
Capa do disco “Dark Side of the Moon”, do Pink Floyd, um marco do rock
Você alguma vez já colocou uma música para tocar enquanto estava sofrendo com uma emoção difícil, como tristeza, ansiedade ou raiva?
A maioria das pessoas acredita que a música tem algum poder terapêutico, e essa crença está crescendo apoiada em evidências empíricas . Há pouco consenso, no entanto, sobre por que ou como isso acontece.
Desde a Antiguidade, médicos e filósofos têm explorado o poder da música na vida humana. Os escritos de Platão e Aristóteles são os mais famosos, mas outra escola da filosofia antiga, o Estoicismo , cultivou um interesse no potencial terapêutico da música.
A palavra “ estoico ” é usada sobretudo para descrever pessoas rígidas, sem emoções. Por isso, as práticas musicais estoicas parecem condenadas ao tédio ou ao bizarro
Mas o Estoicismo — com “E” em letra maiúscula — é uma escola de pensamento que tem mais a ver com manejar emoções turbulentas no cotidiano. Isso lança uma outra luz sobre sua conexão com a música e ajuda a explicar como o Estoicismo moldou positivamente o curso da história intelectual e da música.
Controle o que você pode
Fundado na Atenas antiga e atingindo o pico da popularidade na Roma do século 1º d.c., o Estoicismo foi desenvolvido por filósofos como Sêneca , Epicteto e o imperador romano Marco Aurélio para manejar emoções destrutivas como ansiedade, raiva e tristeza, por meio de exercícios de mudança de perspectiva. A questão do controle é o cerne desse método. Os estoicos ensinavam que apenas reconhecendo e aceitando o que está além do seu controle, uma pessoa pode exercer o controle máximo sobre o que está sob seu alcance.
Essencialmente, a abordagem dos estóicos não busca a supressão direta de emoções ruins mas, ao invés disso, foca na reformulação da visão de mundo, para que, quando uma pessoa encontrar uma dificuldade ou um trauma, ela esteja preparada para experimentar as emoções de forma menos destrutiva.
Essa estratégia de colocar as coisas em perspectiva pode parecer familiar: os fundadores da terapia cognitiva comportamental, uma das mais populares formas de psicoterapia atualmente , a tomaram emprestado diretamente do Estoicismo.
Nos últimos anos — e especialmente desde o início da pandemia da covid-19 — o interesse pelo Estoicismo cresceu , com pessoas de de diferentes espectros políticos e sociais reconhecendo a eficácia desse sistema da Antiguidade para lidar com aflições como a ansiedade e o vício.
Em tempos turbulentos, o Neoestoicismo emerge
Então onde a música se encaixa em tudo isso?
Como musicologista histórica , eu fiz uma pesquisa extensiva sobre práticas musicais inspiradas pelo ressurgimento do Estoicismo na França do final do século 16 e 17, um movimento conhecido como Neoestoicismo.

O pintor Carstian Luyckx retrata lembretes do Neoestoicismo da efemeridade da vida: Pinturas de crânios, conchas, composições musicais e uma ampulheta.
Emergindo no despertar das violentas guerras religiosas na França , os neoestoicos olharam para o Estoicismo como um remédio para a instabilidade social e política. Eles desenvolveram um repertório musical cantado para ensinar os princípios do sistema, guiando cantores e ouvintes a “ensaiar” as técnicas estoicas de regulação das emoções em encontros informais nas casas das pessoas.
As músicas ilustravam os princípios estoicos por meio de “ pinturas textuais ” musicais, nas quais cada palavra, ação ou conceito eram transmitidos musicalmente por meio de sons — e, às vezes, imagens — nas partituras.
Tome como exemplo de 1582 – “L’eau va viste”, um poema de Antoine de Chandieu que foi transformado em música por Pascoal de L’Estocart [abaixo, em tradução livre].
Ainda mais rápido, a flecha voadora
E ainda mais rápido passa,
O vento que persegue as nuvens,
Mas de felicidade mundana,
Seu curso é tão repentino,
Que passa até antes,
A água, a flecha e o vento.
Numerosos textos estoicos, como “ Na brevidade da vida ”, de Sêneca, evocam a imagem de águas correntes para alertar contra o perigo de colocar a felicidade em pontos externos de conforto e segurança que, como uma correnteza, passam rapidamente.
A composição musical de L’Estorcart para o poema “ L’eau va viste ” se concentra nessa qualidade da emoção. O ritmo com efeito de bola de neve ganha força a cada novo exemplo de duração passageira.
The river of time
Quase quatro séculos adiante, a banda de rock inglês Pink Floyd compõe uma reflexão musical similar com a icônica música “Time”, do álbum “ Dark Side Of The Moon ” de 1973.
O álbum percorre todas as principais forças e preocupações que podem enlouquecer uma pessoa: envelhecimento, morte, medo, lamento e violência.
Saúde mental tem uma importância especial para a banda. Seu vocalista fundador, Syd Barrett, teve um surto mental apenas alguns anos antes do lançamento do Dark Side Of The Moon. De acordo com Roger Waters, do Pink Floyd, o álbum é sobre “vida com uma batida de coração” e a banda sinaliza isso abrindo e fechando o álbum com a simulação de um lento batimento cardíaco que, de alguma forma, soa, ao mesmo tempo, mecânico e profundamente humano
A abertura de ‘Dark Side of the Moon’ tem o bater de um coração
Desenvolvendo esse simbolismo rítmico adiante, a música “ Time ” usa numerosas estratégias musicais para chamar atenção para a fragilidade da vida humana.
A melodia abre com uma sinuosa introdução instrumental de dois minutos e meio, construindo-se lentamente do respiro de um drone sintetizador para o som desorientante de vários relógios. Em seguida, há uma cacofonia de alarmes antes dos ouvintes escutarem o clique de um baixo mecânico que soa como um metrônomo ou uma batida cardíaca de uma máquina.
Em ‘Time’, o caos inicial dos sons acaba se tornando um groove
A entrada da guitarra elétrica e o crescimento regular de frases musicais finalmente se estabelece com a chegada dos vocais no primeiro verso : “Ticking away the moments that make up a dull day / fritter and waste the hours in an off-hand way.” [em tradução livre, “Marcando os momentos que fazem um dia monótono / dissipando e desperdiçando as horas de forma improvisada].
Essa incomum e extensa introdução musical desestabiliza a expectativa do ouvinte sobre o tempo da música e demanda maior atenção para a sensação da passagem de cada momento. A letra complementa a música e reforça seu aviso musical inicial — que os ouvintes precisam prestar atenção na fluidez do tempo e ter certeza que ele está sendo usado com propósito e significado.
“The time is gone. The song is over” (O tempo se foi. A música acabou”), a letra conclui, ““Thought I’d something more to say.” (Pensei que eu tinha algo mais a dizer).
Um armazenamento interno de poder
Esses dois exemplos musicais, compostos com uma distância de quase 400 anos, modela o elemento principal da terapia estoica: ao meditar sobre a fragilidade do tempo, os estoicos não desejam incutir medo, mas revelar a morte e a efemeridade como aspectos naturais da experiência humana que podem ser enfrentados sem ansiedade. Essa calma aceitação oferece uma libertação das emoções destrutivas como o medo e a ânsia, que direciona nossas atenções para o futuro e para o passado. Como Marco Aurélio recomendou : “Dê a si mesmo um presente — o momento presente”
Estoicismo e seus abundantes ecos artísticos são facilmente mal lidos como pessimismo por causa do foco persistente na mortalidade humana e na fragilidade. Essa leitura negativa perde a mensagem profundamente otimista e empoderadora do Estoicismo, que é a de que a nossa liberdade mental permanece sob nosso controle, independentemente das circunstâncias externas.
Waters destaca exatamente esse ponto em sua defesa do humanismo de “Dark Side of the Moon”, explicando que “Apesar do final bastante deprimente… há uma permissão que todas as coisas são possíveis, que o potencial está em nossas mãos”.
A música, nessa perspectiva, oferece um caminho para aprender sobre o método terapêutico dos estoicos de uma forma que vai além da contemplação de textos filosóficos. Esses exemplos — e muitos outros na tradição estoica que de forma tão cuidadosa uniu palavras e sons — transformam úteis conselhos estoicos em uma prática terapêutica guiada pelas voltas e reviravoltas da música.
Melinda Latour é professora-assistente de musicologia na Tufts University