Coluna

Denis R. Burgierman

Enquanto houver privilégios, haverá corrupção

20 de janeiro de 2017

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Aqui no Brasil, falamos muito sobre corrupção, mas pouco sobre privilégios. O problema é que nunca haverá uma solução para aquela enquanto não nos livrarmos destes

O Brasil é o país do privilégio. Exemplo: bem poucas nações do mundo dão a seus governantes tantas benesses – verbas para viajar e comprar roupa, palácios, motorista, secretária, telefone com a conta liberada, passagens aéreas à vontade, um séquito de assessores, dispensa de filas, almoço (e jantar) grátis, regras especiais de aposentadoria, impunibilidade, tratamento grátis de saúde. O topo do “serviço” público deste país é uma casta, que claramente pode mais do que os outros – e acaba acreditando que merece mais também.

Um deputado ou senador aqui no Brasil, assim que se elege, deixa de se preocupar com os assuntos comezinhos da vida: o preço das coisas, por exemplo. Afinal, praticamente tudo é grátis para ele. Cabe a mim e a você, por meio do Estado, pagar cada conta de restaurante dele e de seus convidados. Também cada tanque enchido no carro, cada passagem aérea para si e para a família, cada consulta médica – geralmente sem qualquer controle, bastando a ele apresentar uma nota fiscal, de qualquer temperatura. Ele ganha de presente de todos nós um time de até 25 funcionários trabalhando ao seu bel prazer, além de direito a um apartamento luxuoso, carro oficial com motorista e até uma gorda verba para fazer propaganda de si mesmo, garantindo assim a próxima eleição. Ao fim de um único mandato, um senador pode até se aposentar.

Juízes, quando fazem algo muito errado, em geral recebem sabe o que como “punição”? Férias! São afastados dos tribunais, mas continuam recebendo salário. Se for algo muito errado mesmo, a lei até admite que venham a ser presos, mas numa cela bem diferente da de um brasileiro “comum”, mais parecida com um quarto de hotel.

Tudo isso num país onde a grande maioria não tem nem a sorte de contar com a proteção da lei.

O problema disso é que privilégio é o pai da corrupção. Num país onde há uma percepção generalizada de injustiça – de que uns podem mais do que outros – é praticamente inevitável que todo mundo acabe se recusando a seguir as regras. Quem diz isso não sou eu: são as pesquisas mais recentes da neurociência e do comportamento humano. Os cientistas revelaram que seres humanos são “cooperadores condicionais” e “punidores altruísticos” . Em outras palavras: seres sociais que somos, fomos capacitados pela evolução para agir pelo bem comum, mas apenas quando temos a sensação de que o sistema é justo. Quando há uma percepção generalizada de injustiça, de que uns estão se dando melhor que outros, tendemos a punir os outros, mesmo que nós mesmos não levemos vantagem nisso. Aposto com você, por exemplo, que em meio à essa fedida crise política e à terrível baixa de credibilidade do governo, a sonegação está aumentando, o que tende a piorar a já terrível crise econômica.

Denis R. Burgiermané jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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