No dia 22 de janeiro, Ursula K. Le Guin morreu em Portland, Oregon. Desde então, muito tem sido escrito em memória de seu trabalho desafiador de gêneros, suas contribuições para o feminismo e a ficção científica, seu amplo interesse na sociedade e governo humanos.
Mas, como antropólogo cultural, sempre tive interesse na relação entre a escritora e seu pai, o antropólogo Alfred Louis Kroeber.
As ideias de Kroeber – que teve uma influência profunda na escrita da filha – vieram de um importante desdobramento na disciplina da antropologia que via a cultura humana não como algo enraizado, mas como algo que tinha de ser ensinado e aprendido.
Cultura não é genética
O mentor de Kroeber foi um antropólogo da universidade de Columbia chamado Franz Boas. Kroeber foi atraído em especial pela nova noção de cultura desenvolvida por Boas e pela teoria mais ampla do “relativismo cultural”.
O relativismo cultural emergiu no fim do século 19 como alternativa a teorias como o darwinismo social, que ligavam cultura à evolução. Essas teorias – amplamente aceitas na época – tendiam a classificar as sociedades humanas em uma escala evolutiva. Previsivelmente, as civilizações europeias ocidentais eram vistas como o ápice da cultura.
Mas Boas propôs algo radicalmente diferente. Ele insistiu, baseado em pesquisas de campo, que humanos vivem em mundos culturais incrivelmente diversos moldados pela linguagem, que cria instituições, estéticas e ideias e noções de certo e errado. Ele defendeu também que cada sociedade precisa reproduzir sua cultura por meio do ensino e do aprendizado.
Kroeber descreveu a cultura como “super-orgânica”. De acordo com essa ideia, as “conquistas civilizacionais” de qualquer grupo de pessoas não eram transmitidas biologicamente e só poderiam ser ensinadas. Se formos privados de nosso acesso à instrução humana – livros, guias, professores – não saberemos como construir prédios, escrever poesia e compor música. Humanos, Kroeber sabia, são naturalmente criativos, mas simplesmente não existe algo como uma “memória hereditária” que permita a um povo saber como recriar coisas específicas intuitivamente.
Era comum no fim do século 19 que expansionistas justificassem suas ambições imperialistas com evidências “científicas” de que indígenas americanos eram culturalmente inferiores
Ele contou a hipotética história de uma bebê levada da França e trazida para a China. De acordo com Kroeber, ela iria crescer falando chinês e não saberia nada de francês. Seu argumento – por mais óbvio que pareça hoje – era de que não havia uma qualidade hereditária de “francesidade” que seria passada, geneticamente, para uma criança nascida de pais franceses.
A ideia de cultura como “super-orgânica” diz que as pessoas são formas de vida orgânicas, como formigas ou cachorros ou peixes, mas que a cultura é “adicionada” a elas, o que influencia seus comportamentos. Formigas e cachorros não precisam de cultura para reproduzir seus comportamentos: se criados longe da sua própria espécie, eles ainda farão as coisas para as quais são programados.
Virando as instituições do avesso
Kroeber, junto com muitos de seus companheiros antropólogos, foi atraído para essas ideias porque elas retratavam a cultura como universalmente humana, mas não universalmente classificável, racialmente pré-determinada ou inerentemente mais ou menos sofisticada.
Por exemplo, era comum no fim do século 19 que expansionistas justificassem suas ambições imperialistas com evidências “científicas” de que indígenas americanos eram culturalmente inferiores. Eles apontavam para a língua: indígenas, eles defendiam, não tinham palavras para descrever a passagem do tempo. Por essa razão, não conseguiam apreender um conceito complexo como a história.
Mas Kroeber e seus colegas argumentaram que os Hopi tinham uma maneira complexa de contar o tempo. Eles simplesmente não contavam coisas, como dias ou horas, usando a mesma terminologia que usariam para contar homens, pedras ou nuvens, que são objetos que você de fato vê. Para os Hopi, um dia de forma alguma se parece com uma pedra. Assim, não deveria ser tratado como tal.
Os colegas de Kroeber incluíam a antropóloga e folclorista afro-americana Zora Neale Hurston, o linguista e antropólogo judeu Edward Sapir e acadêmicas como Ruth Benedict e Margaret Mead. Todos lutaram contra o preconceito e a difamação cultural.
Em reação, Kroeber foi compelido a escrever que história, geografia e o ambiente influenciavam diferenças culturais. Nenhuma cultura simplesmente emergia naturalmente.
“Mecanismos sociais são tão tremendamente influentes em cada um de nós”, ele escreveu, “que seria muito difícil encontrar algum teste que revelasse com justiça o grau em que são inatos, se faculdades raciais distintas forem inatas.”
A única razão, de acordo com Kroeber, pela qual alguém iria insistir em diferenças inatas na população humana seria para preservar os poderes estabelecidos: sociedades erguidas sobre discriminação racial e colonialismo.
‘Mas o que fará eles pensarem?’
Durante sua infância em Berkeley, Califórnia, Ursula Le Guin foi exposta a essas ideias. Elas muito provavelmente formaram a base de sua visão de mundo.
Sua escrita nunca se limitou a criar um mundo mágico ou estranho. Tratava-se de fabricar um laboratório para brincar com identidades – raça, etnicidade, gênero, sexualidade ou classe – de uma maneira que forçava leitores a pensar sobre como o preconceito cultural influenciava suas visões a respeito de outras pessoas.
“Não há nada de errado em entretê-los”, ela disse ao repórter do New York Times John Wray, “mas o que fará eles pensarem?”
Em Le Guin, sempre chamou minha atenção que o sentido de seus universos imaginados era precisamente mostrar que nada humano era universal, e que o que era “estranho” era apenas uma questão de perspectiva.
Em “A mão esquerda da escuridão”, Le Guin lidou com a ideia de normas de gênero. Aqui, acho que ela estava incorporando o inovador estudo de Margaret Mead “Sexo e temperamento em três sociedades primitivas”, em que Mead conseguiu demonstrar que normas de gênero podem mudar significativamente através das culturas.
Em “Floresta é o nome do mundo”, Le Guin não apenas criou uma fábula ambientalista sobre a destruição da floresta e de suas pessoas. Ela construiu [a obra] em cima das percepções de acadêmicos indígenas como Vine Deloria Jr., que colocam as vozes e visões de mundo de pessoas indígenas no centro do movimento pelos seus direitos. Em “Os despossuídos”, ela contrasta os diferentes sistemas políticos de dois mundos vizinhos, não para discutir qual é o melhor necessariamente, mas para mostrar que a existência desses sistemas depende da participação ativa e reprodução deles por parte dos humanos.
Em 2015, eu preparei uma aula de antropologia em que esperava poder usar a ficção especulativa e a fantasia como maneira de entender conceitos básicos de antropologia cultural. A aula foi construída em cima de Kroeber e Le Guin.
Um amigo em comum deu o programa da aula para Le Guin e ela me escreveu. Sugeriu alguns outros trabalhos para inclusão e parecia compreender o conceito do curso.
“Eu acho que meu pai iria gostar”, ela escreveu, “que eu e ele acabamos no mesmo [programa]”.
Philip W. Scheré professor de antropologia e folclore da Universidade de Oregon
