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Assim como tem aumentado em humanos, a obesidade também afeta nossos pets. Associações veterinárias em vários países reportam que mais de 50% dos cães domésticos apresentam-se obesos, e com consequências indesejáveis associadas à obesidade. Como nos humanos, uma causa importante de obesidade canina é evolutiva: animais passaram por milhões de anos em que era necessário sobreviver com pouca comida, um processo que selecionou indivíduos com maior vontade de comer alimentos altamente calóricos, e maior capacidade de armazenar os excessos em forma de gordura, para uso em épocas de escassez. No caso dos cães, a pressão evolutiva que sofreram é realçada pelo fato de que são animais que passaram por um processo de seleção para viver com humanos, incorrendo em alterações evolutivas a mais, promovidas pela socialização conosco.
A domesticação de lobos se transformando em cães ocorreu há algumas dezenas de milhares de anos. A época exata é discutida por cientistas, tanto porque é complicado ter precisão em eventos pré-históricos, quanto porque o processo em si foi complexo e gradual. Esta domesticação começou com alcateias de lobos vivendo nas proximidades de humanos, interagindo ocasionalmente, e progrediu para interações gradativamente mais próximas. Com o tempo, passaram de ser animais no entorno de grupos humanos para os canídeos atuais, que vivem, se alimentam e se reproduzem sob a guarda de pessoas, como animais de estimação, e parte da estrutura de nossas famílias e sociedades.
O processo evolutivo dos cães é especial porque selecionou dentre os lobos especificamente indivíduos que eram mais dóceis, e interagiam melhor com os humanos. Selecionou também indivíduos mais capazes de entender e antecipar o comportamento humano. Resultados de vários estudos de inteligência animal demonstram que, enquanto alguns animais como macacos ou golfinhos são mais capazes que cães em diversos testes cognitivos, os cachorros se saem melhor em testes que envolvem entender e responder a humanos.
E não é só no seu comportamento e inteligência que os cães evoluíram para interagir melhor conosco. Há também adaptações anatômicas que se desenvolveram com nosso longo tempo de interação. Cães possuem rostos com características mais juvenis, com olhos grandes e redondos, semelhantes a filhotes de lobos, mesmo quando adultos. Esta característica é conhecida tecnicamente como paedomorfia, e nos induz a cuidar mais deles, pois assumimos instintivamente que são mais jovens e indefesos. Há estudos que confirmam que até mesmo hoje, cães com rostos mais juvenis, mais paedomórficos, são os mais adotados . Isto significa que continuamos selecionando e ajudando a evolução de cães com cara de filhote.
Mas os cães não se limitam ao formato dos rostos em sua adaptação anatômica para nos agradar. Desenvolveram também músculos capazes de elevar as sobrancelhas internas , lhes dando a capacidade de aumentar e arredondar ainda mais os olhos. Estes músculos permitem mudar o formato do rosto, incluindo fazer expressões faciais que se assemelham a humanos quando tristes. Lobos não têm estes músculos faciais, nem a capacidade de fazer estas expressões. São aquisições evolutivas que fazem parte do arsenal imbatível que os cães desenvolveram para nos convencer a cuidar deles, incluindo lhes dar comida mesmo quando já estão bem alimentados. A capacidade ímpar que os cães têm de nos fazer derreter pelos seus olhares irresistíveis é porque eles verdadeiramente nos amam, mas isto também é produto da evolução, e do conjunto de estratégias comportamentais e anatômicas que garantiu a sua sobrevivência vivendo ao nosso lado.
Alicia Kowaltowskié médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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