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Vivemos dias difíceis. A tristeza de acompanhar a realidade de milhares de brasileiros mortos por uma infecção viral é multiplicada pelas atitudes egocêntricas, inconsequentes e alucinadas de um presidente que não possui humanidade suficiente para lamentar essa perda de vidas. Nessa situação, a única atitude responsável e altruísta que podemos ter como indivíduos é contribuir com o isolamento físico que previne o espalhamento do novo coronavírus, ficando em casa sempre que possível e por quanto tempo for preciso. E enquanto ficamos em casa pelo bem maior da população, podemos buscar atividades que tragam consolo pessoal e a certeza de que dias melhores virão, em que se valorize mais o senso de coletividade, a educação, a saúde, a ciência e a cultura.
Sem dúvidas, uma das atividades que nos trazem mais alento em qualquer situação é comer. Somos evolutivamente, neurologicamente e hormonalmente programados para gostar de comida, e para comer mais do que necessariamente precisamos . Comer nos traz sustento, num sentido muito mais amplo que somente nutricional. Soma-se a isso o fato de que em casa estamos sempre próximos da cozinha e da comida, e chega-se à realização, entre muitos de nós, de que esse período está levando a um acúmulo indesejado de quilos a mais. De fato, dentre os vários mecanismos que controlam nossa fome e saciedade , sabemos que ver comida, ou ter comida próximo fora do horário das refeições aumenta a sensação de fome e o total de calorias ingeridas. Nesse sentido, atitudes simples como não trazer comida para a mesa onde se trabalha, manter horários fixos para refeições e criar mecanismos que dificultam o acesso à comida ou aumentam nossa percepção de que estamos acessando-a — como colar recados ameaçadores na porta da geladeira ou comer usando pratos menores — ajudam a controlar o excesso de fome nessa época.
Mas se a pandemia traz a desvantagem da facilidade de acesso à comida, há nela uma vantagem nutricional significativa, que precisa ser destacada: o fato de nos estimular fortemente a cozinhar e comer refeições feitas em casa. É cientificamente comprovado que saber cozinhar e preparar refeições caseiras melhora a qualidade nutricional da alimentação e diminui o total de calorias ingeridas. A boa notícia é que cozinhar não é somente uma atividade reconfortante, mas tem benefícios tangíveis para a saúde.
O benefício de se cozinhar é em grande parte relacionado ao fato de que a comida feita em casa a partir de ingredientes frescos possui valor nutricional maior que alimentos processados ou ultraprocessados. Isso não tem nada a ver com o fato de alimentos processados serem industrializados, enquanto ingredientes frescos são naturais — não há nada sobre uma molécula natural que a faz mais ou menos perigosa para a saúde que produtos gerados pelo homem. O problema nutricional de produtos processados é que esses tipicamente contêm altas quantidades de gorduras e açúcares, moléculas perfeitamente naturais que, em excesso, contribuem para o desenvolvimento de obesidade e doenças associadas a ela.
Os alimentos processados contêm gordura e açúcares por dois motivos: o primeiro é que essas substâncias aumentam a estabilidade desses alimentos, fazendo com que durem mais nas prateleiras de supermercados. O segundo é que pessoas gostam de açúcares e gorduras (isso é evolutivamente programado em nossos cérebros ), e portanto comem mais de produtos que os contêm. Por outro lado, alimentos preparados a partir de insumos frescos têm mais variedade de nutrientes, e por isso são ao mesmo tempo mais saudáveis e trazem mais sensação de saciedade.
Alicia Kowaltowskié médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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