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Encontrei “carne orgânica sem a adição de hormônios” à venda no supermercado. A embalagem é bonitinha, e o preço é significativamente maior que o das carnes comuns, mas será que vale a pena? Será que devemos temer a adição de hormônios?
Hormônios são moléculas pouco compreendidas pela comunidade geral, mas que são sempre culpados pelos nossos defeitos: se atribui a eles mazelas que vão do mau comportamento na adolescência à tendência a engordar. Na realidade, hormônios não são nada além de substâncias químicas produzidas por seres vivos que participam da comunicação entre diferentes partes do corpo, coordenando respostas entre células e órgãos distantes. São extremamente importantes para seres vivos com muitas células (multicelulares), pois sem estes mensageiros químicos, as diferentes partes do corpo não poderiam atuar como um conjunto único. Como um exemplo, o verme Caenorhabditis elegans, com menos de 1.000 células, possui hormônios que coordenam seu metabolismo de modo semelhante à nossa insulina . Sem hormônios, nem mesmo seu minúsculo corpo de apenas 1 milímetro de comprimento funciona adequadamente. Nós, humanos, com alguns trilhões de células, certamente precisamos deles, e temos cerca de 50 hormônios diferentes.
Não somos só nós: animais grandes, como aqueles cujas carnes consumimos, possuem muitos hormônios diferentes, sinalizando e coordenando funções distintas. Alguns destes hormônios regulam o crescimento, a quantidade de músculo que se desenvolve ou a quantidade de leite produzido. Por este motivo, tratar animais com hormônios pode ser interessante para a pecuária, que frequentemente utiliza implantes que lentamente liberam hormônios sexuais esteroides em animais para aumentar a sua produtividade.
Os hormônios com que os animais são tratados são idênticos aos hormônios naturais que eles produzem e também iguais aos nossos hormônios humanos. Portanto, teoricamente, poderia haver um efeito deles em nós quando ingerimos esta carne. Este efeito depende de sermos capazes de receber os hormônios em quantidade suficiente para gerar mensagens biológicas através da alimentação. E aí reside um dos problemas: enquanto a absorção destes hormônios a partir de implantes na pele é alta, a absorção oral é baixa: Menos de 10% da progesterona e 5% do estradiol (conjuntamente conhecidos como os hormônios sexuais femininos) ingeridos são absorvidos pelo corpo humano. No caso da testosterona, o principal hormônio sexual esteroide anabólico em homens, a absorção oral é meramente 3,6% do que se ingere. Acrescente a isso o fato de que estas moléculas podem ser destruídas pelo cozimento, e fica claro que há uma barreira significativa para sua absorção.
Além do problema de absorção de hormônios, tem que ser levado em conta quanto dessas moléculas está nos músculos de animais com os quais nos alimentamos, e a quantidade destes hormônios que causa algum tipo de efeito em um humano. Pegue, por exemplo, a testosterona, que ajuda o gado a ganhar peso mais rapidamente. Em gado não tratado com testosterona, os níveis máximos deste hormônio são de 30 nanogramas (bilionésimo de grama) por quilo de carne, enquanto que em animais com tratamento hormonal se mede até 360 nanogramas de testosterona por quilo. Parece muito aumentar mais de 10 vezes a quantidade máxima no animal tratado, mas humanos produzem muito, muito mais testosterona do que isto: homens produzem cerca de 7 miligramas (milésimos de grama) por dia, enquanto mulheres em geral um pouco menos de 1 miligrama por dia. Levando em conta estas quantidades e a baixa absorção da testosterona oral, uma mulher teria que comer no mínimo 77 mil quilos de carne ao dia para absorver testosterona em quantidades iguais à que produz, ou mais de 200 bois inteiros!
Alicia Kowaltowskié médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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