Isabel Lopes Coelho
A convite da seção ‘Favoritos’, a editora Isabel Lopes Coelho indica 5 livros para conhecer as práticas da literatura infantil brasileira
A literatura infantil é um dos gêneros editoriais que mais cresce no Brasil nos últimos anos. Seja porque voltou a ser impulsionada pelos planos de governo, seja porque apresenta uma profissionalização de toda a cadeia produtiva, fato é que a literatura infantil há algum tempo deixou de ser assunto só para crianças. O potencial gerador de projetos experimentais, a relação intrínseca entre texto, imagem e projeto gráfico, a complexidade da recepção por meio da leitura compartilhada, os temas cada vez mais alinhados com os debates contemporâneos fazem com que o sistema literário dessas produções tão singulares seja composto por diversos personagens, que vão dos contadores de histórias, pais e tutores, a professores, bibliotecários, livreiros e quem mais se apaixonar por essas narrativas tão especiais.
Para entender melhor esses livros ou para refletir sobre essa trama, vemos cada vez mais surgirem obras dedicadas a traduzir essas poesias em livros teóricos e históricos. A seguir, apresento uma pequena relação de obras marcantes, das produções mais recentes às que já são consagradas, para quem quiser se aprofundar na história da literatura infantil brasileira e suas práticas.
Cristiane Tavares e Telma Weisz (orgs.) (Zouk, 2021)
Ainda que o título da obra coloque a literatura no compasso do campo da pedagogia, essa coletânea de ensaios organizada por Cristiane Tavares e Telma Weisz mira uma relação muito preciosa para o exercício da literatura infantil: a leitura compartilhada entre tutores e crianças.
Os ensaios deste livro congregam temas caros ao estudo e à compreensão da literatura infantil contemporânea. Por exemplo, dentro da agenda da inclusão étnica e social, o texto de Bel Santos Mayer e Luciana Gomes traz um delicado estudo sobre a recepção da leitura de obras da mitologia dos orixás afrobrasileiros por crianças. Outra contribuição nesse campo é a de Cristiane Tavares e Marcia Licá sobre o efeito da presença negra nas obras literárias infantis pelo olhar das mediadoras de leitura nas comunidades quilombolas do Maranhão. Há ainda artigos que tocam nas obras de poesia, livros ilustrados, temas tabus, além de dois textos que abordam a literatura infantil com um olhar histórico e outro de problematização dos prêmios literários. Além da abordagem de práticas de leituras recentes, os textos também dão espaço para comentários das obras lidas nas mediações, contribuindo para a construção do fértil quadro brasileiro da literatura infantil contemporânea.
Odilon Moraes, Rona Hanning e Maurício Paraguassu (Cosac Naify, 2012)
A partir da década de 1980, a literatura infantil no Brasil viveu um salto qualitativo exponencial. O investimento de políticas públicas na compra de livros para as escolas gerou um interesse nas editoras em produzir obras de literatura infantil de maior atratividade. Dentro desse espectro, um dos fenômenos responsáveis por esse movimento foi o da profissionalização do trabalho do ilustrador. Essa mudança de cenário qualitativo não se deu apenas pelas melhores condições de impressão e produção, mas significou uma reflexão profunda acerca do papel que o ilustrador desempenha no processo de um livro para crianças, especialmente quando se trata de livros ilustrados. Foi a partir desse momento que os ilustradores passaram a ousar na representação visual das histórias, compreendendo seu trabalho em quatro dimensões e criando objetos não apenas visualmente maravilhosos, mas cuja relação com o texto se tornou não-hierárquica. Essa quebra de paradigma fez com que os ilustradores ocupassem o lugar de coautores dos livros, forçando o mercado a rever, inclusive, questões de ordem contratual, como a divisão de royalties entre o autor do texto e o autor das imagens.
“Traço & Prosa” surge da inquietação de três pessoas ligadas à ilustração da literatura infantil, motivadas elas mesmas pela busca da sua própria identidade. Odilon Moraes, Rona Hanning e Mauricio Paraguassu se lançaram em busca de respostas para uma pergunta: o que é ilustração de livros para crianças? O resultado são doze incríveis entrevistas com ilustradores icônicos do cenário editorial brasileiro do século 20, profissionais que mudaram a maneira como entendemos os livros ilustrados hoje. Nessas histórias de vida, podemos ver a tomada de consciência de cartunistas, publicitários, artistas visuais para essa nova profissão. São relatos que narram como esses profissionais arriscaram largar seus empregos “tradicionais” para investir na literatura infantil, em um momento em que ainda não se falava em ilustradores de livros ilustrados. As entrevistas revelam uma profunda mudança na percepção identitária desses artistas, se assumindo nesse novo ofício.
Fernando Rodrigues de Oliveira (Cultura Acadêmica, 2015)
A história da literatura infantil brasileira está intrinsecamente conectada aos eventos da esfera pedagógica. Há décadas que as premissas o que ler, como ler e quando ler nas escolas são orientadas por políticas públicas que afetam a produção literária das editoras. Essas “recomendações” também se refletem no mercado privado, atingindo, então, todo o sistema literário da área. Nessa toada, a figura do educador torna-se central no processo de apresentação das obras de literatura infantil para os leitores iniciantes – muitos deles só terão contato com a literatura por meio das atividades escolares. Assim, aprofundar-se no desenvolvimento das políticas escolares e materiais de formação de docentes sobre leitura e literatura é também acompanhar os primeiros passos da crítica literária em literatura infantil no Brasil, suas intenções e visões.
O trabalho de Fernando Oliveira neste campo é exemplar. O jovem pesquisador e professor da Unifesp dedicou uma década a este livro, fruto de sua tese de doutorado. A obra localiza os pontos de congruência entre a maneira como a literatura infantil brasileira foi lida e percebida a partir das exigências do currículo escolar – ainda que o estudo seja focado no estado de São Paulo. É por meio do estudo de Oliveira que podemos identificar a gênese da criação de cânones, daquilo que é ou não recomendado como leitura de qualidade nas escolas e, como consequência, os movimentos editoriais no sentido de produzir obras em consonância a essas políticas.
Marisa Lajolo e Regina Zilberman (Ed. revista e ampliada. São Paulo: Editora Unesp, 2022)
É inegável a contribuição de Marisa Lajolo e Regina Zilberman para a sistematização da história da literatura infantil brasileira. A dupla dedicou uma vida de pesquisa e descobertas ao estudo da área, abrindo flancos importantes como a introdução do tema no universo acadêmico, sem abandonar em seus textos a linguagem acessível a um público mais amplo. Neste sentido, Lajolo e Zilberman conquistaram um espaço e reconhecimento nacionais contribuindo para que a literatura infantil circulasse nos mais diversos fóruns.
“Literatura infantil brasileira” pode ser considerada uma das obras mais importantes da produção intelectual das autoras – e, por consequência, uma das fontes de referência mais usadas por pesquisadores. Neste livro, elas organizam os principais marcos históricos da literatura para crianças no país, começando do século 19 até o final da década de 1970. Mas a importância da obra não está somente na estruturação de fatos e momentos. A dupla também faz leituras de diferentes títulos com comentários que aprofundam a percepção dos mesmos. Enfim, uma visão histórico-sociológica do Brasil, que levanta aspectos da teoria literária nas análises e faz jus ao subtítulo da obra: “história e histórias”.
Cláudia de Arruda Campos (Edusp, 1998)
As obras críticas sobre literatura infantil brasileira ainda pecam por deixar de fora um gênero muito importante: o teatro. Historicamente, as artes cênicas tiveram um papel muito importante na construção das primeiras narrativas populares para crianças, em períodos de grande analfabetismo – antes das políticas que tornaram obrigatória a escolarização na infância e na juventude. Neste sentido, o campo de pesquisa em teatro infantil no Brasil ainda tem muito por ser descoberto e escrito, desde as peças apresentadas em teatro até as manifestações populares presentes em diversas regiões do país.
Das poucas obras existentes sobre o tema, uma ganha destaque: “Maria Clara Machado”, de Claudia Arruda Campos. Neste livro vistoso, Campos resgata o trabalho de uma das mais respeitadas dramaturgas brasileiras: Maria Clara Machado, autora de “Pluft, o fantasminha ”.
O livro resgata a história do teatro brasileiro infantil e da companhia Tablado, fundada pela biografada – que se confunde com a própria trajetória de vida da dramaturga. Em uma edição caprichada, o generoso projeto gráfico abre espaço para imagens históricas das peças de Machado, não apenas da encenação dos espetáculos, como também dos icônicos cartazes que levaram para espectadores mirins ousados textos e performances, quebrando paradigmas da arte para crianças.
Isabel Lopes Coelho é autora da obra “A representação da criança na literatura infantojuvenil” (Ed. Perspectiva, 2020) fruto da sua tese de doutoramento em Teoria Literária e Literatura Comparada, título obtido na USP, com bolsa de fellowship na Internationale Jugendbibliothek (Munique, Alemanha). A obra recebeu o prêmio Melhor Livro Teórico da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e foi finalista do prêmio da International Research Society of Children’s Literature (IRSCL). Por doze anos, esteve à frente do núcleo Infantojuvenil da editora Cosac Naify. Pelo trabalho nessa editora, recebeu em 2012 o prêmio BOP – Best Children’s Publisher of the Year, concedido na Feira Internacional do Livro Infantil de Bolonha. Participou de diversos eventos internacionais, como convidada e palestrante, como o Courants du Monde (França), Minimondi (Itália), FIL (Guadalajara, México), Rendez-Vous Québec Éditions (Canadá), Sharjah Book Fair Conference (Emirados Árabes). Atualmente é publisher de literatura na FTD Educação e ministra cursos e palestras sobre literatura infantil e sobre o livro ilustrado, além de coordenar e ministrar a disciplina Processos Editoriais Contemporâneos para o Livro Ilustrado na pós-graduação do Instituto Vera Cruz.
*Caso você compre algum livro usando links dentro de conteúdos do Nexo, é provável que recebamos uma comissão. Isso ajuda a financiar nosso jornalismo. Por favor, considere também assinar o Nexo.
Destaques