Coluna
Alicia Kowaltowski
O que eu aprendi num curso de formação de ‘coach nutricional’
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Há alguns meses recebi um convite para participação gratuita por um mês em um curso de formação de profissionais de “coach nutricional” online. Não resisti e me inscrevi, pois me parecia uma oportunidade de descobrir o que ensinam esses tais coaches. “Coach” de tudo quanto é coisa tem aparecido comumente nas redes sociais, sendo uma atividade profissional com pouca regulamentação ou definição, podendo portanto facilmente abranger atividades cientificamente infundadas. Quando relacionado a práticas com ligações fortes com a saúde, isso é motivo de preocupação, pois pode se tratar de uma pseudoformação profissional, promovendo pseudociências na área de saúde.
Na definição da palavra americana, “coach” é uma pessoa experiente que transmite seus conhecimentos adquiridos e apoia outras pessoas através de sessões de treinamento e orientação em sua área de atuação. Considerando esta definição, eu esperava que um curso de “coach nutricional” promovesse ensino e experiência em nutrição, além de ensinar técnicas de como transmitir conhecimentos de nutrição com clareza e eficácia. Imaginava, na minha inocência, que o curso teria aulas de conceitos básicos que comumente vejo serem confundidos, como a diferença entre calorias e carboidratos , e o que são as principais macromoléculas da alimentação. Esperava ver aulas sobre o que são e para que servem cada tipo de vitamina ou mineral na dieta, quanto é recomendável ingerir, e problemas da falta ou excesso destes. Imaginava que se discutisse diferentes hábitos alimentares e necessidades individuais nas diferentes fases da vida, além de vários outros aspectos técnicos da nutrição. Confesso que não esperava que as aulas fossem de qualidade, nem que fossem fortemente embasadas em evidências científicas, pois se fosse o caso seria um curso regulamentado de nutrição, e não de “coach nutricional”. Mas eu verdadeiramente esperava que as aulas versassem sobre conceitos envolvendo comida.
Eu estava completamente errada: não há quase nenhuma discussão nutricional neste curso de “coach” em que me matriculei, apesar de ser, segundo seus criadores, o maior e mais antigo curso em existência na área, tendo cunhado o termo “coach nutricional” e formado pessoas em 175 países diferentes. Dos muitos vídeos e materiais didáticos do programa (mais de 400 horas, segundo eles), apenas seis, com duração total de menos de três horas, eram sobre alimentos ou nutrição. Embora eu confesse que tenha sido relapsa em relação ao restante do material que me foi oferecido, assisti estes, e o conteúdo neles era basicamente nulo. Diziam, em muitas palavras, que nutrição não deve ser igual para todos, e que precisa ser personalizada (o que é uma verdade, até certo ponto). Mas não diziam quais as características pessoais diferentes, nem suas necessidades.
Falavam, muito extensivamente, que bem-estar envolve mais do que alimentação (outra verdade, se um tanto óbvia). Falavam rapidamente que existem 68 tipos de dietas diferentes, mas não entravam no mérito de quais dietas eram estas, nem quando ou como deveriam ser usadas. Falavam muito em alimentos saudáveis e em como melhorar a ingestão desses, mas nunca mencionavam o que são estes alimentos. Aparentemente, assumiam que todo mundo já sabe o que é ou não é saudável comer.
Do pouco que falavam sobre alimentação, em vários momentos cometiam erros técnicos, como por exemplo dizer que alimentos processados são pouco saudáveis por causa da presença de aditivos sintéticos industriais (na realidade são pouco saudáveis por causa do alto conteúdo de açúcar, gordura e sal , moléculas perfeitamente naturais ). Também mencionam repetidamente a importância de fazer dietas para detoxificar o corpo de toxinas , sem nunca especificar quais toxinas estas seriam (até porque elas não existem).
Alicia Kowaltowskié médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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