sistema de monitoramento do órgão por satélite. O resultado foi o primeiro desde 2018 em que a área desmatada na região ficou abaixo de 10 mil km².

9.001 km²

foi a área desmatada na Amazônia entre agosto de 2022 e julho de 2023

A queda do desmate no mesmo período de recorde de queimadas pode parecer uma contradição, já que fogo e devastação costumam estar relacionados. Há fatores, porém, que explicam a concomitância dos dois eventos. O primeiro é o tempo: a redução do desmatamento corresponde ao período até julho de 2023, enquanto os atuais incêndios são mais recentes.

Mesmo no primeiro semestre do ano, porém, havia focos de queimadas na Amazônia, enquanto o desmatamento começava a cair. O Nexo escreveu sobre o tema naquela época. Segundo Alencar, grande parte da área queimada neste ano — meses atrás e agora — de fato foi desmatada, mas o desmatamento ocorreu em 2022, não em 2023.

O fogo também pode ter sido causado pelo aumento de licenças para seu uso, nos casos em que ele é permitido. Em estados como o Mato Grosso, onde a presença da agropecuária é grande, as permissões para a atividade aumentaram, por exemplo. Reduzir o fogo permitido depende de medidas além da fiscalização, segundo a pesquisadora.

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