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Nos últimos dias, tenho ouvido histórias assustadoras. Não me refiro a notícias verídicas e temerosas, como os números cada vez mais elevados de covid-19 no mundo, ou o fato de termos um presidente que ignora recomendações sanitárias e pessoalmente cumprimenta centenas de pessoas após ter contato direto com indivíduos infectados pelo novo coronavírus. Me refiro a histórias menores, do nosso cotidiano e redes mais próximas: um vizinho que recomenda pingar azeite com cúrcuma no nariz para prevenir infecção; um “químico autodidata” disseminando por vídeo em redes sociais questionamentos sobre a eficácia do álcool gel e sugerindo substituir por vinagre; parentes de um amigo considerando tomar Creolina oralmente para aumentar a resistência a infecções. Vejo uma proliferação dessas informações completamente falsas e perigosas, presentes em número enorme. O resultado é que estamos sobrecarregando nossas mídias e a nossa atenção pessoal, gerando confusão e contribuindo para propagar o pânico durante uma pandemia. Precisamos do oposto. Precisamos de calma, foco em verdadeiras soluções e apoio para quem está nas linhas de frente.
Há poucas semanas, seria inconcebível recomendar fechar o comércio e manter crianças fisicamente afastadas de seus avós, mas estamos hoje vivendo a realidade em que essas são recomendações verdadeiras, baseadas em fatos. Como, perante mudanças sociais tão rápidas e impactantes, podemos separar o que é notícia falsa do que é verdade? Como saber o que devemos ou não devemos fazer? Pra complicar, as duas perguntas são distintas: há tanto notícias falsas circulando quanto notícias que não são falsas, mas que são opiniões individuais, baseadas em dados ainda preliminares, que apontam em direções que não devemos seguir como sociedade sem maior comprovação.
Notícias falsas podem ser desmentidas com certa facilidade, embora possam se proliferar muito rapidamente. Já opiniões pessoais e recomendações precipitadas têm a tendência de serem mais difíceis de discernir. Exemplifico: na semana passada foi amplamente difundido o resultado de um pequeno estudo clínico sugerindo um possível tratamento medicamentoso para a covid-19. Embora seja um trabalho científico real e publicado, é um estudo extremamente preliminar e nada conclusivo . No entanto, levou a uma corrida para farmácias no Brasil, esgotando um medicamento importante para pessoas com doenças crônicas como lúpus e artrite reumatoide, e promovendo risco de intoxicações em pessoas saudáveis. Em uma doença nova, não podemos aplicar tratamentos tão precipitadamente. Há no momento dezenas de tratamentos diferentes para covid-19 sendo testados, cada um com características diferentes, e todos ainda preliminares, pois testes clínicos demandam tempo. O fato deste tratamento específico ter ganhado atenção das redes sociais não o faz ser menos preliminar, nem mais eficaz.
A verdade é que cientistas e agentes de saúde são como a população geral. Alguns são muito bons no que fazem. Outros são muito ruins. A maioria, provavelmente, é bem intencionada e competente, mas difere entre si em opiniões individuais. A única maneira de sabermos com agir como população dentro dessa realidade é não escutar os indivíduos, mas dar ouvidos e suporte às instituições. Associações da área médica, sociedades científicas e agências governamentais são responsáveis por reunir, avaliar a qualidade, filtrar, discutir e destrinchar informações, provendo a sociedade com a melhor indicação de como agir a cada momento. Isso é válido sempre, e especialmente essencial em tempos excepcionais como o atual. A visão conjunta de instituições, que congregam os melhores especialistas e divulgam suas ideias consensuais, é a melhor e mais atualizada visão que temos.
Conclamo a todos, portanto, que nos próximos dias não repassem áudios, gráficos ou textos de redes sociais. Em vez disso, entrem nos endereços eletrônicos das secretarias locais e Ministério da Saúde , e se atentem às suas informações, ou escutem os boletins informativos destas agências na imprensa. Nossas instituições têm se mobilizado de forma bastante ativa diante da situação. Além de boletins diários das agências governamentais de saúde, institutos de pesquisa têm trabalhado em diferentes aspectos científicos relacionados à pandemia, foram lançados editais para projetos de cientistas e empresas que possam ajudar a conter o avanço da doença, sociedades profissionais e científicas têm orientado seus membros e a população geral por meio de suas páginas, e foram organizados mecanismos para rapidamente ampliar a capacidade de testar e tratar a doença. Nenhum país do mundo está completamente preparado para uma situação tão pouco usual como essa, mas em todos eles as instituições congregam as melhores ações possíveis para o momento. Precisamos lhes dar os ouvidos e diminuir o ruído gerado por qualquer outra fonte de informação.
Alicia Kowaltowskié médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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