Temas
Compartilhe
Em 1995, Nelson Mandela foi escolhido presidente pela maioria da África do Sul sob os temores de parte de uma minoria. Apesar de todos os sinais em contrário, alguns brancos — que haviam dominado o país a partir de um dos mais racistas e segregacionistas regimes políticos da modernidade — temiam que ele iniciasse um governo revanchista. Mas, ao contrário disso, Mandela formou um governo de reconciliação, incluindo em sua coalizão o Partido Nacional, principal artífice do apartheid. Seu gabinete de governo incluiu nomes como o do ex-presidente Frederik Le Klerk na segunda vice-presidência e Derek Keys como ministro das finanças, ambos brancos. Mesmo assim, sua administração enfrentou forte oposição, não apenas fora do Estado, mas dentro dele. Parte disso se devia a um legado incômodo do regime racista que marcou a história do país: brancos, que correspondiam a apenas 15% da população sul-africana, ocupavam 90% dos cargos na burocracia estatal.
O Brasil tem uma história muito diferente da África do Sul. Nunca tivemos um regime que utilizasse leis segregacionistas explicitamente racistas. Apesar disso, uma miríade de práticas e instituições sociais contribuíram indiretamente para a manutenção da discriminação racial em inúmeras esferas da nossa sociedade, da educação ao mercado de trabalho. Isso faz com que, ainda hoje, brancos correspondam a mais de 78% do quinto mais rico de nossa população enquanto pretos e pardos são 74% do quinto mais pobre.
O funcionalismo público também contém as marcas das nossas desigualdades e discriminações raciais. Entre os cargos federais comissionados de alto nível (13 a 17, na nomenclatura oficial), quase 70% são ocupados por brancos. A situação fica ainda mais dramática quando cruzamos gênero e raça. Segundo os dados oficiais, mulheres pretas e pardas ocupam 14% dos cargos de liderança do governo federal, enquanto são 27% da população brasileira. Homens brancos, por seu turno, 35,2% dos cargos de liderança, enquanto perfazem 22% da população.
Essas desigualdades já foram maiores. Se hoje elas atingem esses níveis também é por conta da Lei 12.990/2014, que reservou vagas nos concursos para provimento de cargos efetivos e empregos públicos na administração federal para pretos e pardos. Um projeto de renovação e ampliação da política encontra-se em debate no Senado. Ele aprimora em vários aspectos a lei anterior, aumentando a reserva de vagas, estabelecendo subcotas para mulheres pretas e pardas, incluindo indígenas e quilombolas no rol de beneficiários e estendendo a validade da medida por 25 anos. O projeto precisa ser aprovado em 2024 para que a política continue operando.
Ainda assim, há quem defenda que continuemos ignorando as iniquidades presentes nos concursos para servidores públicos. O argumento central é que “o mérito” deveria ser o critério primordial na hora de selecionar funcionários públicos, e não a raça ou o sexo. Em fevereiro deste ano, o colunista Hélio Schwartsman escreveu um conjunto de textos contrários às políticas de ação afirmativa para a diversificação do funcionalismo público. Em “A Multiplicação das Cotas”, ele questiona retoricamente: “Responda com sinceridade, leitor. Você entraria confortavelmente num avião conduzido por alguém que, pelo fato de pertencer a minoria desfavorecida, recebeu um empurrãozinho na prova para obter a licença de piloto? E no caso de um neurocirurgião?”. Noutro, ele emenda: “Não selecionamos candidatos com bom desempenho para fazer justiça, mas para proporcionar aos cidadãos a melhor prestação possível de serviços. Outros objetivos, como a diversidade, podem entrar, mas subsidiariamente”.
Luiz Augusto Camposé professor de sociologia e ciência política no IESP-UERJ (Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro), onde coordena o Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa, o GEMAA. É autor e coautor de vários artigos e livros sobre a relação entre democracia e as desigualdades raciais e de gênero, dentre os quais “Raça e eleições no Brasil” e “Ação afirmativa: conceito, debates e história”.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
Navegue por temas