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Alicia Kowaltowski

Como funcionam os novos tratamentos para obesidade

11 de janeiro de 2023

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Não trata-se de uma falha de resolução pessoal, e sim uma doença em que há descontrole dos mecanismos corporais de regulação da fome e homeostase metabólica

Chegamos a um novo ano, e com seu início vem o desafio de cumprir resoluções pessoais que fazemos a cada volta que nosso planeta completa em torno do sol. Uma das resoluções de ano novo mais comuns é perder peso em excesso, nada surpreendentemente, já que a obesidade ou sobrepeso já atinge mais da metade dos brasileiros adultos . Deve-se destacar, porém, que perder peso simplesmente por ter feito uma resolução de final de ano é muito difícil.

O excesso de gorduras está relacionado com um desbalanço entre as calorias que comemos e gastamos, sendo que diminuir a quantidade ingerida é a maneira mais efetiva de perder peso . Mas diminuir o quanto comemos é difícil, e não depende apenas de vontade pessoal. Isto acontece porque nós evoluímos para poder sobreviver a períodos de fome , tendo acesso a alimento farto apenas no passado recente, o que nos tornou extremamente eficazes em armazenar na forma de gorduras todas as calorias que encontramos em excesso. Outro resultado deste desenvolvimento evolutivo é que a maioria de nós possui vontade de comer mais do que precisa para se manter fisicamente, e é especificamente atraído por alimentos altamente calóricos. A obesidade não é uma falha de resolução pessoal, e sim uma doença em que há descontrole dos mecanismos corporais de regulação da fome e homeostase metabólica.

Neste sentido, 2023 começa com boas notícias para quem necessita emagrecer. No primeiro dia útil do ano, a Anvisa aprovou o uso de semaglutida na forma injetável, com nome comercial de Wegovy, para tratamento de obesidade e sobrepeso na presença de comorbidades relacionadas ao excesso de peso, como diabetes, hipertensão ou doença cardíaca. Embora o Wegovy ainda não esteja disponível no Brasil, a semaglutida já era indicada “off label” por alguns médicos para tratamento de obesidade sob outra formulação comercial (Ozempic), aprovada para tratamento de adultos com diabetes mellitus tipo 2. O tratamento atraiu bastante atenção nas mídias sociais, tanto pela sua eficácia quanto pela característica dos aplicadores das injeções dos produtos, que fazem um clique a cada dose aplicada.

A semaglutida claramente funciona na perda de peso. Em um estudo internacional de quase 2.000 pessoas com obesidade sem diabetes, houve perda de em média 15% de peso no grupo tratado, e apenas 2,5% de peso no grupo placebo, que usou um injetor sem a semaglutida. Os resultados foram confirmados por outros estudos com grupos distintos e variados de voluntários. O mecanismo em que a semaglutida funciona é bem entendido molecularmente: a molécula imita os efeitos de um hormônio chamado GLP-1 ( glucagon-like peptide 1), que é liberado pelos nossos intestinos, e que tem vários efeitos metabólicos, incluindo reduzir os níveis de glicose na corrente sanguínea (sendo importante, portanto, para controle da diabetes) e diminuir a sensação de fome no hipotálamo, a região do cérebro que controla nossa saciedade. A diferença entre a semaglutida e o GLP-1 que nossos intestinos liberam é que, enquanto o nosso hormônio natural age durante apenas alguns minutos, a semaglutida permanece ativa por vários dias, podendo ser aplicada apenas uma vez por semana e ainda mantendo sua eficácia.

O desenvolvimento de um análogo de GLP-1 com efeitos claros contra diabetes e excesso de fome passou pelos caminhos nada lineares que a ciência tipicamente trilha, a começar pelo estudo do veneno do monstro-de-gila, um lagarto peçonhento nativo da América do Norte. Uma das moléculas encontradas no veneno deste réptil tinha estrutura semelhante ao GLP-1, era ativa na regulação de níveis de glicose no sangue e na diminuição da fome, mas tinha duração maior que nosso hormônio. A molécula do monstro-da-gila foi então modificada em laboratório para torná-la mais ativa ainda, gerando uma primeira geração de medicamentos aprovada pelo FDA, a agência federal reguladora americana, para uso em diabetes em 2005. Modificações posteriores geraram medicamentos cada vez mais potentes, como a semaglutida. E os avanços não vão parar: há indícios de que uma outra molécula que atua de forma semelhante, a tirazepatida, já aprovada pelo FDA para diabetes, possa ser até mais eficaz que a semaglutida para perda de peso.

Alicia Kowaltowskié médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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