O que muda e o que não muda com os novos lotes de vacina
Mariana Vick
22 de janeiro de 2021(atualizado 28/12/2023 às 22h56)Índia envia 2 milhões de doses de Oxford/AstraZeneca ao Brasil, depois de impasses na negociação. Junto com doses do Butantan, imunizantes dão fôlego à campanha de vacinação, mas ainda são insuficientes para grupos prioritários
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Avião com doses da vacina de Oxford/AstraZeneca trazidas da Índia, no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP)
A Índia enviou ao Brasil um avião com 2 milhões de doses da vacina de Oxford/Astrazeneca na tarde de sexta-feira (22), depois de uma série de atrasos na exportação do produto, que representaram um desgaste para o governo brasileiro na última semana.
O avião indiano desembarcou em São Paulo, e a entrega das vacinas foi acompanhada por autoridades do governo federal. Os imunizantes devem seguir para a Fiocruz, no Rio de Janeiro, na madrugada deste sábado (23), e serão distribuídos aos estados a partir do período da tarde.
A campanha de imunização contra a covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, começou no país no último domingo (17), pouco depois de a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) ter aprovado o uso emergencial da Coronavac e da vacina de Oxford/AstraZeneca no país.
Sem dispor de doses da vacina de Oxford, que ainda não começou a ser fabricada no Brasil, a campanha contava exclusivamente com doses da Coronavac até esta sexta-feira. Os imunizantes haviam sido importados da China pelo governo do estado de São Paulo, e o Ministério da Saúde os distribuiu aos estados.
404 mil
brasileiros haviam sido vacinados com a primeira dose da Coronavac até sexta-feira (22) em 12 estados, segundo informações de consórcio de veículos de imprensa
O plano original do governo federal era que, após a aprovação da Anvisa, a campanha de imunização contra a covid-19 fosse iniciada com a vacina de Oxford/AstraZeneca, que segundo as autoridades brasileiras chegariam da Índia na sexta-feira anterior à reunião da agência sanitária, dia 15. O acordo, porém, não estava fechado, e as doses não chegaram nesse prazo.
A vacina de Oxford/Astrazeneca era a aposta do governo de Jair Bolsonaro na crise da covid-19. A Coronavac, por outro lado, era a aposta do governador paulista, João Doria (PSDB), que é adversário político de Bolsonaro. O uso da Coronavac no plano nacional de vacinação chegou a ser descartado pelo presidente em 2020.
Com a chegada das doses da Índia, o país conta agora com dois imunizantes para a campanha de vacinação contra a covid-19, em um contexto de escassez das doses disponíveis e entraves para a produção de mais vacinas no Brasil.
Mais doses também serão introduzidas na campanha de vacinação do país depois do aval da Anvisa, nesta sexta-feira (22), ao uso de um novo lote de 4,1 milhões da Coronavac, envasadas no Instituto Butantan.
As novas remessas devem dar mais fôlego à imunização no país. Mesmo assim, a quantidade não é suficiente para vacinar todos os grupos prioritários da campanha, e as negociações para obter mais imunizantes ainda precisam avançar.
A quantidade de doses disponíveis até o fim da primeira semana de campanha, 6 milhões, não foi bastante para vacinar os grupos considerados prioritários no Plano Nacional de Imunização. Os estados receberam o suficiente para vacinar 3 milhões de pessoas, pois a vacina deve ser aplicada em duas doses. Com as novas doses da vacina de Oxford e da Coronavac, seria possível vacinar cerca de 3 milhões a mais — o que ajudaria a manter a campanha por mais tempo, mas ainda não seria suficiente para todos que precisam no momento.
O Plano Nacional de Imunização original definia que, na primeira fase da campanha contra a covid-19, seria obrigatório vacinar profissionais de saúde, idosos a partir de 75 anos, idosos institucionalizados e indígenas. Os grupos somam juntos mais de 8 milhões de pessoas, segundo o governo federal.
Profissional de saúde recebe dose da Coronavac em frente à estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro
Com a escassez de doses, o plano excluiu idosos a partir de 75 anos e incluiu pessoas com deficiência institucionalizadas na primeira fase da vacinação. Em São Paulo, os quilombolas , que constavam nas prioridades do plano estadual, também foram excluídos da primeira fase da campanha, mas o governo estadual voltou atrás .
Mesmo com mudanças no plano de imunização, estados e municípios têm dificuldades para definir prioridades no contexto de escassez. Entre os impasses está o de decidir como imunizar os profissionais de saúde , que incluem categorias tão diferentes quanto intensivistas, veterinários e educadores físicos.
Na quinta-feira (21), as secretarias de Saúde de Manaus e do estado do Amazonas suspenderam a vacinação por um dia para definir os critérios de seleção dos profissionais que receberão as doses disponíveis. Especialistas e entidades da área médica defendem a priorização de profissionais que estão na linha de frente da resposta à covid-19.
Outro impasse se refere à vacinação de indígenas. Os grupos priorizados neste momento são indígenas aldeados , ou seja, aqueles que vivem em terras demarcadas. O critério exclui os indígenas que vivem em contexto urbano e aqueles que estão em terras não demarcadas ou em situação de disputa territorial.
O início da campanha de vacinação contra a covid-19 também vem sendo marcado por suspeitas de irregularidades. Em ao menos sete estados autoridades investigam casos de pessoas que estão fora do grupo prioritário, mas supostamente “furaram a fila” e se vacinaram. Os investigados são, na maioria, prefeitos e funcionários públicos.
A campanha de vacinação no país não tem apenas o problema da escassez de doses: tem também o problema da falta de insumos necessários para produzir mais doses. Sem produção local, o país corre o risco de precisar interromper a campanha de vacinação, pouco depois de tê-la iniciado.
O país depende principalmente da importação de insumos da China para conseguir produzir imunizantes em solo nacional e usá-los na campanha de vacinação brasileira. O principal deles é o IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo), componente que garante que a vacina cumpra seu papel de imunizar o organismo.
O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, em evento em Brasília
A importação de IFA está atrasada, pois a China tenta equilibrar a imunização da própria população com a estratégia de exportar o insumo. O movimento repete a diplomacia sanitária que já havia marcado o início da pandemia, com vendas e doações de máscaras, respiradores e outros insumos de Pequim ao exterior.
O problema afeta tanto a produção da Coronavac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, do governo paulista, quanto do imunizante da Universidade de Oxford com a farmacêutica anglo-sueca AstraZeneca. O IFA usado na fabricação de cada uma das vacinas é diferente.
O Butantan recebeu 6 milhões de doses prontas da China e produziu 4,1 milhões no Brasil, usando IFA importado. A Fiocruz, que deve produzir a vacina de Oxford no Brasil, precisa receber os insumos do país asiático para começar a fabricação do imunizante e prevê entregar as primeiras vacinas produzidas em território nacional apenas em março.
O impasse é semelhante ao que o Brasil teve com a Índia até receber as primeiras doses da vacina de Oxford na sexta-feira (22). A Índia também atrasou o envio dos imunizantes ao país porque buscava equilibrar a exportação das doses com a imunização da população local. Por enquanto, ainda não há data para chegada dos insumos chineses.
Apesar das decisões internas da China e da Índia, a diplomacia brasileira tem responsabilidade pelos atrasos dos insumos, segundo especialistas. “O governo Bolsonaro criou muitas tensões e problemas desnecessários”, disse Mauricio Santoro, cientista político e professor do departamento de relações internacionais da Uerj, em entrevista ao Nexo publicada na quarta-feira (20).
O Ministério da Saúde negocia com a China a chegada dos insumos. A embaixada do país no Brasil disse na quinta-feira (21) que fará esforço máximo para avançar na importação. Os governos estaduais, como o do estado de São Paulo , também têm dialogado com os chineses para tentar garantir que a campanha de vacinação não seja interrompida.
Com a escassez de doses de vacinas, uma das medidas cogitadas entre autoridades do país é adiar a aplicação da segunda dose da Coronavac, com o objetivo de usar todos os imunizantes disponíveis agora para ampliar a quantidade de pessoas imunizadas com o primeiro lote de vacinas.
A Coronavac deve ser aplicada em duas doses em um intervalo de 14 a 28 dias, segundo os desenvolvedores do produto. O Instituto Butantan afirmou na quinta-feira (21) que não endossa a proposta de adiar a segunda dose, pois não é possível saber sobre a resposta imune de pacientes que fiquem um período mais longo sem a segunda aplicação.
Cientista analisa doses da Coronavac na Turquia
A Fiocruz, por outro lado, recomenda a aplicação de uma dose única da vacina de Oxford no primeiro momento. “Nós já temos uma comprovação da eficácia de 73% por 120 dias a partir da primeira dose. Tratamos a segunda dose quase como um reforço”, disse Marco Krieger, vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz, em entrevista na quinta-feira (21). Por enquanto, o Ministério da Saúde diz que a imunização deve seguir o que sugere a Oxford/AstraZeneca.
A proposta de adiar a segunda dose da vacinação para cobrir mais pessoas o mais depressa possível foi adotada no Reino Unido , que desde o início de dezembro de 2020 vem aplicando em sua população o imunizante da Pfizer e a vacina de Oxford/AstraZeneca. A eficácia da dose única na região, porém, ainda é pouco conhecida.
Em Israel, que vacinou grande parte de sua população com a primeira dose da Pfizer, a estratégia não parece estar dando certo. A Pfizer havia estimado que a dose única poderia atingir 52% de eficácia — com duas doses, ela é de 95% —, mas na prática o resultado foi menos eficaz do que se imaginava, segundo as autoridades do país.
Caso consiga os insumos necessários, o Instituto Butantan diz que terá capacidade de produzir 1 milhão de doses da Coronavac por dia. O laboratório promete entregar, ao todo, 46 milhões de doses da vacina até abril. A Fiocruz diz que planeja entregar 100 milhões da vacina de Oxford no primeiro semestre.
Os representantes de outra vacina, a Sputnik , produzida na Rússia, tentam obter a autorização para uso emergencial do imunizante no Brasil. A Anvisa, contudo, recusou um pedido dos russos no último sábado (16), pois não houve testes clínicos da Sputnik no país. Os russos podem apresentar um novo pedido.
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