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Yasmin Thayná
Eloisa quer saber como faz para ser uma mulher negra forte sem precisar ser o tempo todo
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Eu também não sei. Quem lê o título deste texto e não está por dentro da discussão sobre mulheres negras, vai pensar que ele está mal escrito. Mas é que essa oração tem uma carga forte de simbolismo. Se existisse um dicionário de sinônimos próprio de mulheres negras, ser “mulher negra” e “ter que ser forte o tempo todo” seriam a mesma coisa. Uma das primeiras coisas que nós, mulheres negras, aprendemos desde cedo é que não podemos fraquejar, que ser forte é parte essencial do que a gente precisa ser a vida inteira. Não importa o que aconteça. Não importa a nossa situação emocional. Levanta, anda e engole o choro.
Um dos exemplos das consequências dessa “obrigatoriedade” da mulher negra ter que ser forte o tempo todo, é a pesquisa feita por Maria do Carmo Leal, Silvana Granado Nogueira da Gama e Cynthia Braga da Cunha, da Escola de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz. No estudo, elas descobriram que mulheres negras recebem menos anestesia do que mulheres brancas no parto.
Por trás desse mito de que a mulher negra é guerreira, está a desumanização a que essas mulheres são submetidas, quando nem mesmo o direito de chorar é visto como possibilidade.
E foi com lágrimas nos olhos que no sábado passado, 14 de janeiro, a jovem menina Eloisa se aproximou de mim, após uma fala que fiz no evento “Favela On”, realizado pela Central Única das Favelas (a Cufa), em Madureira, zona norte do Rio de Janeiro. Ela estava bastante emocionada em ter visto dois jovens negros, eu e Diego Cerqueira, meu companheiro de trabalho no ITS Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro), naquele palco falando sobre como nós, jovens negros, podemos usar a tecnologia para ajudar a transformar esse mundão de minha deusa num lugar melhor para se viver.
Ela disse que se sentiu mais forte depois que ouviu jovens negros, como ela, falando com tanta força e vontade de mudar o que se alcança, sem muita pretensão de fazer uma enorme revolução.
Yasmin Thaynáé cineasta, diretora e fundadora da Afroflix, curadora da Flupp (Festa Literária das Periferias) e pesquisadora de audiovisual no ITS-Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro). Dirigiu, nos últimos meses, “Kbela, o filme”, uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra, “Batalhas”, sobre a primeira vez que teve um espetáculo de funk no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a série Afrotranscendence. Para segui-la no Twitter: @yasmin_thayna
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