Coluna

Luiz Augusto Campos

Por um novo projeto nacional (e antirracista)

26 de novembro de 2024

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Sistema de ação afirmativa brasileiro ainda está muito longe de ser suficiente para dar oportunidades socioeconômicas de modo amplo para a maior parte da população brasileira

Diversas pesquisas vêm mostrando que a maioria dos brasileiros reconhecem o racismo como uma dos maiores problemas da sociedade brasileira. Apesar de inédito na história, essa constatação convive com o fato de que a maior parte da população também acredita que se tem falado excessivamente de raça e que, de algum modo, as premissas da democracia racial ainda têm certo valor. Diante desses dados aparentemente contraditórios, resta questionar: qual o lugar do racismo na estruturação da sociedade brasileira?

Para responder a essa questão, é preciso descartar de imediato a falsa oposição, ainda presente no debate público, entre raça e classe. Ao contrário do que muitos acreditam, o principal efeito do racismo brasileiro está justamente na nossa estrutura de classe. É a discriminação a principal responsável por manter na base da pirâmide social grande parte da população preta e parda, muitas vezes impedida de acessar espaços de poder, prestígio ou prosperidade. Logo, nossas desigualdades raciais não têm a ver somente com a maior sobreposição entre negritude e pobreza, mas também com o outro lado da estratificação social: as classes médias e as elites.

Dito isso, o primeiro desafio é entender o racismo não apenas como mais uma das nossas mazelas sociais, mas também como uma injustiça fundante da sociedade brasileira. A história brasileira de formação da concepção hegemônica de nação está umbilicalmente ligada à problemática racial, desde o fim do século 19, quando se considerava a mestiçagem com negros e indígenas uma das causas da nossa degenerescência, até o início do século, quando o ideal de democracia racial foi oficialmente adotado pelo Estado como mito nacional. Em ambos os casos, a raça ocupou um lugar central nessas narrativas.

Vale notar que em qualquer lista de problemas prioritários do país, três sempre são mencionados: nossos altos índices de violência, a abissal desigualdade no mercado de trabalho e as dificuldades em promover um desenvolvimento equitativo e sustentável. O que nem sempre é tão evidente é como a dimensão racial nos permite entender a articulação entre esses três problemas renitentes da nossa sociedade.

A criminalidade brasileira, por exemplo, é alimentada por jovens negros que aderem a práticas ilícitas porque não obtêm no mercado de trabalho formal ou informal o respeito ou o retorno que almejam, seja porque têm suas trajetórias educacionais frustradas pela discriminação, seja porque simplesmente não encontram espaços de dignidade no mercado. Não à toa, as ocupações onde negros e negras predominam (serviços domésticos, construção civil, comércio informal, serviços de policiamento e segurança etc.) são também aquelas menos reguladas pela lei e mais perpassadas por interações de subalternização e humilhação.

Luiz Augusto Camposé professor de sociologia e ciência política no IESP-UERJ (Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro), onde coordena o Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa, o GEMAA. É autor e coautor de vários artigos e livros sobre a relação entre democracia e as desigualdades raciais e de gênero, dentre os quais “Raça e eleições no Brasil” e “Ação afirmativa: conceito, debates e história”.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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