Coluna

Luciana Brito

O ano mal começou e já temos muito com o que nos chocar

09 de fevereiro de 2021

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Em apenas um mês, uma avalanche de acontecimentos estarrecedores tomaram conta do noticiário brasileiro. Apesar de corriqueiras, não podemos naturalizar as perversidades, mortes e irresponsabilidades orquestradas pelo governo

No dia 6 de janeiro de 2021, tivemos o primeiro indício de que o ano novo viria com muitas demandas do ano velho. Naquela data fomos surpreendidas pela notícia de que um grupo de supremacistas brancos havia invadido o Capitólio dos Estados Unidos, durante uma sessão que confirmaria a vitória do presidente Joe Biden e da vice Kamala Harris. Nunca poderíamos imaginar as cenas de quebra-quebra, violência e ódio protagonizadas por aqueles que invadiram um prédio federal para roubar os votos do presidente eleito. As cenas foram surreais: tirando proveito do afrouxamento da segurança, quebraram e vandalizaram estátuas, computadores, aparelhos telefônicos, abriram correspondências, agrediram policiais, entraram em escritórios de autoridades. Roubaram inclusive o computador da presidente da Câmara Nancy Pelosi, que continha informações oficiais.

Eles e elas vociferavam que estavam ali a mando do presidente derrotado, defendendo os “valores tradicionais da sociedade americana” e a “liberdade”, que na verdade, são apropriações propositalmente confusas para a defesa de valores que tem sua origem nos EUA do século 18. A ideia de supremacia branca e de que o país deve reconhecer como cidadã somente a parcela caucasiana da população fortaleceu-se no Sul escravista e provocou a Guerra Civil, aliás era isso que simbolizava a bandeira confederada que carregavam. Essa ideia defende que, ainda hoje, afro-americanos, mulheres e imigrantes latinxs continuem não usufruindo de direitos, e essa é uma noção que une supremacistas brancos dos mais ricos aos mais miseráveis.

Mas voltemos ao ato de terrorismo interno dentro do Capitólio. Ao assistir àquilo acontecer nos Estados Unidos, observadoras mais atentas temiam pelo que poderia acontecer por aqui, já que os EUA nos inspira tanto, sobretudo recentemente, pelos seus maus exemplos.

Mas mal tivemos tempo para pensar nisso. A despeito das advertências das/dos especialistas, as aglomerações decorrentes das festas de final de ano aconteceram e começaram a mostrar seus efeitos no final da primeira semana de 2021. Quando a segunda onda da covid 19 se instalou pelo Brasil, países como Reino Unido, Suíça, Rússia, Alemanha ( vejam, todos europeus) e até mesmo os Estados Unidos do ex-presidente negacionista Donald Trump já haviam iniciado as suas campanhas de vacinação .

Na segunda semana de janeiro, nós brasileiras e brasileiros, muito distantes da vacina, inclusive em relação aos países vizinhos latinoamericanos, como a Argentina, assistíamos inertes ao colapso do sistema de saúde de Manaus. Chocou parte da sociedade brasileira (insisto, parte de nós) ver pessoas desesperadas pedindo oxigênio, produto fundamental à vida e que havia acabado nos hospitais. Pacientes morreram de asfixia aos montes. Foi assustador ver pessoas carregando cilindros nas costas e levando para casa ou para os hospitais, diante da inépcia das autoridades públicas.

Luciana Britoé historiadora, doutora em história pela USP e especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA. É professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e autora dos livros “O avesso da raça: escravidão, racismo e abolicionismo entre os Estados Unidos e o Brasil” (Barzar do Tempo, 2023) e “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista” (Edufba, 2016), ganhador do prêmio Thomas Skidmore em 2018. É também autora de vários artigos. Luciana mora em Salvador, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve mensalmente às terças-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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