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João Marcelo Borges

Como as guerras afetam a educação?

01 de março de 2022

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Na Ucrânia, o quadro já vinha comprometido desde 2014, quando da anexação da Crimeia pela Rússia. Mais de 750 escolas foram destruídas, danificadas ou forçadas a fechar em função do longo conflito

A invasão militar russa do território da Ucrânia tem dominado os noticiários e as redes sociais nos últimos dias. Imagens de explosões, mortos e da resistência ucraniana circulam rapidamente, junto com cenas emocionantes de milhares de cidadãos comuns tentando cruzar as fronteiras com a Polônia, a Hungria e a Romênia em busca de segurança. Esses conflitos de grandes proporções afetam obviamente todos os setores de um país; em meio à guerra, todos os aspectos da vida ficam comprometidos, do transporte à saúde pública, do abastecimento das cidades às comunicações. Mas como as guerras afetam a educação? Discuto aqui três canais por meio dos quais as guerras impactam estudantes, do curto ao longo prazo.

O primeiro canal por meio do qual uma guerra afeta a educação é a suspensão das aulas. Trata-se do mecanismo mais conhecido, sobretudo depois de dois anos de pandemia e todo o debate público e científico acerca das perdas e defasagens causadas pelo fechamento das escolas e a migração acelerada e sem preparo para a educação remota. Assim, além de lidar com os efeitos da pandemia, é plausível esperar que parte significativa das 7,5 milhões de crianças e adolescentes ucranianos tenham comprometidas sua alimentação, socialização, saúde mental e emocional, bem como suas aprendizagens, posto que muitas escolas foram fechadas em 21 de fevereiro último em função da agressão russa.

No caso particular da Ucrânia, o quadro educacional já vinha comprometido por conflitos há mais tempo. Segundo a organização não-governamental Save the Children , que atua na proteção dos direitos das crianças e adolescentes em todo o mundo, desde 2014, quando da anexação da Crimeia pela Rússia, mais de 750 escolas foram destruídas, danificadas ou forçadas a fechar em função do conflito. Ainda de acordo com essa ONG, desde a semana passada outras escolas e orfanatos foram bombardeados e mortes de crianças e professores foram confirmadas.

A intensidade e a magnitude dos impactos causados pela suspensão das aulas dependerão, é claro, do período enquanto durar o conflito e as escolas permanecerem fechadas ou funcionando de forma intermitente. Interessa notar, nesse caso, que dificilmente será possível estabelecer sistemas de educação remota, porque o setor de telecomunicações costuma ser um alvo prioritário em todo conflito militar. Os efeitos também serão diferentes entre os estudantes e professores que ficarem na Ucrânia e aqueles que conseguirem refúgio em outros países. Até o dia 1º de março, as Nações Unidas estimavam em mais de 600 mil as pessoas que já haviam abandonado a Ucrânia, apenas seis dias depois de iniciada a invasão russa. Para ambos, contudo, aspectos como socialização e alimentação poderão ser profundamente comprometidos, bem como a saúde mental.

Isso nos traz ao segundo canal por meio do qual as guerras afetam a educação e as perspectivas futuras de crianças e adolescentes. Trata-se da saúde física e emocional das crianças, que por sua vez afetam seu desenvolvimento na vida adulta. Por exemplo, um estudo recente estima que cerca de 25% dos sobreviventes a tragédias naturais de grande porte, como terremotos, desenvolvem síndrome de estresse pós-traumático (SEPT), sem contar outras enfermidades psicossociais e comorbidades. A literatura especializada aponta que conflitos armados afetam um percentual ainda maior de crianças e adolescentes. Por exemplo, uma meta-análise publicada no British Journal of Psychiatry selecionou os 62 melhores estudos a partir de um universo de 1210 artigos e livros publicados sobre esse tema entre 1980 e maio de 2009 e identificou que, em média, 36% das crianças e adolescentes expostos a traumas significativos desenvolvem sintomas de SEPT. Ainda que os próprios autores dessa meta-análise reconheçam que essa estimativa possa ser questionável, dadas as metodologias e universos amostrais distintos utilizados nos estudos revisados, parece plausível supor que o percentual da população afetada pelo conflito seja até superior aos 36%, o que exigirá uma resposta contundente do poder público, dadas as consequências negativas que a SEPT tem sobre as pessoas e, por conseguinte, sobre as seu rendimento escolar, produtividade no trabalho, renda na vida adulta, desenvolvimento de outras enfermidades.

João Marcelo Borgesé pesquisador do Centro de Desenvolvimento da Gestão Pública e Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas. Foi diretor de Estratégia Política do Todos Pela Educação (2018-2020), Consultor Sênior e Especialista em Educação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (2011-2018), além de ter ocupado cargos de direção no governo do estado de São Paulo e de gerência no Ministério do Planejamento. Idealizador e cofundador do Movimento Colabora Educação, é mestre em economia política internacional, pela London School of Economics, onde estudou como bolsista Chevening, do governo do Reino Unido.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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