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Alicia Kowaltowski

O que nos deixa com cabelos brancos

03 de maio de 2023

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Estamos descobrindo novos mecanismos que fazem aparecer (e desaparecer) cabelos e pelos brancos, um dos primeiros sinais do envelhecimento

Uma das marcas visíveis do envelhecimento é o aparecimento de pelos e cabelos brancos. Por que isso acontece? É reflexo de alguma transformação corporal indesejada? Podemos entender o processo melhor para poder controlá-lo (pelo menos naqueles de nós que não desejam um visual grisalho)?

Para entender o que faz os cabelos ficarem brancos, precisamos primeiro entender o que são cabelos e pelos. Cabelos e pelos são semelhantes, e formados principalmente por uma proteína chamada queratina, que acumula em células a partir do bulbo capilar (dentro da cabeça), crescendo através do folículo capilar (uma espécie de túnel na pele por onde passa o cabelo), até sair da pele. Nesta parte para fora da pele, as células que produziram a queratina já estão mortas e predominantemente só sobrou a proteína. Junto ao bulbo e folículo capilar dentro das nossas cabeças há várias estruturas como músculos (capazes de literalmente nos deixar de cabelos ou pelos em pé) e glândulas sebáceas, que secretam substâncias ricas em óleo e gordura, que ajudam a manter a textura e hidratação da pele e dos cabelos.

É nesta região do bulbo também que se localizam melanócitos, células que produzem melanina, que dá a cor aos cabelos e pelos (e também à nossa pele). Melanina não é uma molécula única, mas sim um grupo de moléculas que produzimos com características diferentes. Feomelaninas, uma classe de melaninas, possuem cor amarelada ou avermelhada, enquanto eumelaninas possuem coloração castanha ou preta. A combinação de diferentes proporções e tipos destas melaninas nos cabelos nos dá as cores distintas de cabelos que temos. Esta coloração e proporção de melaninas no cabelo é determinada por características genéticas ainda não totalmente conhecidas (há pelo menos 11 genes cujas variações determinam a cor dos cabelos). Além disso, a cor dos cabelos pode mudar em diferentes momentos da vida, como sob a ação de hormônios durante a puberdade, em que comumente há escurecimento dos cabelos.

Além de ter a cor modificada por estímulos do nosso corpo, o meio em que vivemos pode alterar a cor dos cabelos (para além da tintura capilar, proposital). A exposição ao sol, sabidamente, pode “queimar” e clarear os cabelos, principalmente em pessoas que já possuem cabelos claros ou loiros. Um trabalho do grupo do professor Mauricio Baptista da USP (Universidade de São Paulo) demonstrou que a irradiação de cabelos humanos com luz visível leva à degradação de melanina nos cabelos, com maior degradação em cabelos loiros quando comparados a escuros. Esta maior degradação em cabelos loiros está associada a uma maior produção desencadeada pela luz de oxigênio singlete, uma forma de oxigênio reativo que age de forma semelhante a radicais livres , destruindo as moléculas que dão cor aos cabelos. Outras espécies reativas de oxigênio como peróxido de hidrogênio (popularmente conhecido como água oxigenada) produzidos por nossas células estão envolvidos na perda da cor do cabelo e pele em doenças como o vitiligo. De fato, em estudos científicos foi possível reverter parcialmente estes efeitos usando um tipo de antioxidante especial capaz de penetrar a pele e remover peróxido de hidrogênio aplicado no couro cabeludo.

Mas questões ainda permanecem sobre mecanismos de como cabelos perdem a capacidade de incorporar melanina e ficam brancos com o envelhecer, e especificamente os motivos pelos quais este é um dos primeiros sinais claros de envelhecimento em vários animais. Neste sentido, é interessante entender como funcionam as células-tronco que geram os melanócitos, as células que produzem as melaninas que dão cor aos cabelos. Um trabalho de 2023 que, incrivelmente, acompanhou células-tronco individuais de melanócitos dos pelos de camundongos durante dois anos (quase a totalidade da vida destes animais) determinou que estas células-tronco são bem diferentes, indo e voltando de locais distintos no bulbo capilar, ao mesmo tempo que se tornam mais diferenciadas (produtoras de melanina) e depois desdiferenciam, virando novamente células-tronco. Esta ida e volta no estado de diferenciação e localização em relação ao bulbo capilar é atípica dentre células-tronco em adultos, e pode ter relação com o aparecimento de pelos brancos, pois o movimento e ciclagem no estado de diferenciação diminuiu nos animais mais velhos, gerando menos melanócitos e mais pelos brancos.

Alicia Kowaltowskié médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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