Viver um dia por vez: jejum pentecostal e espera cristã em um contexto de insegurança alimentar
Autoria
Réia Sílvia Gonçalves Pereira e Wania Mesquista (co-autora)
LattesÁrea e sub-área
Antropologia urbana, Antropologia da Religião
Publicado em
Religião & Sociedade em 14/09/2022
Como participar?
Este paper publicado na revista Religião & Sociedade resume um estudo etnográfico feito com fiéis pentecostais de uma comunidade do interior do Rio de Janeiro. Na pesquisa, buscou-se compreender porque pessoas em situação de insegurança alimentar e fome praticam o jejum. Para isso, foram levantados os aspectos religiosos e culturais ligados a essa prática e ao seu contexto social.
A pesquisa conclui que os fiéis encaram o jejum como uma estratégia para o alcance da segurança alimentar a longo prazo. Um raciocínio que está pautado sob a crença que a abstenção alimentar é uma forma de sacrifício para a conquista de bençãos. O artigo analisa essa fundamentação teológica, explicando como ela se relaciona à vida na periferia e influencia comportamentos. A publicação traz trechos dos relatos coletados e foi construída com o envolvimento das pessoas pesquisadas.
Por que pentecostais em situação de insegurança alimentar fazem jejum?
O tema é importante porque busca compreender como religiosos pentecostais convivem com a insegurança alimentar, principalmente em um período de agravamento da fome no Brasil.
No texto, analisamos a prática do jejum pentecostal de uma moradora e de seus vizinhos de uma comunidade localizada no Norte do Rio de Janeiro, que apresenta elevado índice de insegurança alimentar. Argumentamos, com base nos dados pesquisados, que a privação voluntária de alimentação evocada por pentecostais como interseção com o divino alude a uma possibilidade de aspiração dos pobres em um contexto no qual o sobrenatural conforma as texturas, a temporalidade e a espacialidade. Assim, ao renunciarem à alimentação possível em nome do divino, os crentes buscam a segurança alimentar futura. Tal postulado não é uma contradição, mas uma possibilidade que remete ao sentido de ação e de “espera” pela providência.
Se a insegurança alimentar se refere à incerteza pela providência do pão de cada dia, o jejum praticado por pentecostais que convivem com a privação de acesso aos alimentos guarda uma promessa de futuro ante ao imediato da fome. A renúncia ofertada a Deus na igreja comporta em si um propósito. É espera e, ao mesmo tempo, ação e desejo. Nessa relação com o divino, aquele que jejua não o faz sem o anseio da reciprocidade.
Pesquisadores das áreas de sociologia e antropologia, gestores públicos, integrantes de organizações governamentais e não-governamentais.
Réia Sílvia Gonçalves Pereira é pós-doutora pelo programa de pós-graduação em sociologia política da UENF (Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro), doutora em ciências sociais pela UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) e pesquisadora do laboratório de africanidades transatlânticas: cultura, história e memórias afro-brasileiras.
Wania Mesquita é professora e coordenadora do programa de pós-graduação em sociologia política da UENF (Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro) e doutora em Sociologia pelo IUPERJ (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro).
Referências
- DAS, Veena. (2020a), Vida e palavras: a violência e sua descida ao ordinário. São Paulo: Editora Unifesp.
- DAS, Veena. (2020b), Textures of the Ordinary: Doing Anthropology after Wittgenstein. New York:Fordham University Press.
- REINHARDT, Bruno. (2017), “Temporalidade, ética e contingência na pós-colônia africana: esperando por Deus em Gana”. Ilha Revista de Antropologia, vol. 19, n 175-212.
- MAFRA, Clara. (2012), Como o Espírito Santo educa a atenção. Cultura, percepção e ambiente: diálogos com Tim Ingold. São Paulo: Terceiro Nome.
- ROBBINS, Joel. (2011), “Transcendência e Antropologia do Cristianismo: linguagem, mudança e individualismo”. Religião & Sociedade, vol. 31, nº 1: 11-31″