Coluna
Januária Cristina Alves
‘Afinal de contas, o que pode a Educação Midiática?’
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O título deste artigo foi uma frase proferida por um educador em uma das palestras que ministrei em uma escola. A discussão passava pelos limites e possibilidades da Educação Midiática, que anda sob os holofotes especialmente quando se trata de encontrar maneiras de preparar crianças e jovens para lidarem com os inúmeros desafios impostos pelo ambiente digital. A pergunta foi motivada por uma observação feita por um outro participante do evento de que estamos sempre em busca de algo que resolva todos os nossos problemas e como em educação isso nunca funciona. Ao falar das possibilidades da Educação Midiática como prática pedagógica também enfatizei seus limites, especialmente porque ainda sabemos muito pouco sobre os resultados do uso excessivo e indiscriminado das mídias que vem acontecendo com essa geração. As mudanças trazidas pela internet e pelas mídias digitais são tantas, tão rápidas e profundas, que é praticamente impossível avaliá-las enquanto as experienciamos.
Fato é que a pergunta foi motivo para um diálogo inspirador e me instigou a refletir e a escrever sobre o que não é a Educação Midiática. Uma das maneiras de se definir o papel, as potencialidades e possibilidades de um determinado objeto de estudo é pensar o que ele não é, aprendi com um dos meus mestres na área de educação. Não que a lista do que “não é” possa, precisamente, definir o que aquilo é, mas esse simples exercício favorece o pensamento complexo, tão brilhantemente analisado e definido pelo sociólogo Edgar Morin: “quanto mais complexa é a organização, mais comporta desordens que se chamam liberdade (…) A ideia fundamental é que o conhecimento é uma estratégia que deve trabalhar na incerteza e na dificuldade (…) (o que) não significa deixar-se submergir por elas; é, enfim, colocar à prova um pensamento energético que as olhe de frente”, afirma em muitas das suas obras.
A Educação Midiática não se faz em camadas, porque ela está no cerne das nossas interações, mesmo quando não acessamos as mídias
Tentar definir o que não é a Educação Midiática me levou a pensar que, se ela nasce sob o signo de buscar compreender e lidar com a intermediação que os meios de comunicação realizam entre nós e o mundo em que vivemos, e como podemos nos relacionar com eles sem perder a criticidade, a criatividade, a ética, a moral e todos os valores que nos constituem como humanos, ela não pode ser o ponto de chegada, a resposta, e nem tampouco uma solução. Poderá ser, sim, o fio condutor que fará com que sejamos capazes de unir as diversas interfaces que compõem essa relação. A sua prática deverá privilegiar o pensamento complexo e a participação das crianças e jovens nas mídias que acessam, e não apenas a sua interatividade. A Educação Midiática deve servir como instrumento que leva à reflexão e à prática para além dos usos das mídias, ela deve, essencialmente, passar pela compreensão desse objeto, e auxiliar no conhecimento de como os meios – em especial aqueles que estão na internet – modulam os nossos desejos, moldam nosso pensamento e percepção da realidade, transformando nosso comportamento, favorecendo atitudes que nem sempre contribuem para a vida em sociedade justa e sustentável, criando cultura, enfim. “Assim como não se ensina uma criança a ler para protegê-la dos livros nocivos, não se educa para o letramento da mídia para evitar as mídias e sim para prepará-las para a vida”, afirmam os estudiosos de Educação Midiática Cindy Scheibe e Faith Rogow. Isso nos lembra que, quando se fala em educação, necessariamente associa-se a um processo e que, portanto, é algo que deve durar uma vida. Sem falar que ela deve estar intrinsecamente ligada à participação consciente (nesse sentido, é importante diferenciá-la da interatividade, que é mecânica) e à experiência compartilhada.
Vale lembrar que a educação é sempre de responsabilidade da sociedade, ainda que a escola seja o lugar privilegiado para a construção de competências e habilidades que preparam os indivíduos para a vida. No caso da Educação Midiática ou melhor, da Educação Digital, que é mais ampla porque engloba também os saberes relacionados às novas tecnologias, é necessário compreendê-la como uma questão de todos nós, uma vez que estamos vivendo mediatizados e que o que acontece no virtual se reflete no real, interferindo diretamente no nosso modo de ser e estar no mundo. Somos todos responsáveis pelo que acontece ao nosso redor, como afirma o filósofo Pierre Lévy: “temos uma grande responsabilidade pelo que ocorre online. O que quer que esteja acontecendo é resultado do que todas as pessoas estão fazendo juntas; a internet é a expressão da inteligência humana coletiva. (…) Também temos que desenvolver pensamento crítico. Tudo que você encontra na internet é uma expressão de pontos de vista particulares, que não são nem neutros, nem objetivos, mas uma expressão de subjetividades ativas”.
A Educação Midiática não se faz em camadas, porque ela está no cerne das nossas interações, mesmo quando não acessamos as mídias, faz-se ao longo de todo o currículo e escolaridade, em nosso cotidiano, pois é instrumento de reflexão sobre como devemos participar e interagir no mundo on e offline, de como podemos aprender a nos valorizar e ao outro, a conviver com o diferente, o diverso e o desigual, a conhecer nossos direitos e deveres como cidadãos digitais e atuantes na nossa comunidade física. Trata-se de educação, sobretudo. As mídias são o ponto de partida para o exercício dos princípios mais caros à educação: o ensinar a pensar, a perguntar, a debater e a dialogar. Elas são olocus onde se expressa toda a complexidade das relações humanas contemporâneas, são o pretexto. O fim, o ponto de chegada, somos nós quem vamos determinar, numa construção conjunta e compartilhada, dentro e fora da escola, e das redes.
Januária Cristina Alvesé mestre em comunicação social pela ECA/USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), jornalista, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira, coautora do livro “Como não ser enganado pelas fake news” (editora Moderna) e autora de “#XôFakeNews - Uma história de verdades e mentiras”. É membro da Associação Brasileira de pesquisadores e Profissionais em Educomunicação - ABPEducom e da Mil Alliance, a Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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