O que move a violência da extrema direita no Reino Unido
Marcelo Roubicek
07 de agosto de 2024(atualizado 08/08/2024 às 16h19)Protestos tomam ruas de cidades britânicas e geram onda de ataques xenofóbicos e islamofóbicos. Atos são incentivados por influenciadores nas redes sociais e têm participação de grupos extremistas
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Manifestantes de extrema direita atacam hotel em Rotherham, no Reino Unido
O Partido Trabalhista britânico, de centro-esquerda, teve no início de julho de 2024 uma vitória por larga margem nas urnas, voltando ao poder após 14 anos. Cerca de um mês depois, ruas de diversas cidades do Reino Unido foram tomadas por protestos xenofóbicos e islamofóbicos.
O episódio ilustra o avanço da extrema direita no país, mesmo sem grandes vitórias eleitorais. O movimento tem sido puxado sobretudo a partir de ambientes como as redes sociais.
Neste texto, o Nexo explica a onda de protestos violentos que tomou o país e como ele se insere no contexto da extrema direita britânica de 2024.
A onda de violência surgiu a partir de um episódio ocorrido em 29 de julho, em que um ataque a faca deixou três crianças mortas em Southport, no litoral da Inglaterra.
As autoridades apontaram como autor do crime um galês de 17 anos, filho de ruandeses. Ele foi preso e permanece detido. Inicialmente, a polícia não divulgou o nome do suspeito, que foi posteriormente revelado.
O caso foi rapidamente seguido da circulação de uma notícia falsa nas redes sociais dizendo que o autor do ataque era um imigrante muçulmano que buscava asilo como refugiado.
O governo britânico chegou a desmentir as informações falsas, mas isso não impediu influenciadores de extrema direita de convocarem atos de teor xenofóbico e islamofóbico, que tomaram as ruas de pelo menos doze cidades do país. A mobilização foi feita sobretudo por plataformas como X (antigo Twitter) e Telegram. Diversos registros dos protestos foram publicados no TikTok.
Manifestantes de extrema direita fazem protesto anti-imigração em frente a hotel em Rotherham, no Reino Unido
Além de conflitos violentos com a polícia, os manifestantes atacaram hotéis e outros estabelecimentos que abrigam refugiados. Mesquitas também foram alvos. Os extremistas também invadiram e danificaram bancos de alimentos e saquearam negócios em bairros muçulmanos.
Mais de 400 pessoas haviam sido presas até terça-feira (6). O poder público mobilizou 6.000 policiais para lidar com os atos da extrema direita.
Os protestos são alimentados pela disseminação de notícias falsas puxada por influencers integrantes de grupos de extrema direita, como mostrou o jornal americano The New York Times.
Também segundo o mesmo jornal, os protestos e atos de violência são formados por diferentes grupos.
Há, por um lado, cidadãos comuns que vão para as ruas, instigados pelo discurso de ódio que tomou parte das redes sociais. Mas há também grupos organizados que ajudaram a coordenar a inflamação dos ambientes virtuais e que marcaram presença nos protestos. Um exemplo são hooligans — torcedores de futebol associados à prática recorrente da violência.
Como mostrou o jornal britânico Financial Times, os protestos têm algo de descentralizado. Ou seja, não são puxados por um único grupo, mas sim por várias personalidades, sobretudo por meio das redes sociais. Ainda assim, é possível identificar a presença de integrantes de grupos extremistas.
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Isso inclui neonazistas do “Movimento Britânico” e membros do grupo fascista “Alternativa Patriótica”. Também há registro de bandeiras e símbolos da Liga de Defesa Inglesa (English Defence League, em inglês), principal núcleo extremista do país nas últimas décadas.
A Liga foi fundada em 2009, como um grupo de hooligans associados para organizar protestos contra a presença de muçulmanos em cidades inglesas. Ela promovia ideias xenófobas, anti-imigrantes e sobretudo islamofóbicas.
O grupo foi dissolvido na segunda metade da década de 2010 por causa de divisões internas, e deixou de existir oficialmente. Mas diversos de seus antigos membros marcaram presença nos protestos de 2024.
Marcha em apoio à Liga de Defesa Inglesa em Londres
Nos seus primeiros anos, a Liga de Defesa Inglesa foi liderada por Tommy Robinson — pseudônimo de Stephen Yaxley-Lennon, ex-integrante de grupos fascistas e ex-hooligan do Luton Town, equipe de futebol de uma cidade a 50 km do centro de Londres. Ele deixou o comando do grupo em 2013.
Desde o início dos protestos, Robinson postou no X diversas mensagens inflamatórias e racistas. Ele nega que os protestos de 2024 tenham relação com a Liga — apenas argumenta que são organizados por “moradores locais que estão cansados”.
Robinson tinha tido a conta suspensa no antigo Twitter em 2018 por “conduta odiosa”, mas teve a conta liberada em novembro de 2023, quando a rede social já havia passado para o comando de Elon Musk, defensor da “liberdade de expressão irrestrita”.
O bilionário, aliás, usou seu perfil no X para comentar sobre a onda de violência no Reino Unido. Em resposta a uma postagem que dizia que os protestos eram um efeito direto da “imigração em massa e das fronteiras abertas”, Musk afirmou que “uma guerra civil é inevitável. Um porta-voz do governo de Keir Starmer disse que o comentário do empresário foi “injustificável”.
A onda de violência de extrema direita ocorre cerca de um mês após a disputa eleitoral no Reino Unido. O trabalhista Keir Starmer foi eleito e pôs fim a 14 anos de domínio do Partido Conservador.
O partido de extrema direita Reform UK obteve apenas cinco das 650 cadeiras do Parlamento, mas recebeu 14,3% dos votos, melhor resultado eleitoral de sua história por larga margem. Os mais de 4 milhões de votos se converteram em poucos assentos parlamentares porque o modelo de eleições distritais favorece os partidos maiores em detrimento dos menores.
O principal nome do Reform UK é Nigel Farage. Assim como outros líderes da extrema direita (tradução usada pelo Nexo para o termo em inglês “far right”), ele ostenta um discurso fortemente anti-imigrante.
Nos dias seguintes ao ataque por facas em Southport, Farage disse nas redes sociais que não acreditava que todos os fatos sobre o autor haviam sido revelados pelas autoridades. Também disse não apoiar os ataques contra policiais, mas que o que está ocorrendo “pode ser nada perto do que poderá acontecer nas próximas semanas”. Adversários políticos disseram que ele estava legitimando os atos violentos.
Como mostrou a revista britânica The Economist, o Reform UK e os manifestantes xenófobos podem ambos ser enquadrados como extrema direita, mas pertencem a diferentes correntes dentro desse movimento mais amplo.
O Reform UK entra na classificação de direita radical (tradução de “radical right”), tida como a ala que, apesar de ter ideias radicais, se propõe a jogar o jogo democrático. Os manifestantes são vistos como integrantes da ultra direita (tradução de “extreme right”), corrente que utiliza da violência e de discursos antidemocráticos explícitos. Entenda melhor essas expressões neste texto do Nexo.
Tanto Farage como os grupos que estão nas ruas em agosto de 2024 rejeitam o rótulo de extremistas. Ao Financial Times, Paul Jackson, historiador da Universidade Northampton, disse que embora não haja ligação concreta entre esses atores, o discurso do líder da direita radical ecoa as bandeiras anti-imigrantes dos grupos extremistas e, por tabela, as legitima em espaços mais oficiais.
Starmer, que tomou posse em 5 de julho de 2024, enfrenta sua primeira crise no comando do Reino Unido.
O primeiro-ministro diz que irá punir com força e rigor aqueles envolvidos com os protestos violentos. Uma força-tarefa policial foi montada para compartilhar dados de inteligência sobre grupos violentos no Reino Unido.
Starmer também ampliou o tempo de funcionamento de órgãos de Justiça, para permitir o processamento mais rápido dos casos contra aqueles que foram presos nos atos. Até quarta-feira (7), cerca de 100 pessoas já haviam sido acusadas formalmente.
A aposta também pode passar por ordens de restrição de movimento de pessoas envolvidas com os atos violentos ou com grupos de hooligans, segundo o Financial Times.
Primeiro-ministro britânico Keir Starmer
O primeiro-ministro também disse que punirá não somente aqueles que foram às ruas, mas também aqueles que instigaram a violência pelas redes sociais.
Em pronunciamento em rede nacional, Starmer cobrou publicamente plataformas por terem permitido a disseminação de notícias falsas após o ataque em Southport. “Permita-me dizer às grandes empresas de redes sociais e aqueles que as gerem: desordem violenta, claramente provocada online, também é um crime, está acontecendo em suas instalações, e a lei deve ser mantida em todos os lugares”, disse Starmer.
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