Coluna

Denis R. Burgierman

A guerra dos gêneros

26 de janeiro de 2017

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O desencontro entre homens e mulheres está por trás de quase todas as grandes disputas políticas do mundo

Nasci numa família urbana, moderna e até que bastante matriarcal. Ainda assim, na casa dos meus pais, depois do jantar, minha irmã levantava para ajudar a tirar a mesa, enquanto meu irmão e eu seguíamos sentados, conversando. Até onde eu me lembre, essa divisão nunca foi afirmada explicitamente lá em casa. Eu a sentia meio como se fosse a ordem natural das coisas. É assim que é porque é assim que sempre foi. E assim sempre vai ser, parecia.

Só que não, pelo jeito. Na última década – e com muito mais intensidade nos últimos dois ou três anos – uma nova onda feminista, liderada por mulheres jovens que lentamente vão ascendendo a posições de mais poder, tem feito questão de escancarar o debate sobre os privilégios de gênero e a necessidade de romper com eles. Com todos eles.

Não tem sido fácil para mim, tenho que confessar. De vez em vez, sinto-me acuado, obrigado a rever meus valores. Coisas que sempre me pareceram naturais de repente transformam-se em muito erradas. Isso me força a vigiar meus atos e minha linguagem e, muitas vezes, a me calar, para evitar falar bobagem. De tempos em tempos, esse pisar em ovos me deixa frustrado.

Aí tento imaginar essa onda batendo em cada casa de cada cidade de cada país do mundo inteiro. Por um lado, é maravilhoso o que está acontecendo: imagine quantos bilhões de pessoas que se sentiam oprimidas pela velha ordem estão encontrando força para se impor e para exigir tratamento melhor. Mas bilhões de famílias de todos os países do mundo estão tendo suas relações de poder ancestrais questionadas por essa nova atitude. Quanta frustração não deve estar fermentando com esse questionamento de uma das coisas mais básicas da vida humana – a relação entre homem e mulher.

Com toda certeza há pelo mundo muito homem cansado de levar bronca em casa – homem, você sabe, detesta levar bronca. Mas tendo a achar que a frustração não é só dos homens. Tem também muita mulher frustrada com esse súbito questionamento de um pilar tão básico da nossa civilização. Nas festinhas da minha geração (tenho 43 anos), vejo mulheres cochichando (para as filhas não ouvirem) sua surpresa com a denúncia de uma opressão que elas já tinham se acostumado a supor que não sofriam.

Denis R. Burgiermané jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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