Trechos

‘Nacional-populismo’: como se formou a onda da extrema direita

Roger Eatwell e Matthew Goodman


28 de agosto de 2020

Temas

Compartilhe

O ‘Nexo’ publica trecho de livro que analisa o que está por trás da ascensão de líderes da direita conservadora em todo o mundo. Contrariando explicações simplistas, os autores defendem que esse fenômeno está há décadas em formação e pode ser mais duradouro do que seus opositores gostariam de imaginar

O Nexo depende de você para financiar seu trabalho e seguir produzindo um jornalismo de qualidade, no qual se pode confiar.Conheça nossos planos de assinatura.Junte-se ao Nexo! Seu apoio é fundamental.

Existem muitos mitos sobre o nacional-populismo. Dos Estados Unidos à Europa, os movimentos nacional-populistas são vistos como refúgio para preconceituosos irracionais, perdedores desempregados, rejeitos do cinturão da ferrugem, eleitores atingidos duramente pela Grande Recessão e velhos brancos e raivosos que morrerão em breve e serão substituídos por tolerantes millennials. À sombra de Trump, do Brexit e da ascensão do nacional-populismo na Europa, incontáveis escritores traçaram uma linha reta entre uma alienada subclasse branca no interior americano, aposentados raivosos nas cidades costeiras inglesas em vias de desaparecimento e desempregados nas áreas devastadas da Europa. Especialmente no Brasil e em países com frágeis tradições democráticas, muitos comentadores viram a ascensão de políticos como Bolsonaro como sinal de que os apoiadores desejam uma liderança autoritária ou mesmo um governo militar.

As pessoas tendem a reduzir movimentos altamente complexos a “um tipo” de eleitor ou “uma causa” porque querem explicações simples e diretas. Mas, quando consideramos que mais de 62 milhões de pessoas votaram em Trump, mais de 17 milhões no Brexit, mais de 10 milhões em Marine Le Pen e quase 6 milhões no Alternativa para a Alemanha, a ideia de que os movimentos nacional-populistas podem ser reduzidos a estereótipos simplistas é ridícula. Ela também possui implicações reais: no longo prazo, diagnosticar erroneamente as raízes do apoio aos nacional-populistas tornará mais difícil para seus oponentes voltarem ao jogo.

Alegações enganosas e ciclo de vida

Os mitos estão florescendo. Na Europa e nos EUA, o primeiro é a ideia de que o nacional-populismo é impulsionado quase exclusivamente por desempregados e pessoas de baixa renda ou na pobreza. Mas, embora haja variação de país para país, ele lançou suas redes de maneira surpreendentemente ampla na sociedade, recolhendo votos de trabalhadores de tempo integral, conservadores de classe média, autônomos, pessoas de renda média ou alta e até mesmo jovens.

A tendência de retratar Trump como refúgio para brancos atingidos pela pobreza, por exemplo, é profundamente problemática. Durante as primárias americanas, a renda domiciliar média do eleitor de Trump era de 72 mil dólares, comparados aos 61 mil dólares dos apoiadores de Hillary Clinton e Bernie Sanders e aos 56 mil dólares do cidadão médio. Em estados como Connecticut, Flórida, Illinois, Nova York e Texas, o eleitor médio de Trump ganhava 20 mil dólares a mais por ano que a média, refletindo como republicanos e eleitores das primárias tendem a estar em situação melhor. A ideia de que foram os brancos pobres que se manifestaram em massa a favor de Trump também é minada pela descoberta de que as dificuldades econômicas foram na verdade um maior indicador de apoio a Hillary Clinton.

De fato, na primavera de 2018, o cientista político Matt Grossmann revisou quase todos os estudos realizados até então sobre o eleitorado de Trump. Embora tenha encontrado muitas discordâncias, ele também observou como as principais descobertas eram claras: atitudes em relação a raça, gênero e mudança cultural desempenharam grande papel e circunstâncias econômicas objetivas tiveram somente papel limitado. Similarmente, a influente acadêmica Diana Mutz descobriu que mudanças na situação financeira das pessoas na verdade foram insignificantes para explicar o apoio a Trump. Elas empalidecem quando comparadas à preocupação com a ascensão de uma “minoria majoritária nos EUA”, que as pessoas viam como ameaça à posição dominante de seu grupo. “Aqueles que sentiam que a hierarquia estava sendo subvertida — com brancos sendo mais discriminados que negros, cristãos mais que muçulmanos e homens mais que mulheres — tinham maior probabilidade de apoiar Trump.”

Veja ainda o caso do Brexit. Alguns atribuíram o choque resultante a condições macroeconômicas extremas, a despeito de a votação ter ocorrido em um momento no qual o desemprego na Grã-Bretanha chegava a sua menor taxa desde a década de 1970. A ideia de encerrar a filiação britânica à UE certamente era popular entre pessoas de baixa renda, mas, mesmo entre aquelas com renda média ou acima da média, o apoio ao Brexit foi de 51%. A saída da Grã-Bretanha foi comemorada em cidades industriais em situação difícil, mas também em abastados condados conservadores.

Outro mito popular é o de que toda essa turbulência está enraizada na crise financeira global que irrompeu em 2008, na Grande Recessão e na austeridade que subsequentemente foi imposta às democracias europeias. Visto dessa perspectiva, o nacional-populismo é impulsionado pelos financeiramente prejudicados, que foram atingidos pela tempestade econômica pós-2008. Em seguida a Trump e ao Brexit, o colunista do Financial Times Martin Wolf argumentou que a crise financeira “abriu as portas para um surto populista”. Ele tampouco estava sozinho. Economistas atribuíram o que chamaram de “síndrome Brexit-Trump” a mercados não regulamentados, cortes drásticos nas despesas públicas e perda de fé na ortodoxia econômica. Em suas palavras: “É a economia, idiota.”

Essa “crise narrativa” foi fortemente influenciada pela experiência da Europa entreguerras e pela ascensão do nazismo após o crash de Wall Street em 1929 e a Grande Depressão. O fato de Mussolini e os fascistas da Itália terem tomado o poder onze anos antes é ignorado, assim como o fato de que condições econômicas similarmente extremas em outros países europeus não resultaram em fascismo. A crise narrativa também foi encorajada por eventos mais recentes, como o súbito avanço de um movimento neonazista grego chamado Aurora Dourada. Em 2012, em meio ao colapso financeiro quase total, um partido que organizava bancos de alimentos “somente para gregos” e procissões à luz de tochas e exigia que as empresas substituíssem trabalhadores estrangeiros por gregos étnicos obteve seus primeiros assentos no Parlamento. Para muitos observadores, esse evento confirmou a hipótese de que “crises econômicas equivalem a extremismo político”. O mesmo aconteceu com o surgimento do nacional-populismo após a crise financeira em democracias que se acreditava serem imunes a essa força, como a Finlândia, a Alemanha e a Suécia.

Não há dúvida de que a crise financeira criou espaço para os nacional-populistas. Para além de exacerbar divisões já existentes entre os eleitores, ela contribuiu para a perda de apoio dos partidos tradicionais e para níveis recordes de volatilidade política na Europa, onde as pessoas se tornaram muito mais dispostas a transferir sua lealdade entre uma eleição e a seguinte, como veremos no capítulo 6. Contudo, no Brasil, a última crise financeira foi somente um dos fatores que levaram ao poder o outsider político Bolsonaro, que só recentemente se filiaria ao Partido Social Liberal, em um país no qual há corrupção disseminada entre os principais partidos e a taxa de homicídios é muito mais elevada que nos EUA. Muitos de seus apoiadores também foram motivados pela economia liberal e por preocupações sociais de direita, como a hostilidade ao feminismo e aos direitos LGBT, que frequentemente foram associadas à defesa do tradicionalismo cristão. Mesmo sendo deputado federal desde o início da década de 1990, muitos viram Bolsonaro como nova esperança, um salvador nacional. Ele parecia divorciado da corrupção endêmica do país, demonstrada pouco antes pela Operação Lava Jato, que fizera acusações contra empresários e políticos de destaque, incluindo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (embora, depois que se tornou presidente, numerosas acusações tenham sido feitas à família imediata de Bolsonaro, incluindo as de ligações com gangues paramilitares).

Assim, a crise é importante. Mas a noção de que ela é a causa primária não é convincente. Se bastava uma crise, então por que crises passadas, como os choques no preço do petróleo na década de 1970, não produziram uma reação similar? Por que as democracias que foram atingidas mais duramente pela Grande Recessão, como Irlanda, Portugal ou Espanha, só testemunharam insurreições nacional-populistas bem-sucedidas ao fim de 2018? Inversamente, por que alguns dos movimentos nacional-populistas mais bem-sucedidos emergiram em economias fortes e em expansão, com baixo desemprego, como Áustria, Holanda ou Suíça? E, se a crise financeira realmente é a culpada, como explicar o fato de que essa revolta contra a democracia liberal começou muito antes do colapso do Lehman Brothers?

Rastrear o ciclo de vida do nacional-populismo é importante porque ele desafia a ideia de que o que estamos testemunhando é algo novo e nos faz lembrar que precisamos levar a sério as mudanças profundas e de longo prazo. Como os leitores com boa memória lembrarão, foi na década de 1980 que surgiram os mais significativos nacional-populistas na Europa do pós-guerra. Eles incluíam pessoas como Jean-Marie Le Pen na França e Jörg Haider na Áustria, que emergiram prometendo acabar com a imigração, fortalecer a lei e a ordem e enfrentar um establishment “corrupto”. E eles se mostraram mais duráveis do que previram muitos comentaristas, obtendo apoio em diferentes ciclos econômicos e cultivando um forte relacionamento com grupos-chave da sociedade. Eles estabeleceram as fundações do que testemunhamos hoje em grande parte da Europa.

Foi em 1988, o mesmo ano em que George H. W. Bush foi eleito presidente dos EUA, que Jean-Marie Le Pen atordoou a França ao ficar com 14% dos votos durante a eleição presidencial; seu slogan era simplesmente “Le Pen, le peuple” (Le Pen, o povo). Como líder da Frente Nacional (agora chamada de Reunião Nacional), ele permaneceu firmemente no cenário e, quatorze anos depois, em 2002, chocou o mundo ao chegar à etapa final da disputa presidencial. Le Pen perdeu aquela eleição por ampla margem, mas, mesmo assim, foi um grande choque. Atacando vigorosamente os partidos convencionais, ele apresentou a Frente Nacional como único partido capaz de solucionar as divisões socioeconômicas do país, pôr fim à imigração, construir 200 mil celas prisionais, reintroduzir a pena de morte para combater o aumento da criminalidade, usar impostos sobre as importações para proteger os empregos franceses, descartar o euro como moeda única e tirar a França da UE.

Logo vieram outros. Durante as décadas de 1990 e 2000, vários nacional-populistas emergiram em países ocidentais. Um grande estudo com dezessete democracias europeias descobriu que o nacional-populismo experimentou a maior parte de seu crescimento antes da crise financeira e, depois dela, frequentemente obteve os maiores ganhos em áreas que escaparam de seus piores efeitos.5 Na Grã-Bretanha, embora muitos escritores mais tarde tenham atribuído o Brexit à austeridade pós-crise, eles esqueceram que foi em 2004 que Nigel Farage e o UKIP obtiveram seu primeiro grande sucesso, ocorrido após 48 trimestres consecutivos de expansão econômica. Farage, como outros, conquistou eleitores não somente entre a classe operária, que estava empregada, ainda que precariamente, mas também entre conservadores de classe média relativamente abastados. Os movimentos nacional-populistas surgiram também em outros países: a Liga na Itália, o Partido do Progresso na Noruega, o Lei e Justiça na Polônia, os partidos do Povo na Dinamarca e na Suíça e o Fidesz de Viktor Orbán na Hungria. No início do século 21, alguns haviam sido tão bem-sucedidos que entraram no governo, fosse diretamente ou como parte de uma coalizão. Vários já estavam nesse caminho muito antes da crise e do presidente Trump.

Roger Eatwell é professor emérito de política na Universidade de Bath, no Reino Unido. Publicou diversos títulos sobre fascismo e populismo, incluindo “Fascism: A History”.

Matthew Goodwin é professor de política na Universidade de Kente e senior fellow na Chantham House. Publicou obras sobre o Brexit e a ascensão da extrema direita no Reino Unido. Escreve para o New York Times, Financial Times e Politico, e trabalhou com mais de 200 organizações em assuntos relacionados à volatilidade política no Ocidente.

Capa do livro "Nacional-populismo: a revolta contra a democracia liberal", ilustrada com a imagem de uma onda

Nacional-populismo: a revolta contra a democracia liberal

Roger Eatwell e Matthew Goodman

Trad. Alessandra Bonrruquer

Editora Record

350 páginas

Lançamento em 31 de agosto