Expresso

O que esperar de Aloysio Nunes no comando das Relações Exteriores do Brasil

João Paulo Charleaux

02 de março de 2017(atualizado 28/12/2023 às 01h34)

Itamaraty tem troca de comando, mas segue nas mãos dos tucanos. Novo titular tem perfil direto e, em alguns momentos, agressivo: em novembro, disse que Trump ‘é o que há de pior’

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FOTO: PEDRO FRANÇA/AGÊNCIA SENADO

Senador foi escolhido por Temer para ocupar cargo de ministro das Realções Exteriores

Aloysio Nunes declara voto durante sessão no Senado Federal

O senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) foi indicado nesta quinta-feira (2) pelo presidente Michel Temer para assumir o Ministério das Relações Exteriores.

O cargo estava vago desde o dia 23 de fevereiro, quando o titular anterior da pasta, José Serra (PSDB), pediu exoneração alegando problemas de saúde. Serra voltará ao Senado e terá de lidar com citações feitas por delatores da Operação Lava Jato.

Essa é a oitava troca de ministros em nove meses de governo Temer. As mudanças acontecem no momento que o presidente enfrenta seu pior nível de popularidade — 44% consideram o atual governo ruim ou péssimo — e vê aumentarem as citações a seu próprio nome e a nomes de colaboradores próximos por parte de delatores da Lava Jato.

Quem é o novo chanceler

Aloysio era líder do governo no Senado, onde, desde 2015, presidia a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional. O senador, que é formado em direito e pós-graduado em economia e em ciência política, sempre teve participação ativa em temas internacionais.

Ele foi autor do Projeto de Lei do Senado nº 288/2013, conhecido como Lei de Migração , que revogou o anterior Estatuto do Estrangeiro. Na definição do próprio senador, a nova lei “prevê tratamento humanitário ao migrante e se pauta pela garantia dos direitos humanos ”, enquanto a anterior era “voltada ao controle policial dos migrantes”. A medida foi considerada positiva por organizações de direitos humanos.

Por outro lado, Aloysio foi criticado por esses mesmos grupos ao defender com entusiasmo a Lei 13.260/2016 , que tipificava o crime de terrorismo. O senador havia sido relator do projeto e, à época da tramitação do texto, criticava o vandalismo em protestos de rua. Movimentos que naquele momento realizavam marchas contra a Copa do Mundo, ainda no ano de 2013, temiam que a lei defendida pelo senador fosse usada para condenar manifestantes quando aprovada.

Aloysio — que, antes de assumir o assento no Senado, havia sido deputado federal três vezes e deputado estadual duas vezes, além de vice-governador de São Paulo — disse que o presidente americano Donald Trump “é o que há de pior”, num post do Twitter, no dia 9 novembro de 2016, quando o republicano foi eleito para a Casa Branca.

O estilo direto e por vezes agressivo do agora chanceler também se manifestou na crítica a chefes de Estado e a outras autoridades internacionais que se opuseram ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. As declarações nesse sentido dadas pelo secretário-geral da Unasul, Ernesto Samper , foram classificadas por Aloysio como “ estapafúrdias ”.

O senador também fez muitas críticas abertas a países vizinhos governados por presidentes que ele considera alinhados ao PT. A Venezuela, onde Aloysio esteve realizando uma viagem de solidariedade a líderes opositores, em 2015, foi classificada pelo agora chanceler como um país que “ marcha para a ditadura ”.

Em 2014, Aloysio concorreu à vice-presidência da República na chapa encabeçada pelo senador Aécio Neves. A dupla acabou derrotada por Dilma Rousseff (PT) e seu então candidato a vice e hoje presidente, Michel Temer, no segundo turno.

Durante o governo Dilma, foi ferrenho defensor do impeachment. Dentro do PSDB, o senador é considerado aliado de Serra na disputa interna travada contra outra corrente tucana, representada pelo atual governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

Na Lava Jato, o senador foi citado pelo dono da empreiteira UTC, Ricardo Pessoa, e pelo ex-diretor financeiro da empresa, Walmir Pinheiro. Em delação premiada eles disseram ter doado R$ 500 mil para a campanha de Aloysio ao Senado, em 2010, sendo R$ 200 mil via caixa dois. O Supremo autorizou a abertura de um inquérito para apurar as suspeitas. O tucano nega e afirma que todas as doações que recebeu foram contabilizadas.

Nos anos 1970, Aloysio militou na ALN (Aliança Libertadora Nacional), contra a ditadura, mas ao longo da vida política se distanciou da esquerda, à qual passou a criticar com virulência.

Diante da indicação do senador para a chancelaria brasileira, oNexo perguntou a Guilherme Casarões, professor de relações internacionais da ESPM e da FGV:

O que esperar de Aloysio Nunes no Itamaraty?

Guilherme Casarões Aloysio dá continuidade a dois movimentos pelos quais a política externa vinha passando nos últimos meses, desde que o presidente Michel Temer assumiu interinamente [em maio de 2016]. Uma é a continuidade de um projeto do PSDB à frente da chancelaria. Desde que o Serra assumiu [também em maio de 2016] era muito claro que o PSDB tomaria conta daquele ministério até o fim. Esse aliás é um dos pactos difíceis que foram amarrados em maio do ano passado.

Muita gente se espanta com isso, dizendo que o Itamaraty não é o tipo de ministério que pode se submeter a esse tipo de divisão partidária, sendo que a rigor isso não tem nada a ver. Se você pega a história até da Nova República [após 1985], houve vários momentos que o Itamaraty foi, tanto quanto outros ministérios, submetido ao loteamento partidário.

O pessoal se acostumou muito com uma era longa de chanceleres diplomatas — [Luiz Felipe] Lampreia [1995-2001] com Fernando Henrique, Celso Amorim [2003-2010] no período do presidente Lula, e mesmo com a Dilma, apesar da turbulência, houve três chanceleres diplomatas em sequência [Antonio Patriota, Luiz Alberto Figueiredo e Mauro Vieira, de 2011 a 2016] —, mas se esquece que no governo Sarney [1985-1990] os dois chanceleres que nós tivemos foram partidários. Eles eram do PFL [Olavo Setúbal e Abreu Sodré]. No [mandato de] Collor [1990-1992], o Celso Lafer, que foi o segundo chanceler, foi um sujeito escolhido para aproximar o governo do PSDB, e no governo Itamar Franco [1992-1995], parte da coalizão que foi formada inclusive com o PSDB passou pela nomeação do Fernando Henrique, que era senador da República, como chanceler durante um tempo [1992-1993].

Então, essa acusação de que o governo Temer está loteando o Itamaraty é uma acusação que não tem respaldo histórico.

Além disso, a escolha do Aloysio coloca o Serra ainda em evidência. O Aloysio não é um político qualquer dentro do PSDB, ele é um político ligado ao grupo do Serra dentro do PSDB, que pode, entre outras coisas, acirrar a disputa tanto pela presidência quanto pelo governo do Estado [de São Paulo]. Ele [Aloysio] é um candidato em potencial ao governo do Estado — não é uma equação simples, ele não é um candidato espontâneo — mas se a gente parte da consideração de que existe uma briga entre dois grupos do PSDB paulista, o grupo do Alckmin e o do Serra, pela primazia nacional e local, o Serra consegue reequilibrar esse jogo de alguma forma colocando um aliado claríssimo e histórico na chancelaria.

Em relação ao temperamento, a impressão que eu tenho é de que o Serra estava muito focado — apesar de ter tido conquistas importantes no ministério — ele estava muito focado em um projeto pessoal para 2018. O Aloysio não tem esse imperativo, não é isso que está movendo ele agora. E tem outra coisa, ele tem uma trajetória relativamente engajada nas relações internacionais. Desde 2015 ele é presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, ele já participou de várias missões internacionais, ele construiu essa bagagem, esse repertório nos últimos dois anos, e eu acho que ele já entendeu como funciona, digamos, o tempo da diplomacia, de um jeito que o Serra talvez não tivesse como aprender.

A vantagem do Aloysio é que há muito menos em jogo no seu comando pessoal do Itamaraty do que havia no Serra, e isso pode dar um pouco mais de liberdade para o Aloysio manter as linhas que o PSDB já construiu, muitas das quais herdadas do PT, do finalzinho do governo Dilma — essa coisa do comércio com o México, com a Colômbia, isso já vinha.

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