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Das coisas que me trazem mais felicidade em Sampa é pegar uma tela no fim da tarde. Entrar numa sala escura de dia e voltar pra rua com a noite já rondando a cidade é pura magia pra mim. Nesse meio tempo, a bruxuleante luz da projeção sobre a tela branca opera a substituição da nossa realidadezinha de cada dia por outra que pode ser bem distante dela no contexto histórico e na geografia física e humana, quando não é absolutamente fantástica, futurista e delirante. Ou pesadelesca, como num bom filme de terror, caso de “A bruxa,” filmaço de terror cult em cartaz em São Paulo que eu indico de olhos bem abertos tanto aos admiradores do gênero quanto aos que costumam lhe virar as costas.
Fui ver “A bruxa”, deslumbrante primeiro filme do jovem diretor americano Robert Eggers, bem no Dia Internacional da Mulher, por mero acaso, se é que as forças mais sombrias do inconsciente coletivo não agiram ali para provocar a coincidência. Desgraçadamente, eu tinha lido naquele mesmo dia uma crítica de jornal em que o luminar que a assinava houve por bem entregar o principal segredo da trama, do tipo “whodunnit”, o que é uma vasta sacanagem. Ok, o próprio título do filme sugere que a pessoa endemoniada deve ser uma mulher, embora não necessariamente, como até o espectador pode muito bem especular até quase o fim da história. De qualquer forma, há pelo menos 3 mulheres no elenco candidatas ao posto. Então, cala-te boca.
Se você ainda não viu “A bruxa”, fique sussa. Eu não vou revelar quem é a/o personagem do filme imbuída/o da malignidade diabólica responsável pela sucessão de infortúnios que assola uma família de imigrantes puritanos ingleses por volta de 1630, na Nova Inglaterra, a ponta extrema do nordeste americano dividida num punhado de pequenos mas importantes estados. William, o patriarca dessa família, vivido pelo inglês Ralph Ineson, é um puritano tão extremado que consegue ser expulso da pequena comunidade de puritanos um pouco mais tolerantes que se estabeleceu na região. Como ele, são todos colonos britânicos fugidos das ferozes perseguições religiosas promovidas pela Igreja Anglicana, liderada pelo rei em pessoa à época.
Os puritanos se dividiam, grosso modo, em dois grupos bem distintos. De um lado, os que acreditavam ser a alma humana um poço de imundices e abominações que condenam o ser humano a uma vida essencialmente pecaminosa e à danação eterna depois da morte. A ideia do pecado original é a pedra de toque dessa visão. Se somos frutos desse pecado, ou seja, do sexo, estamos desde logo, com o perdão da má palavra, fodidos. As únicas exceções são os “eleitos,” sempre homens, escolhidos por Deus para dar à humanidade o testemunho da luz divina, através da rigorosa leitura ao pé da letra das sagradas escrituras. Aliás, uma das maneiras de se descobrir se um cara é um dos eleitos é olhar seu saldo bancário. Os eleitos se encontram sempre entre os homens mais prósperos da comunidade, o que diz muito sobre a natureza do capitalismo de extração anglo-americana. Só a grana salva. Aleluia.
Do lado oposto do espectro puritano estão os chamados quakers. Esses acreditam que todo mundo carrega a centelha divina que permite levar uma vida simples e pura, com absoluta igualdade entre os sexos, olhando sempre com benevolência para o próximo. Mister God está ao alcance de todos os viventes, homens e mulheres, ricos e pobres, brancos, negros, asiáticos e índios, e mais everybody. Se seguirmos o bom caminho, Ele nos dará ouvidos. Os puritanos quakers tinham, pois, uma visão muito mais benigna da humanidade, o que os levou, por exemplo, a se posicionar contra a escravidão e o extermínio dos índios nos Estados Unidos.
Reinaldo Moraesestreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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