Coluna

Januária Cristina Alves

Como a Educação Midiática pode apoiar a saúde mental

28 de setembro de 2023

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Lista dos danos causados pelo uso excessivo das telas não para de crescer. Segundo pesquisas recentes, sintomas começam por volta dos 14 anos. Na maior parte dos casos, sinais são ignorados, negligenciados ou tratados de maneira equivocada

Como diria Renato Russo: “o futuro não é mais como era antigamente”. Pois é, setembro era tradicionalmente o mês da chegada da primavera, de plantar árvore no dia dedicado à ela, de celebrar o clima ameno, e a brisa leve nos lembrava que “a boa nova (iria) andar nos campos”, como canta Beto Guedes em “Sol de primavera”. Mas não foi isso que vivemos nos últimos setembros. Neste ano, além de dormirmos mal por conta de um calor descomunal que assolou o mundo por causa das mudanças climáticas e do fenômeno do El Niño, fomos assombrados por números que revelam o crescimento contínuo no mundo das doenças associadas à nossa saúde mental. Isso porque setembro é hoje mais lembrado como o mês em que se fala, reflete e se informa sobre os malefícios do desequilíbrio da nossa saúde mental. Feliz ou infelizmente nos damos conta de que é urgente discutirmos esse assunto e buscarmos, em conjunto, alternativas para lidarmos com ele.

Desde 2003, a Organização Mundial da Saúde instituiu o dia 10 de setembro como o Dia Mundial da Prevenção ao Suicídio. No Brasil, a campanha “Setembro amarelo” foi criada em 2015 pelo Centro de Valorização da Vida, em parceria com a Associação Brasileira de Psiquiatria e o Conselho Federal de Medicina, e desde então, cidadãos, organizações da sociedade civil e empresas têm abordado esse tema que é tão complexo quanto difícil de se lidar na chamada Modernidade Líquida. O Brasil, quase sempre associado ao país do samba, do futebol, da leveza e do bom humor, tem visto essa imagem derreter. Hoje somos o país mais ansioso do mundo e aquele com o maior número de transtornos depressivos da América Latina. Somos, ainda, o segundo país do planeta em casos de burnout. Precisamos entender por que isso está acontecendo e, sobretudo, cuidar para que as novas gerações saibam lidar com as questões trazidas por esses tempos de incertezas e impermanências. A convivência entre o mundo digital e o real, a aceleração a que estamos submetidos por conta desse trânsito contínuo e ininterrupto, tem sido responsável por boa parte das doenças mentais que acometem as crianças e jovens deste século 21.

Educação Midiática auxilia efetivamente no equilíbrio da saúde mental de crianças e adolescentes. Esse público precisa de uma cultura que o conecte com suas necessidades reais

Portanto, precisamos urgentemente falar sobre a influência das mídias na saúde mental de crianças e jovens. Segundo a Organização Mundial da Saúde, um bilhão de pessoas no mundo sofre de transtornos mentais e 14% deles são adolescentes. Além disso, a lista de danos à saúde por conta do uso excessivo das telas não para de crescer. Segundo pesquisas recentes, os sintomas começam por volta dos 14 anos: transtornos alimentares, problemas de visão, baixa autoestima, deficit de atenção e risco de obesidade são alguns. Na maior parte dos casos, esses sinais são ignorados, negligenciados ou tratados de maneira equivocada.

Foi para debater essas questões que a ABMPP (Associação Brasileira de Medicina Personalizada e de Precisão) promoveu o 1º Simpósio de Saúde Mental e Educação Midiática com o tema “Como a Educação Midiática pode apoiar a saúde mental de crianças e jovens”. O evento, do qual tive o privilégio de participar como palestrante e curadora, contou com a presença de profissionais representando instituições como a Safernet Brasil e o Instituto Alana, com vasta experiência em diferentes áreas como medicina, direito, psicologia, comunicação e educação, o que trouxe uma visão multi e transdisciplinar dessa temática, abrindo espaço para que o público também participasse da discussão, contribuindo com perguntas e relatos de experiências. O seminário foi integralmente online e gratuito e está disponível aqui .

De uma maneira sintética, podemos dizer que, para pensarmos a intersecção entre a saúde mental de crianças e adolescentes e a Educação Midiática, é preciso considerar alguns aspectos fundamentais: trata-se de múltiplas infâncias e, portanto, não se pode generalizar como elas se relacionam com as mídias digitais, tendo em vista que o acesso a elas está eivado de diferenças e discrepâncias econômicas, sociais e culturais. Some-se a isso a questão da regulação dessas mídias, que possuem um modelo de negócios que privilegia a ênfase na “economia da atenção” em detrimento da qualidade dos conteúdos que veiculam, o que impacta o cérebro das crianças, que ainda está em formação, recebendo estímulos com os quais não está preparado para lidar. Por outro lado, não é possível excluir ou proibir o uso de tais recursos nem na escola nem no cotidiano desse público, porque pesquisas mostram que a internet tem sido também um canal de ajuda para que encontrem informações sobre como cuidar de sua saúde e bem-estar. No entanto, pais e educadores ainda estão em busca de modelos de orientação para um uso das mídias sociais mais seguro, ético e consciente para seus filhos e alunos, uma vez que a internet trouxe consigo a escala e a velocidade – e também o anonimato –, que fazem dela um terreno mais fluido e perigoso, demandando cuidados específicos.

A ciência afiança que é até os cinco anos que 90% das nossas conexões cerebrais são formadas. Esse fato é preponderante para pensarmos em maneiras de oferecermos às crianças condições de desenvolverem suas potencialidades integralmente. Do ponto de vista da saúde, é fundamental lembrar que, segundo a Organização Mundial da Saúde, ela “é um estado dinâmico de completo bem-estar físico, mental, (espiritual) e social, e não meramente a ausência de doença ou enfermidade”, ou seja, é imperativo prover a infância de recursos que promovam esse estado, mais do que mecanismos de mitigar os danos pela falta deles. E no que se refere à Educação Midiática como recurso que auxilia efetivamente no equilíbrio da saúde mental de crianças e jovens, trata-se de promover uma cultura que conecte esse público com suas necessidades reais, de fornecer-lhes elementos concretos que lhes permitam estar vinculados consigo mesmos e com os outros, e não apenas conectados virtualmente; que facilitem a sua participação integral na sociedade, e não apenas a interação ditada pelos algoritmos; que lhes permitam a expressão genuína do que pensam e são, e não apenas a reprodução automática e acrítica de opiniões formatadas, muitas vezes, por desconhecidos.

A saúde mental e a Educação Midiática possuem um elo em comum que o Simpósio trouxe com muita ênfase e propriedade: a importância da construção da memória como aquilo que nos humaniza e que nos mantém sãos. A memória individual e coletiva necessita de experiências concretas e verdadeiras para conferir sentido à nossa existência. Sem isso, no futuro, a raça humana será reduzida a apenas… informação.

Januária Cristina Alvesé mestre em comunicação social pela ECA/USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), jornalista, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira, coautora do livro “Como não ser enganado pelas fake news” (editora Moderna) e autora de “#XôFakeNews - Uma história de verdades e mentiras”. É membro da Associação Brasileira de pesquisadores e Profissionais em Educomunicação - ABPEducom e da Mil Alliance, a Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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