Extra

Bolsonaro volta a atacar urnas em reunião com embaixadores

Da Redação

18 de julho de 2022(atualizado 28/12/2023 às 22h36)

Presidente repete teorias da conspiração, critica ministros do STF e do TSE e distorce informações de um inquérito sobre as eleições de 2018. Fachin reage e diz que ‘é hora de dizer basta à desinformação’

O Nexo depende de você para financiar seu trabalho e seguir produzindo um jornalismo de qualidade, no qual se pode confiar.Conheça nossos planos de assinatura.Junte-se ao Nexo! Seu apoio é fundamental.

FOTO: ADRIANO MACHADO/REUTERS – 18.JUN.2022

Bolsonaro, um homem branco e de meia-idade, está de frente para a câmera, falando. Ele usa terno e gravata.

Jair Bolsonaro em dia de reunião com embaixadores estrangeiros em Brasília

Jair Bolsonaro voltou a atacar sem provas as urnas eletrônicas em uma reunião com cerca de 40 embaixadores de países estrangeiros nesta segunda-feira (18) no Palácio da Alvorada, em Brasília. O presidente apresentou um inquérito de 2018 da Polícia Federal sobre um ataque ao sistema de informações do Tribunal Superior Eleitoral e distorceu suas informações para contestar a legitimidade do processo eleitoral brasileiro.

“Segundo o inquérito, os hackers ficaram oito meses nos computadores do TSE e, ao longo do inquérito, houve a conclusão de que eles poderiam alterar nome de candidatos, tirar fotos, transferir uma informação para outro. O próprio Tribunal Superior Eleitoral concluiu que há várias maneiras de se alterar o processo de votação. […] [Houve] Alteração de dados sobre partidos e candidatos e até mesmo a exclusão de seus nomes no contexto do processo eleitoral. Ou seja, esse grupo de invasores pode até mesmo excluir nomes”

Jair Bolsonaro

presidente da República, em reunião com embaixadores estrangeiros nesta segunda-feira (18)

Esse foi o mesmo documento apresentado por Bolsonaro em uma live com insinuações golpistas de julho de 2021.O Tribunal Superior Eleitoral já havia desmentido o discurso naquela época. “O acesso indevido [ao sistema do TSE], objeto de investigação [da PF], não representou qualquer risco à integridade das eleições de 2018. Isso porque o código-fonte dos programas utilizados passa por sucessivas verificações e testes, aptos a identificar qualquer alteração ou manipulação. Nada de anormal ocorreu”, afirmou o órgão responsável por validar o resultado das eleições.

Bolsonaro também criticou os ministros do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin, que hoje também é presidente do TSE; Alexandre de Moraes, que vai assumir o comando do órgão em agosto; e Luís Roberto Barroso, sugerindo que eles adotam medidas contrário à transparência do processo eleitoral para favorecer seu principal adversário no pleito de 2022, o ex-presidente petista Luiz Inácio Lula da Silva, que lidera as pesquisas de intenção de votos.

Apesar dos ataques às instituições democráticas, Bolsonaro negou que tenha intenções golpistas.O senhor Barroso, também como o senhor Fachin, começaram a andar pelo mundo me criticando, como se eu estivesse preparando um golpe por ocasião das eleições. É o contrário o que está acontecendo.O presidente tem incentivado as Forças Armadas a colocar o sistema eleitoral em xeque. Os militares, por sua vez, vêm pressionando o TSE por meio da Comissão de Transparência das Eleições, criada em 2021 pela Justiça Eleitoral para ampliar a fiscalização do processo eleitoral.

Os presidentes do Supremo e do TSE, ministros Luiz Fux e Edson Fachin, respectivamente, recusaram o convite do governo para participar da reunião.A Secretaria de Comunicação do Planalto permitiu apenas que os veículos de imprensa que se comprometessem a transmitir o encontro desta segunda (18) na íntegra enviassem jornalistas para fazer a cobertura do evento. Apenas Bolsonaro falou durante a reunião.

Fachin reagiu às declarações de Bolsonaro. Em evento da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) Paraná nesta segunda (18), o ministro reafirmou a integridade do sistema eleitoral e disse, sem citar o presidente, que o debate político atual “tem sido achatado por narrativas nocivas que tensionam o espaço social”. Para ele, háum inaceitável negacionismo eleitoral por parte de uma personalidade importante dentro de um país democrático. “É hora de dizer basta à desinformação”, acrescentou.

O presidente do Congresso Nacional, senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), disse em nota à imprensa que a segurança das urnas eletrônicas e a lisura das eleições no Brasil “ não podem mais ser colocadas em dúvida”. Para ele, os questionamentos ao sistema eleitoral são “ruins para o Brasil sob todos os aspectos”.

“É uma pena que o Brasil não tenha um presidente que chame 50 embaixadores para falar sobre algo que interesse ao país. Emprego, desenvolvimento ou combate à fome, por exemplo. Ao invés disso, conta mentiras contra nossa democracia”, escreveu o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nesta segunda (18) no Twitter. Outros presidenciáveis, como Ciro Gomes (PDT), Simone Tebet (MDB), André Janones (Avante) e Felipe D’Avila (Novo), também criticaram as declarações de Bolsonaro.

A reunião com os embaixadores também repercutiu na imprensa. Em entrevista à rádio CBN, o desembargador e professor Wálter Maierovitch afirmou que o presidente cometeu crime de lesa-pátria nesta segunda (18). “Convocar representantes de outros países para colocar em dúvida um futuro resultado eleitoral significa um ato indigno, temerário. Foi como avisar ao mundo, por seus embaixadores, que o Brasil não é sério. Com isso, ele evidentemente atentou à boa imagem da nação.”

Segundo informações de bastidores da coluna Painel, do jornal Folha de S.Paulo, diplomatas brasileiros de carreira concordam que a reunião desta segunda (18) ajuda a desgastar a imagem do país. Para eles, o Itamaraty terá que se esforçar para reafirmar para o mundo a segurança do sistema eleitoral brasileiro e o compromisso de Bolsonaro com a democracia.

Continue no tema

NEWSLETTER GRATUITA

Nexo | Hoje

Enviada à noite de segunda a sexta-feira com os fatos mais importantes do dia

Este site é protegido por reCAPTCHA e a Política de Privacidade e os Termos de Serviço Google se aplicam.

Gráficos

nos eixos

O melhor em dados e gráficos selecionados por nosso time de infografia para você

Este site é protegido por reCAPTCHA e a Política de Privacidade e os Termos de Serviço Google se aplicam.

Navegue por temas