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O tempo é uma entidade de muitas surpresas para quem navega com atenção aos seus sinais e lições. Quando chegamos à maturidade, com sorte trazemos conosco alguma dose de experiência e conhecimento adquiridos ao longo da vida, mas também uma consciência profunda da nossa fragilidade. Ao entrar na velhice, começamos a contemplar, inevitavelmente, as perdas, as realizações e, sobretudo, o sentimento de que o nosso tempo, o de cada pessoa na sua individualidade, é limitado. Curto, mesmo quando somos agraciados com uma longevidade saudável e ativa. É a memória, especialmente a memória coletiva, o que nos vincula a um passado e a um futuro que transcende o nosso tempo individual, o que mais perto nos permite chegar a um sentimento de permanência e continuidade. Por isso, amo ouvir histórias dos mais velhos e compartilhar das expectativas dos mais novos, pois nos ajudam a ligar os pontos de trajetórias duradouras, ainda que sempre breves diante do longo prazo.
Por isso, no Brasil, para os donos do poder e do dinheiro, esquecimento é projeto e estratégia de subalternização. A manutenção de estruturas sociais tão profundamente desiguais, como as existentes no Brasil, requer um esforço deliberado de apagamento da memória histórica de modo a dificultar a imaginação de outros caminhos e alternativas. A história precisa ser única, excluídas da narrativa oficial todas as demais versões. São excluídas, em particular, a história de lutas e resistências daqueles que têm os seus direitos sistematicamente suprimidos: as populações subalternizadas, as vítimas dos genocídios que marcam tão profundamente a formação nacional brasileira, os agentes da transformação social. Foi assim com a escravidão, continua a ser assim com o racismo e a violência contra negros e indígenas, é assim com os crimes da ditadura militar e com as violações de direitos cometidas por agentes do Estado.
O racismo e o medo da revolta preta ofereceram o amálgama que aglutina, sob uma espécie de pacto não escrito, as elites brancas ou quase brancas brasileiras. Incapazes de construir uma identidade nacional que fosse ancorada em interesses comuns, dada a persistente e ancestral desigualdade brasileira — onde, desde sempre, uns poucos sempre foram senhores de terras, bois e homens — as elites brasileiras encontraram no racismo e no medo compartilhado da revolta negra as bases orgânicas do seu autoritarismo. Um pacto de preservação de privilégios que explica, por exemplo, a maneira como as classes médias e educadas, assim como os remediados econômicos e os poucos verdadeiramente ricos, solidarizam-se em apoio a aplicação da violência do estado sobre as populações majoritariamente negras das periferias e favelas das grandes cidades brasileiras.
Chegamos a 2022 em um outro patamar de organização e mobilização do movimento conservador no Brasil, hegemonizado por uma facção radical sem nenhum compromisso com a democracia
No Brasil, pensando bem, somos todos, de uma maneira ou de outra, sobreviventes a nós mesmos, vítimas não de inimigos externos, mas da ganância de predadores internos. A experiência dos últimos quatro anos foi um retrato perfeito de um processo de agudização da crise existencial que vivemos como nação. A condução do Estado e das políticas públicas foram marcadas por uma devassidão autoritária, conduzida a partir dos mais altos escalões do poder, com ampla conivência e cumplicidade de sócios no chamado mercado. Fomos atacados por todos os lados e a depressão coletiva foi brutal, o espetáculo da violência e da morte foi exibido nas suas diferentes modalidades, a política foi reduzida ao seu substrato mais vil e predatório, a serviço de interesses menores e vorazes.
Racismo, misoginia, desprezo pelos pobres, falta de empatia pelas vítimas da pandemia, esforço de extermínio de povos indígenas e tradicionais, política ambiental de terra arrasada, exibição sem pudor da ignorância e da feiura humana para o mundo; assistimos a tudo isso sem pausa durante os últimos anos. Nada disso era realmente uma novidade em um país profundamente marcado pelo patriarcalismo escravista e com progressos democráticos ainda tão incipientes – mas sim a escala, e, sobretudo, o esforço inédito de organização da violência em um movimento de massas que levou o Brasil para a beira do abismo autoritário.
Diante de quadro tão desesperador, gosto muito da ideia do escritor francês Albert Camus de que devemos estar sempre ampliando nossos “círculos de esperança“. Trata-se de superar o sentimento de desânimo através do reconhecimento da beleza que nos cerca. E nós, brasileiros, temos a sorte de ter a nosso dispor muitos círculos de esperança. Em um momento eleitoral, diante da urgência de vislumbrar a esperança e traçar caminhos para o futuro, é muito importante tirar força da capacidade de resistência e resiliência demonstrada pelo país nesses últimos anos. A sociedade civil, os movimentos sociais, os povos indígenas, as mulheres, os movimentos negros, as instituições com suas qualidades e problemas, todos foram, em alguma medida, muito importantes para conter o rolo compressor do autoritarismo que avançava. Chegamos a essas eleições com a democracia bastante abatida, mas certamente com os sinais vitais ainda fortes.
O tempo que temos pela frente vai ser de reconstrução de uma sociabilidade fraturada. Chegamos a 2022 em um outro patamar de organização e mobilização do movimento conservador no Brasil, hegemonizado por uma facção radical sem nenhum compromisso com a democracia, ao contrário, com a meta declarada de consolidar um poder autoritário sobre as instituições. Independente do resultado eleitoral, teremos que aprender a lidar com essas forças e encontrar caminhos de enfrentamento e contenção. É o nosso destino como humanidade que se encontra em jogo.
O pós-eleições vai requerer daqueles que seguem acreditando que a história não chegou ao fim e que outros caminhos são possíveis, um enorme esforço para entender o mundo em que estamos. Em particular, vai ser muito importante cuidar para não se deixar dominar pelo ressentimento natural de quem perdeu muito e sofreu dores inimagináveis. Isso é ainda mais relevante em um contexto em que a extrema direita tem feito um trabalho de base, junto aos setores populares, com apoio de denominações cristãs fundamentalistas, muito consistente e de longo prazo. É fundamental, sobretudo, não alienar uma enorme parcela da população que se identifica com uma pauta conservadora, mas não necessariamente se situa no campo da extrema direita.
Entramos, novamente, em um tempo de disputa pelo sentido da política e pelo resgate dos valores democráticos. A hora é de se inspirar na memória daqueles que lutaram para que chegássemos, mesmo que aos trancos e barrancos, a nossa frágil democracia e não desistir do Brasil. Esse país ainda merece ser sonhado.
Atila Roqueé historiador, cientista político e diretor da Fundação Ford no Brasil. Exerceu papel de liderança em diferentes organizações da sociedade civil no Brasil e no exterior. Foi diretor-executivo da ActionAid International nos EUA e do INESC (Instituto de Estudos Socioeconômicos). Antes de assumir a Fundação Ford, em 2017, foi diretor-executivo da Anistia Internacional no Brasil. Faz parte do Conselho Diretor do GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas).
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